quarta-feira, 26 de junho de 2019

Água de chocalho

O romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar serve de cenário para o romance.

A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu (...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou. Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou.  – Se contar você morre (...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...) Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu prometo (pp. 31,32).

Água de chocalho é um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de hoje.
Capa do livro Água de chocalho

E as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?

O romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que, linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada personagem, e no decorrer da própria narrativa.

O cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido continua sendo mandado por quem detém o poder.

Era terra de Coronel Honório Paes, e isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).

Já na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um significado.

O maior problema de Honório Paes não era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio (...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a vitória do candidato (pp. 67,68).

Benedito Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande maioria.
 
Benedito Ramos
O livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso. 

Ler Agua de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui, se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de presente um exemplar do próprio autor.

Merecidamente, Água de Chocalho é um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL, 2013.  Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’, que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.
Agora, cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de Benedito Ramos...

... Água de Chocalho será um excelente começo.


Informações adicionais:

 Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque 
Preço: 25,00
Onde comprar o livro Água de chocalho:


Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:

ENTREVISTA - 1ª PARTE


ENTREVISTA - 2ª PARTE


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Valéria. Quanto valeria Valéria?


A madrugada estava fria. O relógio marcava três horas da manhã. Vinícius olhou para o espelho e perguntou: "Quanto vale uma Valéria?". Valéria Valeria muitas Valérias. Era a mulher que ele amava; aliás, que tanto amou. Sim, que tanto amou. E todas as demais mulheres na vida eram o reflexo de Valéria.
 
Google Imagens
Uma taça de vinho, duas taças de vinho, três taças de vinho. O dia parecia querer amanhecer. E ele olhava dentro dos olhos dela procurando Valéria. Valéria não aparecia e, quando aparecia, sumia tão rapidamente. "Uma noite de amor não pode ser apenas uma noite de amor", pensava ele. E Valéria estava adormecida. E ele pensava que Valéria já não valeria mais tanto assim.

Um passeio no parque. Um momento distraído no voo para Paris, enquanto conversavam dizendo que se o avião caísse tudo acabaria ali. Eles riam como duas crianças descobrindo os segredos da vida. Valéria amava Vinícius, é claro! Quem diria que não?  E Vinícius amava Valéria, é claro! Quem diria que não?

E juras de amor eram feitas a todos os momentos...

De volta ao Brasil. Vinícius voltou só. Valéria ficou um pouco desfrutando Paris. Um mês, dois meses, três meses e nada. Vinícius se encontra com Valéria: jovem, sorriso extravagante; ao contrário de sua Valéria que já não era tão jovem assim. Ele beijou Valéria. Beijou Valérias. Valéria. Quanto Valeria Valéria?

Valéria estava noutros braços...
 
Google Imagens
Vinícius vai para a Holanda. Sim, Vinícius sonhava que podia encontrar Valéria na Holanda. E encontrou. Sorriso meigo, semblante doce no olhar, pele suave, voz atraente e calma. Na Holanda Vinícius sentiu que estava amando Valéria. E Valéria também. Mas no frio da madrugada ele perguntou quanto valeria Valéria, ali, deitada sobre a cama, seminua; aliás, uma verdadeira obra de arte. Vinícius beijou os lábios de Valéria. Ela sorriu.

Valéria passou a ser para ele tantas Valérias...

Vinícius foi para Paris. Valéria estava casada, e com um filho. Sentiu que já não era mais o amor de Valéria. Foi atrás doutra Valéria. Quanto Valeria Valéria?, perguntou. Valéria valeria cada segundo que viveram juntos, cada beijo que deram, cada abraço sentido e vivido, cada olhar apreciado. Valéria valeria o valor que desfrutaram juntos.

Era preciso encontrar outra Valéria, pensou Vinícius. E pegou um voo para Londres...

domingo, 23 de junho de 2019

Lívia


Aos vinte e seis anos de idade, Lívia não tinha o hábito de leitura. Lia no máximo dois livros por ano; sim, é claro, ela não estava muito longe da média leitora por pessoa no Brasil. Não, não estava. Achava os livros enfadonhos, uma perda de tempo. Não teve incentivo à leitura na infância e, mesmo com quase trinta anos, nunca tinha sido apresentada ao mundo mágico de cada história que fica nos esperando no decorrer de cada página de um livro.
 
Os miseráveis, de Victor Hugo
Um dia, ela entrou numa livraria de bairro, que ficava próxima da sua casa. Teve curiosidade de folhear, de olhar, pegar vários livros. Com olhar tímido e o corpo acanhado, deu boa tarde ao vendedor, enquanto entrava. Primeiro, olhou uns quadros de um artista plástico contemporâneo. Ficou olhando, olhando...
– Não entendo nada, disse com um sorriso disfarçado no olhar, como se estivesse se sentindo perdida ali.
 – Mas obra de arte não é pra ser entendida, disse o vendedor.
– Não?! Como assim? E é pra quê?
– Ah, obra de arte é para ser apreciada, sentida e, quando possível, vivida.
– Nunca tinha ouvido uma definição como essa sua. Sempre pensei que obra de arte era coisa para os intelectuais, concluiu.
– Também, respondeu ele, mas antes de tudo penso que a arte em si é para os corpos que carregam essência humana, ou seja, para humanos, completou.
Ela disse que o ponto de vista do rapaz era interessante, como se estivesse concordando com ele. Em seguida se dirigiu às prateleiras de livros. Folheou um, folheou outro. E lia sinopse e olhava a capa e lia o nome do autor.
– Você já leu literatura oriental? Indagou o vendedor.
– Nunca li nada, disse ela.
– Tem um autor que eu gosto muito. Antes, eu também não conhecia, mas ao conhecer Yasunari Kawabata nunca mais parei de lê-lo.
E enquanto falava ele mostrava um livro, mostrava outro, comentava sobre a narrativa e sobre o autor.
– Vou levar esse, então, disse Lívia.
– Pode levar. E tenha certeza que não vai se arrepender, porque A casa das belas adormecidas é um clássico do Kawabata.
– Então vou levar, disse ela.
Capa do livro A casa das belas adormecidas

E, realmente, o vendedor tinha razão, ao dizer que o livro A casa das belas adormecidas, do prêmio Nobel Yasunari Kawabata, é um clássico da literatura universal. É um livro com uma narrativa sensível e discorre sob e sobre as múltiplas faces da humanidade. Aborda com maestria a solidão, aquela falta do encontro consigo mesmo, num fio condutor da existência onde, para o narrador, a vida já busca seus últimos passos, na velhice vivida de um personagem, que procura suprir sua carência ao ir para a casa das belas adormecidas.
E o livro foi tão impactante para Lívia que três dias depois ela voltou à livraria para agradecer ao vendedor pela dica de leitura. Ele conta, também, que ela se transformou numa leitora assídua...
...Afinal, as palavras têm sabor, basta apenas que cada um experimente-as, pensou o vendedor.

sábado, 22 de junho de 2019

Joanita


O relógio desperta cinco horas da manhã. Joanita se contorce toda na cama. Desliga-o, ainda dormindo. Dez minutos depois o barulho se repete. Ela salta da cama, sabe que o tempo não espera nem um minuto a mais nem um minuto a menos, principalmente se for numa cidade agitada como São Paulo, onde as pessoas não vivem, tentam sobreviver na angústia plena do existir.

Fonte Wikipedia visão panorâmica da Av. Paulista, à noite

Sim, e a existência para Joanita não era diferente. Trabalhava de segunda a sábado. Saía de casa todos os dias às seis horas e só voltava às vinte, com exceção de sábado, que ela saía às oito e voltava às dezessete. Às vezes ficava pensando, refletindo sobre a vida árdua que levava. Reclamar não era do seu perfil, gostava de encarar os empecilhos do dia a dia, desafiando-os com o objetivo de ver até onde podia ir.

Para ela, todos os dias podiam ser iguais se não fosse criativa o suficiente para driblar a rotina, procurava sempre ganhar o tempo lendo. Lia uma média de cinquenta livros por ano, dos clássicos aos best-sellers. E como todo o ser humano, ela tinha um sonho, o de um dia poder ser alguém. E ser alguém para Joanita era alcançar um pouco dos desejos implícitos em si.

Sonhava em ser professora, porque, para ela, não existia profissão mais honrosa. Em alguns momentos já se sentia velha e achava que não seria mais possível adentrar uma universidade; mas ela só tinha trinta anos. Por que me sentir velha?, questionava-se. Sempre fui tão decidida, desde a minha infância nunca abaixei a cabeça diante de nada, por mais obscuro que fosse, concluía.

E assim Joanita seguia o ritmo do cotidiano: lendo, observando, sonhando e trabalhando. Um dos escritores que ela tanto amava era Guimarães Rosa, dizia que o livro Grande sertão: veredas é o sopro humano regido numa só voz como representação universal. Já tinha lido-o três vezes. E todas as vezes que lia adentrava uma vereda diferente da existência humana sertão afora.

Fonte wikipedia: Guimarães Rosa na posse na ABL, em 1967

 – Você lê muito é porque gosta ou para fugir um pouco da solidão, já que vive só?, perguntou um dia Carla, a sua vizinha.

Joanita respondeu que viver só nunca foi um problema na vida dela, pois aos quinze anos de idade saiu da casa dos pais e foi tentar a vida sozinha. Esclareceu também que sempre namorou, mas casamento não era uma palavra existente no dicionário dela, por isso a leitura sempre foi um alimento e não uma fuga de si, dizia. Porque ler, enfatizava ela, é poder fazer com que o Eu em Si possa se comunicar com o mundo, com outras culturas, aliás, é sair da normalidade cotidiana de milhões e milhões de pessoas que não valorizam o conhecimento como algo essencial para o viver.

Assim Joanita seguia seus dilemas, sonhos e realizações sem nunca abaixar a cabeça. E, um dia, Carla sem ter percebido nada antes, descobriu que ela tinha partido para outro lugar, sem deixar pistas. Até hoje não se sabe ao certo se conseguiu ser professora, se casou ou se apenas vive conforme acredita ser o melhor para ela.

Porque no fundo no fundo o ser humano degusta a felicidade quando não se permite ser amarrado pelos moldes existenciais
... ou, quem sabe, Joanita é apenas uma personagem de uma história perambulante por aí. Refletiu Carla ao pensar na sua vizinha não mais presente.


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Beatrix

Borges resolveu sair num domingo à tarde para um passeio no parque. Pegou um livro, pôs debaixo do braço e seguiu seus passos ruas adentro na cidade de São Paulo até chegar ao local almejado. Abriu o livro e resolveu ler o conto O Aleph, de Jorge Luis Borges, considerado o maior escritor da Argentina. Ele só não esperava que fosse conhecer alguém no passeio, pois saiu completamente descompromissado de quaisquer intenções, queria apenas fazer sua leitura, apreciar a paisagem e observar, em alguns momentos, os transeuntes.

Fonte wikipedia Jorge Luis Borges
– Oi, tudo bem?, de repente perguntou uma garota ao se aproximar dele.
– Sim, estou bem, e você?, falou Borges.
Ela respondeu que sim e sentou ao seu lado. Olhou a capa do livro lido por ele, fez um gesto que não gostava e, em seguida, disse apreciar Carlos Drummond de Andrade.
– Você gosta de poesia? Perguntou Borges.
– Sim. É tão gostoso adentrar o universo de um poema. Cada verso nos remete a um mundo único e ao mesmo tempo infinito, repleto de possibilidades.
Fonte wikipedia Carlos Drummond de Andrade
Borges concordou, mas disse não gostar de poesia. Ela ficou surpresa como se estivesse perguntando como é possível alguém viver no mundo sem gostar de poesia? Um silêncio adentrou entre eles por um tempo, porém foi interrompido por uma pergunta:
– Qual o seu nome?                                
– Beatrix.
– Beatrix?! Falou ele um pouco surpreso.
– Sim, Beatrix, disse ela, e acrescentou: eu podia me chamar Bruna, Ana, Raquel, Fabiana, Luci... sei lá, tantos nomes eu podia ter, só que me chamo Beatrix em homenagem a um dos personagens mais importantes da literatura universal.
– Qual?
– Nossa! Você não sabe? Ah, desculpa, você não gosta de poesia. É a personagem do livro A divina comédia, de Dante Alighieri. Eu amei! É uma leitura tão saborosa, instigante.
Fonte Wikipedia - Dante Alighieri, por Sandro Botticelli

Borges olhava para ela, surpreso, como se quisesse entender a personalidade daquela garota. Ela chegou do nada. Parece que também estava sozinha ali passeando no parque. E não demonstrava ter mais de vinte e dois anos de idade. Tão culta, pensava ele. Até parece ter saído das páginas do livro de Jorge Luis Borges.
– Preciso ir, falou ela.
– Já?! Perguntou ele.

Respondeu que sim, pois já me sinto realizada pelo nosso bate-papo, disse ela, e em seguida pegou na mão dele, deu-lhe um beijo, ao acoplar seus lábios no dele, e saiu. Borges ficou totalmente sem reação, olhando para ela que aos poucos desaparecia do alcance dos seus olhos.

domingo, 16 de junho de 2019

Náusea pós-moderna

Este é o tipo de texto que dificilmente alguém vai lê-lo até o final na internet, pois ultrapassa 140 caracteres, isto é, todo o tempo que temos, hoje, favorecido pela tecnologia exige que tenhamos menos tempo, inclusive olhar o outro nos olhos e parar para escutá-lo, falta tempo. A cada dia que se passa a humanidade parece estar cada vez mais artificial; eu disse: parece, não afirmo nada. Nesta época vivida é até possível comprar amor pela internet. Como?! Alguém pode questionar com tom exclamativo. E eu responderei: pare e observe mais, pois os seus passos estão muito apressados!

Fonte da imagem: http://www.mac.usp.br

Vivemos em tempos individuais; vivemos! Mas isto não quer dizer que sejamos; e somos! O ser humano carrega em si o desejo individualista implícito. Tantas vezes vejo no olhar das pessoas a felicidade maldosa quando escuta do outro que não está bem. Por que será que existem felicidades assim?; se possamos chamar isso de felicidade. E o desejo de ter se faz presente cada vez mais no ser que chamamos de humano. E o desejo de ser cada vez mais desaparece.

Como falei no início, que dificilmente alguém faz a leitura completa de um texto que ultrapassa os 140 caracteres na internet; neste terceiro parágrafo já estou escrevendo sem saber se existe algum leitor. É possível que exista, sim. Mas vamos voltar ao que estávamos comentando. Falo comentando, pelo motivo de o texto ser um diálogo de quem escreve com quem vai ler, quando lido. E é isso que faço, procuro dialogar, muitas vezes com alguém que eu nem conheço. Este é o ofício de quem escreve, a solidão. Uma solidão satisfatória, cheia de graça, assim como o amor que é compartilhado sem nada cobrar.

Vivemos numa época tão caótica que ao sermos gentis, ao fazer algo bom para alguém, causa desconfiança. É importante que sejamos cautelosos. É importante que sejamos observadores, sim! Mas não podemos esquecer que flores têm espinhos, e o que é mais importante delas não são as pétalas e sim a essência. É de suma relevância não perdemos a sensibilidade. Precisamos beijar a pessoa amada com os mesmos lábios que beijamos o espelho. E não importa que seja por um momento apenas, pois a pena de quem ama é simplesmente amar.



Fonte da imagem: http://controversia.com.br


A correria louca e brusca que a sobrevivência exige não pode ser maior do que o ar que respiramos. Existe tempo para tudo: para amar, para sorrir, para brincar, para respeitar e para ser respeitado, para dormir e para acordar, para amar e para ser amado, para sentir e para ser sentido, para doar e para receber. Existe tempo para tudo, inclusive para morrer. Sim, não fique triste, amigo leitor; isto é, se existe um leitor, já que estamos, ou estou no quinto parágrafo. E talvez o tempo para morrer seja um dos mais importantes da nossa vida. Estranho, né?

É claro que é estranho!

Mas saiba que o mais importante da vida é que ela seja vivida...

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Resenha de Márcio Ahimsa sobre a obra A parteira

O poeta Márcio Ahimsa adentra a alma do livro 'A parteira' e lhe enobrece com um excelente texto:

“No sítio da lagartixa e do limão, ali onde mal sabiam o que era pão, a quem a pátria vomitou e, quando não mata no ventre, na vida” – Lima, Adenildo, A parteira, Editora da Gente, São Paulo, 2013.




É nesse cenário de fábulas onde a terra rachada vomita fogo em labaredas e revela suas veredas que nos deparamos com a essência humana na pele caricata de uma gente que constrói a vida pelo revés do mundo.

A parteira é uma obra concisa, estridente e real que nos mostra à tona de um povo emergindo de sua própria força, sua fé, sua esperança. Aqui, onde muitos já nascem no fim, a vida é um soslaio observando a gruta ao longe, como semente que vigora na tez de uma rocha.

A obra em si possui voz própria, a voz dos esquecidos, que é a voz de quem tem fome e não fala. Comparar a obra de Adenildo Lima com qualquer outra obra é um atrevimento, senão uma ofensa obliqua, pois se temos um caráter construtivo semântico intencional na obra de João Cabral de Melo Neto, ou com um cunho sócio psicológico proposto por Graciliano Ramos em “São Bernardo”, na pele do personagem Paulo Honório, que embrutece a alma, não temos em “A parteira” nada disso. Temos sim o menino Pedro com sua carência de brinquedo, temos a enxada latente cortando seu pé esquerdo na sinonímia de um tempo que ainda acontece na nossa contemporaneidade.


A parteira é um grito e um silêncio, é essa paradoxal verossimilhança da realidade de um país onde, de um lado é latente a dor escorrendo pelo esconderijo em tom vermelho do nosso agreste e, do outro, é como se fosse uma nódoa no tom de um conto de fadas onde se acredita em fantasias criadas, mas não se crê em verdades cruas. Para quem vive no centro ótico do mundo, o agreste, o ocre das capoeiras onde correm as crianças descalças e nuas atrás de um ópio que as tornem reais, qualquer cabra ou maracatu para espetar a dor da realidade, é apenas uma fábula ou história fantástica. Mas no leito dos extremos de uma nação, esteja ela em qualquer continente, os contos de fadas não maquiam a realidade. São verídicas as experiências de uma gente que caminha no revés da história.

Assim, a parteira é o silêncio que se faz ouvir na voz de uma gente onde um punhado de sal é a medicina, sem a charlatanice pregada nas igrejas, sem a filantropia que gera lucros.

Ali, onde Madalena é a mãe do menino abstrato, cheio de ginga e trato, é onde a realidade nos presenteia como ser existente, como ente que se faz presente na orla do ontem, como papel timbrado no prefácio do hoje do que um dia fomos, do que somos, do que ainda vamos descobrir ser.

Em “A parteira”, a mulher abre a serra e se cobre de terra. Se sente a síntese da vida. A parteira é Maria e ao mesmo tempo o enlevo da existência na sua tênue andança. É a agrura de um povo na busca de um arrebatamento: existir.

A obra “A parteira” é a primazia de um tempo de um existir humano onde grito e silêncio são sinônimos dentro de uma equação nunca exata. Pois existir não é simplesmente ser pedra. Existir sugere a mutação do tempo. Sugere ser a lâmina que decepa a própria vida e ao mesmo tempo a chama que acena para o viver.

Nessa obra o homem é assassino de si ao se permitir nascer. É filosoficamente uma catarse sobre a tragédia humana de existir. Quem constrói a realidade? O homem ou a própria realidade das coisas não passa de lembranças de um ser que morre e que, no fim, não é nada?

Nessa obra eu sinto o poeta nascendo pelos vales de sua própria palavra gritando os silêncios que nunca vem à tona, ou que estão sempre consigo amordaçados pelas sandálias que o calçam da nossa triste calçada de sonhos. 

Aqui, nesse cenário de orquestra, a vitrola era um vivo morto com os versos dessa poesia retrato onde João naufragou sem sintomas, de apenas desnutrição.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Um tributo ao poeta Ferreira Gullar


"O GNews Literatura recupera a trajetória do grande escritor maranhense, do espanto inicial da descoberta da poesia à busca pelo essencial dos últimos livros, passando por sua adesão à poesia engajada, o período no exílio e o rompimento com o passado comunista. Além de trechos de diversas entrevistas de Gullar ao longo das últimas décadas, programa traz depoimentos de críticos e amigos."