sábado, 20 de julho de 2019

De Vries


Não. É claro e evidente que não sei seu nome. Lembro seu olhar doce e aconchegante aos meus olhos. Onde você mora também não sei. Existir é um longo caminho que fazemos a cada segundo vivido. Você foi especial. Você é especial. Talvez seu nome seja Ana, seja Gabriela, mas prefiro chamá-la assim: De Vries. Nem sei se este nome existe, mas a partir de agora passa a existir, porque você existe assim como uma lembrança boa para mim. Talvez tudo o que vivemos tenha sido um sonho. Talvez neste momento estejas em Paris, em Londres, em São Paulo ou Amsterdam, ou em Lisboa talvez. Não sei. Sei que em algum lugar neste exato momento você se encontra.


Foto: Google Imagens
Sim, quando as pessoas que encontramos no dia a dia são especiais elas passam a fazer parte de nossa existência, passam a ser parte integrante de nós. Viver é um palco, De Vries, e no palco da vida nem todos conseguem os aplausos. É importante eu ressaltar que não gosto de adjetivar as pessoas - mas você é bela e encantadora -, no olhar carrega um sorriso capaz de transmitir felicidade para quem te olha. Sim, eu me sinto feliz por ter te encontrado um dia. Se foi por acaso não sei. Sei que o acaso da vida é um caso que complementa a nossa história, a nossa narrativa, a nossa existência.

Ainda ouço a sua voz com aquele sotaque estrangeiro. Lembro que por alguns minutos eu ficava te olhando, te observando, deslumbrado com seu jeito de falar. Ah, eu gostaria de saber o seu nome.



Foto: Google Imagens
De Vries deve ser apenas um nome. O importante mesmo é que você tão bela e encantadora permanece aqui em cada poesia que vivo no dia a dia...

domingo, 14 de julho de 2019

Entrevista que eu concedi ao blog Entre Linhas, no ano de 2015


1.
    De onde surgiu a motivação para ser escritor e se alguém o influenciou?

Não me lembro de ter sido influenciado por outra pessoa para iniciar meus escritos, mesmo tendo plena consciência que sempre somos influenciados por alguma coisa ou pessoa e, em especial, as experiências vividas no dia a dia.  Acredito que na minha infância o que me despertou ao gosto pela leitura foi ouvir meu pai lendo a bíblia e ensinando-me a lê-la, e minha mãe declamando alguns poemas populares, desses que passam de geração em geração, e um primo meu que quando passava por lá, onde eu morava, contava histórias. E isso, penso eu, aguçou em mim a busca pelo sabor das palavras. Por outro lado, é importante ressaltar que tive a minha infância e adolescência num sítio, no município de Colônia Leopoldina, uma pequena cidade no estado de Alagoas, para chegar a uma escola precisava andar de uma a duas horas a pé. Ou seja, os primeiros contatos que eu tive com a leitura foram ao observar o raiar do sol pela manhã, ouvir o cantar dos pássaros ao amanhecer de cada dia e sentir o cheiro de terra adentrando minhas narinas, trazendo-me cheiro de vida, essência poética para o meu existir. Já aqui em São Paulo, quando cheguei em 1998, fiquei perplexo com o contraste vivenciado por mim: a correria, o barulho dos carros, muito diferente do canto dos pássaros lá no Nordeste. Mas, hoje, estou completamente habituado na cidade grande, sem perder a minha história, a minha narrativa, a essência de tudo o que me faz ser o que sou atualmente.

2.      Por que você gosta de escrever?

Escrever é o que me faz viver. Não me vejo sem escrever. Acredito que a minha vida não teria graça se hoje eu não estivesse saboreando o sabor de cada palavra, vivendo a experiência de cada personagem. Às vezes eu penso que se não existisse a arte, a vida seria um vão sem essência, sem sabor, sem cor; neutra.

3.      Quais são os livros/autores/personagens favoritos e porquê?

São muitos. Só este ano já li 18 (dezoito livros), e só se passaram quatro meses de 2015. Mas vou aproveitar a oportunidade para falar do livro que acabo de concluir a leitura: Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus. Diário de Bitita é um livro que em cada linha discorre um pouco de vida, de morte, de amor, de dor, ao descrever a vida da própria autora, em tom poético. Ela escreve com maestria, mostra um Brasil dos primeiros 50 (cinquenta) anos do século 20, diante de todos os seus percalços e sonhos, na esperança, no olhar de um povo alegre e sofredor. Diário de Bitita torna-se leitura necessária para quem deseja conhecer um pouco mais desse nosso país chamado Brasil, e para quem gosta de apreciar a boa literatura. E, por outro lado, para quem deseja conhecer um pouco mais da face humana refletida em vários reflexos, multifacetada.

4.       Quais e quantos livros lançados e como se deu a carreira?

Até o momento tenho três livros publicados. Comecei em 2009 com o livro: “O copo e a água”, literatura infantil. E estou trabalhando para publicar a 2ª edição, este ano. Depois veio em 2012 o livro de poemas: “Lobisomem pós-moderno”, em parceria com o poeta Márcio Ahimsa, com cinquenta e poucos poemas de minha autoria e cinquenta e poucos poemas de autoria dele. E só um poema é em coautoria. E no final de 2013 publiquei “A parteira”, que é um poema narrativo composto por um pouco mais de 1500 (mil e quinhentos) versos. Em 2014 ficou com o 2º lugar no Prêmio Poetizar o Mundo com Livros.

5.       Você utiliza algum material como referência para escrever, ou é pura e simplesmente inspiração momentânea?

Sinceramente, não acredito que “inspiração momentânea” possa transformar alguém em escritor. Acredito que todo o escritor precisa ler e ler e reler tudo o que ele puder e estiver ao seu alcance. Escrever, ao meu ponto de vista, é um processo contínuo, que exige paciência, dedicação, amadurecimento e coragem. Sim, coragem, escrever também é um ato de coragem. Escrever é inventar novos mundos, pessoas... é desnudar-se em cada obra concluída.

6.       O que você mais gosta nas próprias histórias e se o seu gênero literário encontra dificuldades no mercado?

Acredito que dificuldades sempre vamos encontrar. E isso não é ruim. Ajuda o artista a amadurecer mais. O que eu mais gosto no que escrevo é quando recebo o retorno de algum leitor, de alguma leitora, é o maior prêmio.

7.        De qual forma, ser escritor afetou a sua vida e quando a escrita virou profissão?

É sempre uma felicidade muito grande, a cada momento que concluo algum trabalho literário. E no ofício de escrever vou ser sempre amador. Quando a escrita vira profissão muitas vezes o escritor deixa de escrever por si, perde a essência. E é importante dizer que desejo muito poder viver dos meus escritos, mas que isso não seja uma profissão. Na vida de escritor quero ser como uma criança que brinca, que encontra sentido nas coisas mais simples, que nós adultos, não conseguimos observar no dia a dia.

8. Uma dica valiosa para novos escritores seria?

Ler e ler e ler e depois reler. Depois escreva, reescreva, escreva e não se canse de escrever. Mostre para as pessoas, mas esteja apto e maduro para ouvir críticas, comentários. E tenha muito cuidado com os elogios.

9. No seu entender, qual o papel do leitor para um escritor?

Sem leitor não pode existir escritor.

10.   Como você enxerga a explosão dos livros digitais e se isso compromete os impressos?

Os livros digitais são bem-vindos. Tudo ganha seu espaço e não tira o espaço do outro, é ilusão pensar que o livro digital vai tirar o espaço do livro impresso. O livro impresso continua. O livro digital ganhará seus adeptos. E o ganho de tudo isso? Teremos mais leitores...

#Pra finalizar um espaço onde você pode deixar o que quiser, o que não foi perguntado, o que gostaria de responder:

Antes de tudo agradeço pelo espaço para poder compartilhar um pouco das minhas experiências com a literatura. Aproveito também para dizer que este ano teremos a publicação da 2ª edição do livro “O copo e a água”, e a publicação de mais um poema narrativo.

As palavras têm sabor, experimente-as...


Link para acessar a entrevista no:

Blog Entre Linhas

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gestores culturais em foco


Entrevista que eu concedi ao Itaú Cultural


Qual é a importância de compartilhar com outros gestores as suas experiências na área cultural? Como você vê essa troca?
A cultura é uma partilha que, antes de tudo, precisa ser dialogada com a diversidade. Ou seja, compartilhar é encontrar meios para melhor gerir a cultura, no lugar onde se encontra o gestor cultural. Todas as vezes que conversamos com outros gestores, o nosso olhar se amplia para a inovação, sem esquecermos que a cultura é viva, e se movimenta, e se inova, e envelhece. Isso porque muitas vezes pensamos um projeto no período da manhã e, ao final do dia, já precisamos inová-lo e repensá-lo. A cultura é como a própria existência humana, uma narrativa que constrói ou destrói laços no dia a dia. Portanto, o diálogo entre gestores culturais é de suma relevância para atingir o sucesso almejado.
 Quais são os desafios ou qual é o maior desafio que um gestor/produtor cultural enfrenta hoje no Brasil?
Os desafios são muitos! Principalmente nos dias atuais, quando o próprio artista gere a sua arte. O século XXI está repleto de artistas independentes e, para um artista independente, as dificuldades são maiores. Quem vai assessorar o seu trabalho? Quem vai fazer chegar a sua música ou o seu livro ao público? Sem dizer que pouquíssimos artistas independentes têm recursos financeiros.
Na área literária, sobre a qual tenho mais conhecimento, vejo que, mesmo com certo avanço neste início de século, ainda existem desafios enormes para o escritor independente. Um bom exemplo é a preferência que se dá nas feiras literárias aos escritores que estão na mídia ou que ganharam prêmios literários. E estes continuam elitizados, ou seja, basta olhar a lista dos ganhadores para ver que a maioria deles é de editoras renomadas. Observe os convidados das festas literárias e veja que são aqueles que circulam na mídia, que ganharam prêmios ou são autores de editoras renomadas. Talvez o grande desafio para o escritor independente, que também é o seu próprio produtor cultural, seja transpor algumas muralhas já concretizadas no meio literário.
Para o gestor cultural, entretanto, de uma forma geral, os desafios sempre vão existir. E não vejo isso como algo ruim. Para que essas dificuldades sejam superadas, cabe ao gestor conhecer bem o lugar onde ele se encontra. Nem sempre o produtor/gestor cultural vai atingir o sucesso, mas, se ele não tiver coragem para encarar as dificuldades, é melhor que não se atreva nessa área.
 Em que consiste o trabalho do gestor/produtor cultural? Quais são as habilidades e as competências necessárias para que um gestor/produtor cultural tenha êxito em sua atuação?
Um gestor cultural precisa ser flexível, apto a ouvir e aberto ao diálogo. E diálogo aqui não se resume a um bate-papo, mas a algo bem mais amplo. O gestor cultural precisa ter habilidades e competências para mediar conflitos que possam (e vão!) surgir em sua equipe. Antes de tudo, ele precisa ter liderança e plena consciência de que na gestão cultural não se trabalha sozinho e de que o sucesso alcançado é fruto do trabalho de toda a equipe.
 Como você avalia as políticas culturais praticadas na sua cidade?
Vejo as políticas culturais praticadas na cidade de São Paulo com grande dinamismo. Às vezes pensamos que as coisas estão caminhando bem, mas, então, o quadro político muda e tudo (re)começa!
Na periferia, onde a arte e a cultura são movidas pelo espírito e pela força de um povo que respira e inspira arte, existe uma produção independente muito acentuada: publicação de livros, surgimento de novos cantores, artistas plásticos em busca de espaços para expor a sua arte... Aliás, São Paulo é uma cidade muito dinâmica. É possível ver uma manifestação artística e cultural diferente em cada bairro. Ser gestor cultural na cidade de São Paulo exige movimentação constante por parte desse profissional, caso ele não queira que seus planos e projetos fiquem ultrapassados.

domingo, 30 de junho de 2019

Bruna

A inteligência e a capacidade de lutar de uma pessoa não se provêm do seu tamanho, disse ela, e em seguida acrescentou, sim, é claro, vão ter pessoas discordantes, mas nem todo mundo é provido de sensibilidade humana, por isso chega à certas conclusões; e não me venham com isso ou aquilo querendo justificar atos inumanos por parte de alguns. Não, não me venham pois não tenho tempo para barbaridades.
Fonte da imagem: https://www.procomum.org/2017/05/10/breve-reflexao-sobre-o-comum-e-as-organizacoes-do-seculo-21/
Enfim, é sabido que com o avanço das redes sociais, isto é, da internet de uma forma geral, todo mundo se sente no direito de opinar e, muitos, colocam para fora o monstro que nem mesmo as pessoas conviventes com elas sabiam que existia.

Vivemos em tempos frios, calculistas e sem poesia, refletiu...

Mas não é por isso que vamos abaixar a cabeça e permitir que o verme no esgoto cresça e seja capaz de sufocar a essência da flor que, ali ao lado, parece adormecida. Hoje, nesses tempos de liquefação é até difícil diferenciar as máquinas do ser que se diz humano. E, por outro lado, sabemos que elas, as máquinas, estão se tornando seres vivos; ou seja, estão nos confundindo que têm mais essência do que o próprio indivíduo de carne e osso.

Agora que o esgoto existe e é real, todo mundo sabe, disse...

Sim, todo mundo sabe que mães e pais e crianças diante do desespero sem terem o que comer adentram mares e enfrentam as ondas que choram suas lágrimas e gritam suas dores em plena madrugada diante de corpos, muitas vezes, misturando-se com as águas por não terem suportado a travessia;
Talvez você ainda não tenha percebido, mas o século 21 está desprovido de humanidade, concluiu ela.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Meu livro sobre meio ambiente para educação infantil



SAIBA MAIShttps://www.livrariadagente.com.br/produto/64303/o-copo-e-a-agua

Água de chocalho

O romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar serve de cenário para o romance.

A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu (...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou. Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou.  – Se contar você morre (...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...) Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu prometo (pp. 31,32).

Água de chocalho é um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de hoje.
Capa do livro Água de chocalho

E as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?

O romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que, linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada personagem, e no decorrer da própria narrativa.

O cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido continua sendo mandado por quem detém o poder.

Era terra de Coronel Honório Paes, e isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).

Já na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um significado.

O maior problema de Honório Paes não era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio (...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a vitória do candidato (pp. 67,68).

Benedito Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande maioria.
 
Benedito Ramos
O livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso. 

Ler Agua de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui, se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de presente um exemplar do próprio autor.

Merecidamente, Água de Chocalho é um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL, 2013.  Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’, que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.
Agora, cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de Benedito Ramos...

... Água de Chocalho será um excelente começo.


Informações adicionais:

 Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque 
Preço: 25,00
Onde comprar o livro Água de chocalho:


Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:

ENTREVISTA - 1ª PARTE


ENTREVISTA - 2ª PARTE


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Valéria. Quanto valeria Valéria?


A madrugada estava fria. O relógio marcava três horas da manhã. Vinícius olhou para o espelho e perguntou: "Quanto vale uma Valéria?". Valéria Valeria muitas Valérias. Era a mulher que ele amava; aliás, que tanto amou. Sim, que tanto amou. E todas as demais mulheres na vida eram o reflexo de Valéria.
 
Google Imagens
Uma taça de vinho, duas taças de vinho, três taças de vinho. O dia parecia querer amanhecer. E ele olhava dentro dos olhos dela procurando Valéria. Valéria não aparecia e, quando aparecia, sumia tão rapidamente. "Uma noite de amor não pode ser apenas uma noite de amor", pensava ele. E Valéria estava adormecida. E ele pensava que Valéria já não valeria mais tanto assim.

Um passeio no parque. Um momento distraído no voo para Paris, enquanto conversavam dizendo que se o avião caísse tudo acabaria ali. Eles riam como duas crianças descobrindo os segredos da vida. Valéria amava Vinícius, é claro! Quem diria que não?  E Vinícius amava Valéria, é claro! Quem diria que não?

E juras de amor eram feitas a todos os momentos...

De volta ao Brasil. Vinícius voltou só. Valéria ficou um pouco desfrutando Paris. Um mês, dois meses, três meses e nada. Vinícius se encontra com Valéria: jovem, sorriso extravagante; ao contrário de sua Valéria que já não era tão jovem assim. Ele beijou Valéria. Beijou Valérias. Valéria. Quanto Valeria Valéria?

Valéria estava noutros braços...
 
Google Imagens
Vinícius vai para a Holanda. Sim, Vinícius sonhava que podia encontrar Valéria na Holanda. E encontrou. Sorriso meigo, semblante doce no olhar, pele suave, voz atraente e calma. Na Holanda Vinícius sentiu que estava amando Valéria. E Valéria também. Mas no frio da madrugada ele perguntou quanto valeria Valéria, ali, deitada sobre a cama, seminua; aliás, uma verdadeira obra de arte. Vinícius beijou os lábios de Valéria. Ela sorriu.

Valéria passou a ser para ele tantas Valérias...

Vinícius foi para Paris. Valéria estava casada, e com um filho. Sentiu que já não era mais o amor de Valéria. Foi atrás doutra Valéria. Quanto Valeria Valéria?, perguntou. Valéria valeria cada segundo que viveram juntos, cada beijo que deram, cada abraço sentido e vivido, cada olhar apreciado. Valéria valeria o valor que desfrutaram juntos.

Era preciso encontrar outra Valéria, pensou Vinícius. E pegou um voo para Londres...

domingo, 23 de junho de 2019

Lívia


Aos vinte e seis anos de idade, Lívia não tinha o hábito de leitura. Lia no máximo dois livros por ano; sim, é claro, ela não estava muito longe da média leitora por pessoa no Brasil. Não, não estava. Achava os livros enfadonhos, uma perda de tempo. Não teve incentivo à leitura na infância e, mesmo com quase trinta anos, nunca tinha sido apresentada ao mundo mágico de cada história que fica nos esperando no decorrer de cada página de um livro.
 
Os miseráveis, de Victor Hugo
Um dia, ela entrou numa livraria de bairro, que ficava próxima da sua casa. Teve curiosidade de folhear, de olhar, pegar vários livros. Com olhar tímido e o corpo acanhado, deu boa tarde ao vendedor, enquanto entrava. Primeiro, olhou uns quadros de um artista plástico contemporâneo. Ficou olhando, olhando...
– Não entendo nada, disse com um sorriso disfarçado no olhar, como se estivesse se sentindo perdida ali.
 – Mas obra de arte não é pra ser entendida, disse o vendedor.
– Não?! Como assim? E é pra quê?
– Ah, obra de arte é para ser apreciada, sentida e, quando possível, vivida.
– Nunca tinha ouvido uma definição como essa sua. Sempre pensei que obra de arte era coisa para os intelectuais, concluiu.
– Também, respondeu ele, mas antes de tudo penso que a arte em si é para os corpos que carregam essência humana, ou seja, para humanos, completou.
Ela disse que o ponto de vista do rapaz era interessante, como se estivesse concordando com ele. Em seguida se dirigiu às prateleiras de livros. Folheou um, folheou outro. E lia sinopse e olhava a capa e lia o nome do autor.
– Você já leu literatura oriental? Indagou o vendedor.
– Nunca li nada, disse ela.
– Tem um autor que eu gosto muito. Antes, eu também não conhecia, mas ao conhecer Yasunari Kawabata nunca mais parei de lê-lo.
E enquanto falava ele mostrava um livro, mostrava outro, comentava sobre a narrativa e sobre o autor.
– Vou levar esse, então, disse Lívia.
– Pode levar. E tenha certeza que não vai se arrepender, porque A casa das belas adormecidas é um clássico do Kawabata.
– Então vou levar, disse ela.
Capa do livro A casa das belas adormecidas

E, realmente, o vendedor tinha razão, ao dizer que o livro A casa das belas adormecidas, do prêmio Nobel Yasunari Kawabata, é um clássico da literatura universal. É um livro com uma narrativa sensível e discorre sob e sobre as múltiplas faces da humanidade. Aborda com maestria a solidão, aquela falta do encontro consigo mesmo, num fio condutor da existência onde, para o narrador, a vida já busca seus últimos passos, na velhice vivida de um personagem, que procura suprir sua carência ao ir para a casa das belas adormecidas.
E o livro foi tão impactante para Lívia que três dias depois ela voltou à livraria para agradecer ao vendedor pela dica de leitura. Ele conta, também, que ela se transformou numa leitora assídua...
...Afinal, as palavras têm sabor, basta apenas que cada um experimente-as, pensou o vendedor.

sábado, 22 de junho de 2019

Joanita


O relógio desperta cinco horas da manhã. Joanita se contorce toda na cama. Desliga-o, ainda dormindo. Dez minutos depois o barulho se repete. Ela salta da cama, sabe que o tempo não espera nem um minuto a mais nem um minuto a menos, principalmente se for numa cidade agitada como São Paulo, onde as pessoas não vivem, tentam sobreviver na angústia plena do existir.

Fonte Wikipedia visão panorâmica da Av. Paulista, à noite

Sim, e a existência para Joanita não era diferente. Trabalhava de segunda a sábado. Saía de casa todos os dias às seis horas e só voltava às vinte, com exceção de sábado, que ela saía às oito e voltava às dezessete. Às vezes ficava pensando, refletindo sobre a vida árdua que levava. Reclamar não era do seu perfil, gostava de encarar os empecilhos do dia a dia, desafiando-os com o objetivo de ver até onde podia ir.

Para ela, todos os dias podiam ser iguais se não fosse criativa o suficiente para driblar a rotina, procurava sempre ganhar o tempo lendo. Lia uma média de cinquenta livros por ano, dos clássicos aos best-sellers. E como todo o ser humano, ela tinha um sonho, o de um dia poder ser alguém. E ser alguém para Joanita era alcançar um pouco dos desejos implícitos em si.

Sonhava em ser professora, porque, para ela, não existia profissão mais honrosa. Em alguns momentos já se sentia velha e achava que não seria mais possível adentrar uma universidade; mas ela só tinha trinta anos. Por que me sentir velha?, questionava-se. Sempre fui tão decidida, desde a minha infância nunca abaixei a cabeça diante de nada, por mais obscuro que fosse, concluía.

E assim Joanita seguia o ritmo do cotidiano: lendo, observando, sonhando e trabalhando. Um dos escritores que ela tanto amava era Guimarães Rosa, dizia que o livro Grande sertão: veredas é o sopro humano regido numa só voz como representação universal. Já tinha lido-o três vezes. E todas as vezes que lia adentrava uma vereda diferente da existência humana sertão afora.

Fonte wikipedia: Guimarães Rosa na posse na ABL, em 1967

 – Você lê muito é porque gosta ou para fugir um pouco da solidão, já que vive só?, perguntou um dia Carla, a sua vizinha.

Joanita respondeu que viver só nunca foi um problema na vida dela, pois aos quinze anos de idade saiu da casa dos pais e foi tentar a vida sozinha. Esclareceu também que sempre namorou, mas casamento não era uma palavra existente no dicionário dela, por isso a leitura sempre foi um alimento e não uma fuga de si, dizia. Porque ler, enfatizava ela, é poder fazer com que o Eu em Si possa se comunicar com o mundo, com outras culturas, aliás, é sair da normalidade cotidiana de milhões e milhões de pessoas que não valorizam o conhecimento como algo essencial para o viver.

Assim Joanita seguia seus dilemas, sonhos e realizações sem nunca abaixar a cabeça. E, um dia, Carla sem ter percebido nada antes, descobriu que ela tinha partido para outro lugar, sem deixar pistas. Até hoje não se sabe ao certo se conseguiu ser professora, se casou ou se apenas vive conforme acredita ser o melhor para ela.

Porque no fundo no fundo o ser humano degusta a felicidade quando não se permite ser amarrado pelos moldes existenciais
... ou, quem sabe, Joanita é apenas uma personagem de uma história perambulante por aí. Refletiu Carla ao pensar na sua vizinha não mais presente.