sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Minha participação no 1º Festival Mário de Andrade

Virada do Livro - 1º Festival Mário de Andrade
Conto com a sua presença
A Livraria da Gente está no Corredor do Livro, nos dias 5 e 6 de outubro de 2019, na rua Cel. Xavier de Toledo, entre a rua 7 de Abril e o Teatro Municipal.


Virada do Livro

A Livraria da Gente está no Corredor do Livro, neste final de semana, nos dias 5 e 6 de outubro de 2019, na rua Cel. Xavier de Toledo, entre a rua 7 de Abril e o Teatro Municipal.

Mais informações: 1º Festival Mário de Andrade


domingo, 14 de julho de 2019

Entrevista que eu concedi ao blog Entre Linhas, no ano de 2015


1.
    De onde surgiu a motivação para ser escritor e se alguém o influenciou?

Não me lembro de ter sido influenciado por outra pessoa para iniciar meus escritos, mesmo tendo plena consciência que sempre somos influenciados por alguma coisa ou pessoa e, em especial, as experiências vividas no dia a dia.  Acredito que na minha infância o que me despertou ao gosto pela leitura foi ouvir meu pai lendo a bíblia e ensinando-me a lê-la, e minha mãe declamando alguns poemas populares, desses que passam de geração em geração, e um primo meu que quando passava por lá, onde eu morava, contava histórias. E isso, penso eu, aguçou em mim a busca pelo sabor das palavras. Por outro lado, é importante ressaltar que tive a minha infância e adolescência num sítio, no município de Colônia Leopoldina, uma pequena cidade no estado de Alagoas, para chegar a uma escola precisava andar de uma a duas horas a pé. Ou seja, os primeiros contatos que eu tive com a leitura foram ao observar o raiar do sol pela manhã, ouvir o cantar dos pássaros ao amanhecer de cada dia e sentir o cheiro de terra adentrando minhas narinas, trazendo-me cheiro de vida, essência poética para o meu existir. Já aqui em São Paulo, quando cheguei em 1998, fiquei perplexo com o contraste vivenciado por mim: a correria, o barulho dos carros, muito diferente do canto dos pássaros lá no Nordeste. Mas, hoje, estou completamente habituado na cidade grande, sem perder a minha história, a minha narrativa, a essência de tudo o que me faz ser o que sou atualmente.

2.      Por que você gosta de escrever?

Escrever é o que me faz viver. Não me vejo sem escrever. Acredito que a minha vida não teria graça se hoje eu não estivesse saboreando o sabor de cada palavra, vivendo a experiência de cada personagem. Às vezes eu penso que se não existisse a arte, a vida seria um vão sem essência, sem sabor, sem cor; neutra.

3.      Quais são os livros/autores/personagens favoritos e porquê?

São muitos. Só este ano já li 18 (dezoito livros), e só se passaram quatro meses de 2015. Mas vou aproveitar a oportunidade para falar do livro que acabo de concluir a leitura: Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus. Diário de Bitita é um livro que em cada linha discorre um pouco de vida, de morte, de amor, de dor, ao descrever a vida da própria autora, em tom poético. Ela escreve com maestria, mostra um Brasil dos primeiros 50 (cinquenta) anos do século 20, diante de todos os seus percalços e sonhos, na esperança, no olhar de um povo alegre e sofredor. Diário de Bitita torna-se leitura necessária para quem deseja conhecer um pouco mais desse nosso país chamado Brasil, e para quem gosta de apreciar a boa literatura. E, por outro lado, para quem deseja conhecer um pouco mais da face humana refletida em vários reflexos, multifacetada.

4.       Quais e quantos livros lançados e como se deu a carreira?

Até o momento tenho três livros publicados. Comecei em 2009 com o livro: “O copo e a água”, literatura infantil. E estou trabalhando para publicar a 2ª edição, este ano. Depois veio em 2012 o livro de poemas: “Lobisomem pós-moderno”, em parceria com o poeta Márcio Ahimsa, com cinquenta e poucos poemas de minha autoria e cinquenta e poucos poemas de autoria dele. E só um poema é em coautoria. E no final de 2013 publiquei “A parteira”, que é um poema narrativo composto por um pouco mais de 1500 (mil e quinhentos) versos. Em 2014 ficou com o 2º lugar no Prêmio Poetizar o Mundo com Livros.

5.       Você utiliza algum material como referência para escrever, ou é pura e simplesmente inspiração momentânea?

Sinceramente, não acredito que “inspiração momentânea” possa transformar alguém em escritor. Acredito que todo o escritor precisa ler e ler e reler tudo o que ele puder e estiver ao seu alcance. Escrever, ao meu ponto de vista, é um processo contínuo, que exige paciência, dedicação, amadurecimento e coragem. Sim, coragem, escrever também é um ato de coragem. Escrever é inventar novos mundos, pessoas... é desnudar-se em cada obra concluída.

6.       O que você mais gosta nas próprias histórias e se o seu gênero literário encontra dificuldades no mercado?

Acredito que dificuldades sempre vamos encontrar. E isso não é ruim. Ajuda o artista a amadurecer mais. O que eu mais gosto no que escrevo é quando recebo o retorno de algum leitor, de alguma leitora, é o maior prêmio.

7.        De qual forma, ser escritor afetou a sua vida e quando a escrita virou profissão?

É sempre uma felicidade muito grande, a cada momento que concluo algum trabalho literário. E no ofício de escrever vou ser sempre amador. Quando a escrita vira profissão muitas vezes o escritor deixa de escrever por si, perde a essência. E é importante dizer que desejo muito poder viver dos meus escritos, mas que isso não seja uma profissão. Na vida de escritor quero ser como uma criança que brinca, que encontra sentido nas coisas mais simples, que nós adultos, não conseguimos observar no dia a dia.

8. Uma dica valiosa para novos escritores seria?

Ler e ler e ler e depois reler. Depois escreva, reescreva, escreva e não se canse de escrever. Mostre para as pessoas, mas esteja apto e maduro para ouvir críticas, comentários. E tenha muito cuidado com os elogios.

9. No seu entender, qual o papel do leitor para um escritor?

Sem leitor não pode existir escritor.

10.   Como você enxerga a explosão dos livros digitais e se isso compromete os impressos?

Os livros digitais são bem-vindos. Tudo ganha seu espaço e não tira o espaço do outro, é ilusão pensar que o livro digital vai tirar o espaço do livro impresso. O livro impresso continua. O livro digital ganhará seus adeptos. E o ganho de tudo isso? Teremos mais leitores...

#Pra finalizar um espaço onde você pode deixar o que quiser, o que não foi perguntado, o que gostaria de responder:

Antes de tudo agradeço pelo espaço para poder compartilhar um pouco das minhas experiências com a literatura. Aproveito também para dizer que este ano teremos a publicação da 2ª edição do livro “O copo e a água”, e a publicação de mais um poema narrativo.

As palavras têm sabor, experimente-as...


Link para acessar a entrevista no:

Blog Entre Linhas

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gestores culturais em foco


Entrevista que eu concedi ao Itaú Cultural


Qual é a importância de compartilhar com outros gestores as suas experiências na área cultural? Como você vê essa troca?
A cultura é uma partilha que, antes de tudo, precisa ser dialogada com a diversidade. Ou seja, compartilhar é encontrar meios para melhor gerir a cultura, no lugar onde se encontra o gestor cultural. Todas as vezes que conversamos com outros gestores, o nosso olhar se amplia para a inovação, sem esquecermos que a cultura é viva, e se movimenta, e se inova, e envelhece. Isso porque muitas vezes pensamos um projeto no período da manhã e, ao final do dia, já precisamos inová-lo e repensá-lo. A cultura é como a própria existência humana, uma narrativa que constrói ou destrói laços no dia a dia. Portanto, o diálogo entre gestores culturais é de suma relevância para atingir o sucesso almejado.
 Quais são os desafios ou qual é o maior desafio que um gestor/produtor cultural enfrenta hoje no Brasil?
Os desafios são muitos! Principalmente nos dias atuais, quando o próprio artista gere a sua arte. O século XXI está repleto de artistas independentes e, para um artista independente, as dificuldades são maiores. Quem vai assessorar o seu trabalho? Quem vai fazer chegar a sua música ou o seu livro ao público? Sem dizer que pouquíssimos artistas independentes têm recursos financeiros.
Na área literária, sobre a qual tenho mais conhecimento, vejo que, mesmo com certo avanço neste início de século, ainda existem desafios enormes para o escritor independente. Um bom exemplo é a preferência que se dá nas feiras literárias aos escritores que estão na mídia ou que ganharam prêmios literários. E estes continuam elitizados, ou seja, basta olhar a lista dos ganhadores para ver que a maioria deles é de editoras renomadas. Observe os convidados das festas literárias e veja que são aqueles que circulam na mídia, que ganharam prêmios ou são autores de editoras renomadas. Talvez o grande desafio para o escritor independente, que também é o seu próprio produtor cultural, seja transpor algumas muralhas já concretizadas no meio literário.
Para o gestor cultural, entretanto, de uma forma geral, os desafios sempre vão existir. E não vejo isso como algo ruim. Para que essas dificuldades sejam superadas, cabe ao gestor conhecer bem o lugar onde ele se encontra. Nem sempre o produtor/gestor cultural vai atingir o sucesso, mas, se ele não tiver coragem para encarar as dificuldades, é melhor que não se atreva nessa área.
 Em que consiste o trabalho do gestor/produtor cultural? Quais são as habilidades e as competências necessárias para que um gestor/produtor cultural tenha êxito em sua atuação?
Um gestor cultural precisa ser flexível, apto a ouvir e aberto ao diálogo. E diálogo aqui não se resume a um bate-papo, mas a algo bem mais amplo. O gestor cultural precisa ter habilidades e competências para mediar conflitos que possam (e vão!) surgir em sua equipe. Antes de tudo, ele precisa ter liderança e plena consciência de que na gestão cultural não se trabalha sozinho e de que o sucesso alcançado é fruto do trabalho de toda a equipe.
 Como você avalia as políticas culturais praticadas na sua cidade?
Vejo as políticas culturais praticadas na cidade de São Paulo com grande dinamismo. Às vezes pensamos que as coisas estão caminhando bem, mas, então, o quadro político muda e tudo (re)começa!
Na periferia, onde a arte e a cultura são movidas pelo espírito e pela força de um povo que respira e inspira arte, existe uma produção independente muito acentuada: publicação de livros, surgimento de novos cantores, artistas plásticos em busca de espaços para expor a sua arte... Aliás, São Paulo é uma cidade muito dinâmica. É possível ver uma manifestação artística e cultural diferente em cada bairro. Ser gestor cultural na cidade de São Paulo exige movimentação constante por parte desse profissional, caso ele não queira que seus planos e projetos fiquem ultrapassados.

domingo, 30 de junho de 2019

Bruna

A inteligência e a capacidade de lutar de uma pessoa não se provêm do seu tamanho, disse ela, e em seguida acrescentou, sim, é claro, vão ter pessoas discordantes, mas nem todo mundo é provido de sensibilidade humana, por isso chega à certas conclusões; e não me venham com isso ou aquilo querendo justificar atos inumanos por parte de alguns. Não, não me venham pois não tenho tempo para barbaridades.
Fonte da imagem: https://www.procomum.org/2017/05/10/breve-reflexao-sobre-o-comum-e-as-organizacoes-do-seculo-21/
Enfim, é sabido que com o avanço das redes sociais, isto é, da internet de uma forma geral, todo mundo se sente no direito de opinar e, muitos, colocam para fora o monstro que nem mesmo as pessoas conviventes com elas sabiam que existia.

Vivemos em tempos frios, calculistas e sem poesia, refletiu...

Mas não é por isso que vamos abaixar a cabeça e permitir que o verme no esgoto cresça e seja capaz de sufocar a essência da flor que, ali ao lado, parece adormecida. Hoje, nesses tempos de liquefação é até difícil diferenciar as máquinas do ser que se diz humano. E, por outro lado, sabemos que elas, as máquinas, estão se tornando seres vivos; ou seja, estão nos confundindo que têm mais essência do que o próprio indivíduo de carne e osso.

Agora que o esgoto existe e é real, todo mundo sabe, disse...

Sim, todo mundo sabe que mães e pais e crianças diante do desespero sem terem o que comer adentram mares e enfrentam as ondas que choram suas lágrimas e gritam suas dores em plena madrugada diante de corpos, muitas vezes, misturando-se com as águas por não terem suportado a travessia;
Talvez você ainda não tenha percebido, mas o século 21 está desprovido de humanidade, concluiu ela.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Meu livro sobre meio ambiente para educação infantil



SAIBA MAIShttps://www.livrariadagente.com.br/produto/64303/o-copo-e-a-agua

Água de chocalho

O romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar serve de cenário para o romance.

A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu (...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou. Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou.  – Se contar você morre (...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...) Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu prometo (pp. 31,32).

Água de chocalho é um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de hoje.
Capa do livro Água de chocalho

E as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?

O romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que, linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada personagem, e no decorrer da própria narrativa.

O cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido continua sendo mandado por quem detém o poder.

Era terra de Coronel Honório Paes, e isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).

Já na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um significado.

O maior problema de Honório Paes não era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio (...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a vitória do candidato (pp. 67,68).

Benedito Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande maioria.
 
Benedito Ramos
O livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso. 

Ler Agua de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui, se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de presente um exemplar do próprio autor.

Merecidamente, Água de Chocalho é um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL, 2013.  Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’, que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.
Agora, cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de Benedito Ramos...

... Água de Chocalho será um excelente começo.


Informações adicionais:

 Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque 
Preço: 25,00
Onde comprar o livro Água de chocalho:


Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:

ENTREVISTA - 1ª PARTE


ENTREVISTA - 2ª PARTE


domingo, 16 de junho de 2019

Náusea pós-moderna

Este é o tipo de texto que dificilmente alguém vai lê-lo até o final na internet, pois ultrapassa 140 caracteres, isto é, todo o tempo que temos, hoje, favorecido pela tecnologia exige que tenhamos menos tempo, inclusive olhar o outro nos olhos e parar para escutá-lo, falta tempo. A cada dia que se passa a humanidade parece estar cada vez mais artificial; eu disse: parece, não afirmo nada. Nesta época vivida é até possível comprar amor pela internet. Como?! Alguém pode questionar com tom exclamativo. E eu responderei: pare e observe mais, pois os seus passos estão muito apressados!

Fonte da imagem: http://www.mac.usp.br

Vivemos em tempos individuais; vivemos! Mas isto não quer dizer que sejamos; e somos! O ser humano carrega em si o desejo individualista implícito. Tantas vezes vejo no olhar das pessoas a felicidade maldosa quando escuta do outro que não está bem. Por que será que existem felicidades assim?; se possamos chamar isso de felicidade. E o desejo de ter se faz presente cada vez mais no ser que chamamos de humano. E o desejo de ser cada vez mais desaparece.

Como falei no início, que dificilmente alguém faz a leitura completa de um texto que ultrapassa os 140 caracteres na internet; neste terceiro parágrafo já estou escrevendo sem saber se existe algum leitor. É possível que exista, sim. Mas vamos voltar ao que estávamos comentando. Falo comentando, pelo motivo de o texto ser um diálogo de quem escreve com quem vai ler, quando lido. E é isso que faço, procuro dialogar, muitas vezes com alguém que eu nem conheço. Este é o ofício de quem escreve, a solidão. Uma solidão satisfatória, cheia de graça, assim como o amor que é compartilhado sem nada cobrar.

Vivemos numa época tão caótica que ao sermos gentis, ao fazer algo bom para alguém, causa desconfiança. É importante que sejamos cautelosos. É importante que sejamos observadores, sim! Mas não podemos esquecer que flores têm espinhos, e o que é mais importante delas não são as pétalas e sim a essência. É de suma relevância não perdemos a sensibilidade. Precisamos beijar a pessoa amada com os mesmos lábios que beijamos o espelho. E não importa que seja por um momento apenas, pois a pena de quem ama é simplesmente amar.



Fonte da imagem: http://controversia.com.br


A correria louca e brusca que a sobrevivência exige não pode ser maior do que o ar que respiramos. Existe tempo para tudo: para amar, para sorrir, para brincar, para respeitar e para ser respeitado, para dormir e para acordar, para amar e para ser amado, para sentir e para ser sentido, para doar e para receber. Existe tempo para tudo, inclusive para morrer. Sim, não fique triste, amigo leitor; isto é, se existe um leitor, já que estamos, ou estou no quinto parágrafo. E talvez o tempo para morrer seja um dos mais importantes da nossa vida. Estranho, né?

É claro que é estranho!

Mas saiba que o mais importante da vida é que ela seja vivida...

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Resenha de Márcio Ahimsa sobre a obra A parteira

O poeta Márcio Ahimsa adentra a alma do livro 'A parteira' e lhe enobrece com um excelente texto:

“No sítio da lagartixa e do limão, ali onde mal sabiam o que era pão, a quem a pátria vomitou e, quando não mata no ventre, na vida” – Lima, Adenildo, A parteira, Editora da Gente, São Paulo, 2013.




É nesse cenário de fábulas onde a terra rachada vomita fogo em labaredas e revela suas veredas que nos deparamos com a essência humana na pele caricata de uma gente que constrói a vida pelo revés do mundo.

A parteira é uma obra concisa, estridente e real que nos mostra à tona de um povo emergindo de sua própria força, sua fé, sua esperança. Aqui, onde muitos já nascem no fim, a vida é um soslaio observando a gruta ao longe, como semente que vigora na tez de uma rocha.

A obra em si possui voz própria, a voz dos esquecidos, que é a voz de quem tem fome e não fala. Comparar a obra de Adenildo Lima com qualquer outra obra é um atrevimento, senão uma ofensa obliqua, pois se temos um caráter construtivo semântico intencional na obra de João Cabral de Melo Neto, ou com um cunho sócio psicológico proposto por Graciliano Ramos em “São Bernardo”, na pele do personagem Paulo Honório, que embrutece a alma, não temos em “A parteira” nada disso. Temos sim o menino Pedro com sua carência de brinquedo, temos a enxada latente cortando seu pé esquerdo na sinonímia de um tempo que ainda acontece na nossa contemporaneidade.


A parteira é um grito e um silêncio, é essa paradoxal verossimilhança da realidade de um país onde, de um lado é latente a dor escorrendo pelo esconderijo em tom vermelho do nosso agreste e, do outro, é como se fosse uma nódoa no tom de um conto de fadas onde se acredita em fantasias criadas, mas não se crê em verdades cruas. Para quem vive no centro ótico do mundo, o agreste, o ocre das capoeiras onde correm as crianças descalças e nuas atrás de um ópio que as tornem reais, qualquer cabra ou maracatu para espetar a dor da realidade, é apenas uma fábula ou história fantástica. Mas no leito dos extremos de uma nação, esteja ela em qualquer continente, os contos de fadas não maquiam a realidade. São verídicas as experiências de uma gente que caminha no revés da história.

Assim, a parteira é o silêncio que se faz ouvir na voz de uma gente onde um punhado de sal é a medicina, sem a charlatanice pregada nas igrejas, sem a filantropia que gera lucros.

Ali, onde Madalena é a mãe do menino abstrato, cheio de ginga e trato, é onde a realidade nos presenteia como ser existente, como ente que se faz presente na orla do ontem, como papel timbrado no prefácio do hoje do que um dia fomos, do que somos, do que ainda vamos descobrir ser.

Em “A parteira”, a mulher abre a serra e se cobre de terra. Se sente a síntese da vida. A parteira é Maria e ao mesmo tempo o enlevo da existência na sua tênue andança. É a agrura de um povo na busca de um arrebatamento: existir.

A obra “A parteira” é a primazia de um tempo de um existir humano onde grito e silêncio são sinônimos dentro de uma equação nunca exata. Pois existir não é simplesmente ser pedra. Existir sugere a mutação do tempo. Sugere ser a lâmina que decepa a própria vida e ao mesmo tempo a chama que acena para o viver.

Nessa obra o homem é assassino de si ao se permitir nascer. É filosoficamente uma catarse sobre a tragédia humana de existir. Quem constrói a realidade? O homem ou a própria realidade das coisas não passa de lembranças de um ser que morre e que, no fim, não é nada?

Nessa obra eu sinto o poeta nascendo pelos vales de sua própria palavra gritando os silêncios que nunca vem à tona, ou que estão sempre consigo amordaçados pelas sandálias que o calçam da nossa triste calçada de sonhos. 

Aqui, nesse cenário de orquestra, a vitrola era um vivo morto com os versos dessa poesia retrato onde João naufragou sem sintomas, de apenas desnutrição.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Um tributo ao poeta Ferreira Gullar


"O GNews Literatura recupera a trajetória do grande escritor maranhense, do espanto inicial da descoberta da poesia à busca pelo essencial dos últimos livros, passando por sua adesão à poesia engajada, o período no exílio e o rompimento com o passado comunista. Além de trechos de diversas entrevistas de Gullar ao longo das últimas décadas, programa traz depoimentos de críticos e amigos."

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Lucas Bueno e Paulo César Feital cantam uma nação entre a dor e a esperança


Depois do primeiro álbum solo, Tinto, que saiu pela gravadora Fina Flor, em 2016, Lucas Bueno lança o segundo, Lágrimas, pela gravadora Warner Chapell Music, 2019; agora, em parceria com o renomado compositor Paulo César Feital. O álbum é composto por dez faixas, todas de autoria de Paulo César Feital e Lucas Bueno, sendo que duas delas têm parcerias póstumas com o eterno bamba João Nogueira, o jongo ‘Setembrina’, e o baião ‘Pão com Goiabada'. E conta também com as vozes das ilustres participações especiais de Nina WirttiMoyseis Marques, Claudio Nucci, Soraya Ravenle e Vidal Assis; sem esquecer, é claro, dos diversos músicos que compõem a harmonia instrumental.

Foto: Divulgação

O álbum ‘Lágrimas’ discorre, metaforicamente, sob os mais de quinhentos anos da história brasileira. De um lado, a dor de grande parte da população, representada no título. Sim, de uma população que chora por não ter o que comer, por não ter direito à saúde e educação dignas para manter a sobrevivência. Mas, por outro lado, é possível perceber o sorriso repleto de esperanças estampado no olhar dessas pessoas que, mesmo diante de dores e mazelas, não perdem a vontade de lutar. E isso é transmitido por meio do ritmo festejo de algumas canções, como fica visível na letra do ‘Samba pra Darcy Ribeiro’: Gosto é de jogar pelada / De abraçar meus companheiros / Tenho a alma enamorada / Como a de Darcy Ribeiro / Tenho um samba da pesada / Da Mangueira, do Salgueiro / Na Portela, Mocidade / Eu sou Brasileiro". Ou seja, Darcy Ribeiro, como sabemos, é um dos brasileiros mais ilustres que temos na história do Brasil, e dedicou a sua vida para a conquista de uma nação onde cada cidadão e cidadã tivesse os mínimos direitos assegurados, por isso essa ilustre homenagem, porque é preciso “resistência em solo brasileiro”. E resistente ele foi até os últimos momentos de sua existência.

E, como sabido, a arte é uma forma de resistência. E nunca é descabido visitar e revisitar outros artistas; aliás, vejo sempre como um ato de inteligência o diálogo feito num trabalho artístico com outros nomes, como esses citados nas letras do álbum ‘Lágrimas’, artistas de suma relevância no cenário brasileiro que descem e sobem as veredas de Guimarães Rosa, assim como discorrem sob os versos de Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida, e se sensibilizam na poesia exposta no olhar das ‘Colombinas de Vila Mimosa,’  Que banham o sexo com leite de rosas / Nascem sem nada, / Vendidas na estrada, / Nos guetos, vielas, / favelas e dunas”. Afinal, o fazer artístico é uma síntese fotográfica, um registro dentre metáforas da história de uma nação, ao caminhar por meio da linguagem poética. O que faz despertar em alguns o desejo de resistir, de não deixar os sonhos morrerem diante de algumas arbitrariedades impostas por quem detém o poder.

E esses dois compositores e intérpretes fazem isso muito bem aqui nesse trabalho musical, num diálogo envolvente com diversos artistas, quer sejam nas parcerias, nas participações ou nas citações.

Por isso, o trabalho musical dos artistas mostra um feito conseguido por poucos, onde o resultado final se completa em harmonia e composição, isto é, letra, melodia e arranjo. Lucas Bueno que, no primeiro álbum já mostrou o seu estilo, apresenta-se aqui numa sintonia onde, aos poucos, vai se consagrando como cantor e compositor, porque, ao fazer parceria com Paulo César Feital – compositor com canções gravadas por artistas como Chico Buarque, Milton Nascimento, Alcione, dentre outros –, só tem a acrescentar, ao fundir estilo e experiência. E este álbum, em especial, apresenta-se com um teor mais crítico no sentido social, histórico e político do que Tinto, seu primeiro álbum solo, ou seja, resultado da parceria com Paulo César Feital.

Foto: Divulgação

Portanto, é importante ressaltar que o álbum ‘Lágrimas’ não é um trabalho com objetivos de levantar bandeira político-partidária. Não, não é. Aliás, é possível perceber que tem sim um teor crítico muito forte nas letras, como supracitado. Mas o que é a arte se lhe faltar isso? Diria que um objeto jogado ao mundo sem essência humana. E, ainda mais, acrescento, o que é o ser humano sem senso crítico? Nada mais nada menos do que um fantoche. Por isso, é preciso e se faz necessário cantar a dor de um povo, mas sem esquecer o sorriso esperançoso no olhar de cada um que acredita ser possível vencer; pois, “Cabe a nós, / Os filhos dessa Mãe Gentil / Mudarmos o futuro atroz / Da Alma do Brasil!”

Enfim, como foi descrito no decorrer desse texto, ‘Lágrimas’ é um trabalho musical bem festejo, é até possível que se o ouvinte não for bem atento passe despercebido diante do teor crítico da obra como, por exemplo, a música ‘É foda’, ela é dançante, festeja e nos leva a sentimentos de comemorações, mas se observarmos bem a letra vamos perceber que existe uma crítica contundente, principalmente referente aos últimos anos vividos no Brasil:  É foda, é foda / Pensar tá proibido, meu irmão /  É foda, é foda /  Assassinaram a Constituição.”, isto é, em um país onde um ministro da Suprema Corte diz que as decisões do Supremo Tribunal Federal precisam ‘corresponder aos sentimentos da sociedade’, ou seja, não podem ser contrárias ao clamor popular, chegamos à conclusão, infelizmente, que a Carta Magna, nos momentos atuais, é apenas um texto qualquer, e isso nos leva a concordar que ‘assassinaram a Constituição.’


Mas, antes que eu esqueça, quero destacar aqui a parceria póstuma com João Nogueira, na música ‘Pão com Goiabada.’ Ao meu ponto de vista, ficou perfeita, a letra é criteriosamente bem trabalhada, e o resultado final como música é, sem sombra de dúvida, um clássico, assim como qualquer um outro da Música Popular Brasileira. Vale muito a pena ouvir e apreciar o trabalho desses dois artistas.

Aliás, estamos esperando o quê? Pois o álbum ‘Lágrimas’ está disponível em diversas plataformas digitais.

Avante...