Para mais informações sobre o livro, acesse o link: https://www.livrariadagente.com.br
sexta-feira, 29 de maio de 2020
terça-feira, 10 de março de 2020
Meus poemas na revista Piedra del Molino, nº 31, Espanha
Agradeço a Carlos Jiménez Vázquez, a tradutora Mei Santana e a toda equipe da revista. E também agradeço a professora doutora Marta Pérez Rodríguez pelo carinho e dedicação que ela tem com a minha literatura.
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
21ª Festa do Livro da USP
domingo, 10 de novembro de 2019
O passageiro do voo dois mil e alguma coisa...
A mulher queria
trepar de qualquer jeito, mas o homem não tinha dinheiro suficiente para pagar
a trepada dela. A noite estava muito bonita, tinha um homem morto lá no meio da
avenida e uma criança pedindo comida num restaurante. O homem sentou na calçada
e tentou abraçá-la com amor. Ela recusou. Ele abriu a carteira. Ela sorriu. Mas
o maldito não tinha o dinheiro. Uma festa no outro lado da avenida estava
rolando, e os adolescentes estavam todos felizes. Era tão bonito olhar aqueles
jovens viajando como se fosse em um conto de fadas, acho que a noite pra eles
era verdadeiramente como vê estrelas na imensidão coberta de neblina.
![]() |
| Fonte da Imagem: https://exame.abril.com.br/ciencia/boeing-adia-teste-tripulado-de-sua-nave-espacial-para-2019/ |
A mulher se levantou
e saiu com passos lentos à direção do homem que tinha deixado de ser homem para
ser o corpo de um homem. Ao chegar diante dele, ela pôs a mão em sua carteira e
tinha duas notas de cinquenta reais. Foi tão gostoso que ela gozou ali mesmo, e
nem lembrou mais do homem vivo que não tinha o dinheiro suficiente. Foi embora
e nem percebeu que aquela carteira era de um homem que tinha feito a mais bela
viagem para a eternidade.
A madrugada começou
a se aproximar, o sereno da noite começou a esfriar o corpo da mulher dos cem
reais. Ela precisava se aquecer. Uma viatura fazia ronda, mas os faróis estavam
apagados e não conseguiu ver o corpo do homem da avenida. Uma saia pequena,
umas pernas bonitas, uns seios bem decotados – a mulher era atraente! Os
policiais eram homens gentis e deram carona a ela pra protegê-la do frio da
madrugada.
![]() |
| Google Imagens |
Coitada dela! Quando
o sol nasceu estava tão quente que o seu corpo ficou todo bronzeado. A
madrugada é bela e a mulher nem sabe se é fria ou quente. O homem na calçada
continua sentado com o seu amor querendo abraçá-la. A viatura às vezes para
defronte ao bar e troca uma ideia com os jovens viajantes. E alguém continua
voando no voo dois mil e alguma coisa.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Minha participação no 1º Festival Mário de Andrade
Conto com a sua presença
A Livraria da Gente está no Corredor do Livro, nos dias 5 e 6 de outubro de 2019, na rua Cel. Xavier de Toledo, entre a rua 7 de Abril e o Teatro Municipal.
Virada do Livro
A Livraria da Gente está no Corredor do Livro, neste final de semana, nos dias 5 e 6 de outubro de 2019, na rua Cel. Xavier de Toledo, entre a rua 7 de Abril e o Teatro Municipal.
Mais informações: 1º Festival Mário de Andrade
Mais informações: 1º Festival Mário de Andrade
domingo, 14 de julho de 2019
Entrevista que eu concedi ao blog Entre Linhas, no ano de 2015
1. De onde surgiu a motivação para ser escritor e se alguém o influenciou?
Não me lembro de ter sido influenciado por outra pessoa para iniciar
meus escritos, mesmo tendo plena consciência que sempre somos influenciados por
alguma coisa ou pessoa e, em especial, as experiências vividas no dia a
dia. Acredito que na minha infância o que me despertou ao gosto pela
leitura foi ouvir meu pai lendo a bíblia e ensinando-me a lê-la, e minha mãe
declamando alguns poemas populares, desses que passam de geração em geração, e
um primo meu que quando passava por lá, onde eu morava, contava histórias. E
isso, penso eu, aguçou em mim a busca pelo sabor das palavras. Por outro lado,
é importante ressaltar que tive a minha infância e adolescência num sítio, no
município de Colônia Leopoldina, uma pequena cidade no estado de Alagoas, para
chegar a uma escola precisava andar de uma a duas horas a pé. Ou seja, os
primeiros contatos que eu tive com a leitura foram ao observar o raiar do sol
pela manhã, ouvir o cantar dos pássaros ao amanhecer de cada dia e sentir o
cheiro de terra adentrando minhas narinas, trazendo-me cheiro de vida, essência
poética para o meu existir. Já aqui em São Paulo, quando cheguei em 1998,
fiquei perplexo com o contraste vivenciado por mim: a correria, o barulho dos
carros, muito diferente do canto dos pássaros lá no Nordeste. Mas, hoje, estou
completamente habituado na cidade grande, sem perder a minha história, a minha
narrativa, a essência de tudo o que me faz ser o que sou atualmente.
2. Por
que você gosta de escrever?
Escrever é o que me faz viver. Não me vejo sem escrever. Acredito que a
minha vida não teria graça se hoje eu não estivesse saboreando o sabor de cada
palavra, vivendo a experiência de cada personagem. Às vezes eu penso que se não
existisse a arte, a vida seria um vão sem essência, sem sabor, sem cor; neutra.
3. Quais são os
livros/autores/personagens favoritos e porquê?
São muitos. Só este ano já li 18 (dezoito livros), e só se passaram
quatro meses de 2015. Mas vou aproveitar a oportunidade para falar do livro que
acabo de concluir a leitura: Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus.
Diário de Bitita é um livro que em cada linha discorre um pouco de vida, de
morte, de amor, de dor, ao descrever a vida da própria autora, em tom poético.
Ela escreve com maestria, mostra um Brasil dos primeiros 50 (cinquenta) anos do
século 20, diante de todos os seus percalços e sonhos, na esperança, no olhar
de um povo alegre e sofredor. Diário de Bitita torna-se leitura necessária para
quem deseja conhecer um pouco mais desse nosso país chamado Brasil, e para quem
gosta de apreciar a boa literatura. E, por outro lado, para quem deseja
conhecer um pouco mais da face humana refletida em vários reflexos,
multifacetada.
4. Quais
e quantos livros lançados e como se deu a carreira?
Até o momento tenho três livros publicados. Comecei em 2009 com o livro:
“O copo e a água”, literatura infantil. E estou trabalhando para
publicar a 2ª edição, este ano. Depois veio em 2012 o livro de poemas: “Lobisomem
pós-moderno”, em parceria com o poeta Márcio Ahimsa, com cinquenta e poucos
poemas de minha autoria e cinquenta e poucos poemas de autoria dele. E só um
poema é em coautoria. E no final de 2013 publiquei “A parteira”, que é
um poema narrativo composto por um pouco mais de 1500 (mil e quinhentos)
versos. Em 2014 ficou com o 2º lugar no Prêmio Poetizar o Mundo com Livros.
5. Você
utiliza algum material como referência para escrever, ou é pura e simplesmente
inspiração momentânea?
Sinceramente, não acredito que “inspiração momentânea” possa transformar
alguém em escritor. Acredito que todo o escritor precisa ler e ler e reler tudo
o que ele puder e estiver ao seu alcance. Escrever, ao meu ponto de vista, é um
processo contínuo, que exige paciência, dedicação, amadurecimento e coragem.
Sim, coragem, escrever também é um ato de coragem. Escrever é inventar novos
mundos, pessoas... é desnudar-se em cada obra concluída.
6. O
que você mais gosta nas próprias histórias e se o seu gênero literário encontra
dificuldades no mercado?
Acredito que dificuldades sempre vamos encontrar. E isso não é ruim.
Ajuda o artista a amadurecer mais. O que eu mais gosto no que escrevo é quando
recebo o retorno de algum leitor, de alguma leitora, é o maior prêmio.
7. De
qual forma, ser escritor afetou a sua vida e quando a escrita virou profissão?
É sempre uma felicidade muito grande, a cada momento que concluo algum
trabalho literário. E no ofício de escrever vou ser sempre amador. Quando a
escrita vira profissão muitas vezes o escritor deixa de escrever por si, perde
a essência. E é importante dizer que desejo muito poder viver dos meus
escritos, mas que isso não seja uma profissão. Na vida de escritor quero ser
como uma criança que brinca, que encontra sentido nas coisas mais simples, que
nós adultos, não conseguimos observar no dia a dia.
8. Uma dica valiosa para novos escritores seria?
Ler e ler e ler e depois reler. Depois escreva, reescreva, escreva e não
se canse de escrever. Mostre para as pessoas, mas esteja apto e maduro para
ouvir críticas, comentários. E tenha muito cuidado com os elogios.
9. No seu entender, qual o papel
do leitor para um escritor?
Sem leitor não pode existir escritor.
10. Como você enxerga
a explosão dos livros digitais e se isso compromete os impressos?
Os livros digitais são bem-vindos. Tudo ganha seu espaço e não tira o
espaço do outro, é ilusão pensar que o livro digital vai tirar o espaço do
livro impresso. O livro impresso continua. O livro digital ganhará seus
adeptos. E o ganho de tudo isso? Teremos mais leitores...
#Pra finalizar um espaço onde você pode deixar o que quiser, o que não
foi perguntado, o que gostaria de responder:
Antes de tudo agradeço pelo espaço para poder compartilhar um pouco das
minhas experiências com a literatura. Aproveito também para dizer que este ano
teremos a publicação da 2ª edição do livro “O copo e a água”, e a publicação de
mais um poema narrativo.
As palavras têm sabor, experimente-as...
Blog Entre Linhas
terça-feira, 9 de julho de 2019
Gestores culturais em foco
Entrevista que eu concedi ao Itaú Cultural
Qual é a importância de compartilhar com outros gestores as suas
experiências na área cultural? Como você vê essa troca?
A cultura é uma partilha que, antes de tudo, precisa ser
dialogada com a diversidade. Ou seja, compartilhar é encontrar meios para
melhor gerir a cultura, no lugar onde se encontra o gestor cultural. Todas as
vezes que conversamos com outros gestores, o nosso olhar se amplia para a
inovação, sem esquecermos que a cultura é viva, e se movimenta, e se inova, e
envelhece. Isso porque muitas vezes pensamos um projeto no período da manhã e,
ao final do dia, já precisamos inová-lo e repensá-lo. A cultura é como a
própria existência humana, uma narrativa que constrói ou destrói laços no dia a
dia. Portanto, o diálogo entre gestores culturais é de suma relevância para
atingir o sucesso almejado.
Os desafios são muitos! Principalmente nos dias atuais,
quando o próprio artista gere a sua arte. O século XXI está repleto de artistas
independentes e, para um artista independente, as dificuldades são maiores.
Quem vai assessorar o seu trabalho? Quem vai fazer chegar a sua música ou o seu
livro ao público? Sem dizer que pouquíssimos artistas independentes têm
recursos financeiros.
Na área literária, sobre a qual tenho mais conhecimento,
vejo que, mesmo com certo avanço neste início de século, ainda existem desafios
enormes para o escritor independente. Um bom exemplo é a preferência que se dá
nas feiras literárias aos escritores que estão na mídia ou que ganharam prêmios
literários. E estes continuam elitizados, ou seja, basta olhar a lista dos
ganhadores para ver que a maioria deles é de editoras renomadas. Observe os
convidados das festas literárias e veja que são aqueles que circulam na mídia,
que ganharam prêmios ou são autores de editoras renomadas. Talvez o grande
desafio para o escritor independente, que também é o seu próprio produtor
cultural, seja transpor algumas muralhas já concretizadas no meio literário.
Para o gestor cultural, entretanto, de uma forma geral, os
desafios sempre vão existir. E não vejo isso como algo ruim. Para que essas
dificuldades sejam superadas, cabe ao gestor conhecer bem o lugar onde ele se
encontra. Nem sempre o produtor/gestor cultural vai atingir o sucesso, mas, se
ele não tiver coragem para encarar as dificuldades, é melhor que não se atreva
nessa área.
Um gestor cultural precisa ser flexível, apto a ouvir e
aberto ao diálogo. E diálogo aqui não se resume a um bate-papo, mas a algo bem
mais amplo. O gestor cultural precisa ter habilidades e competências para
mediar conflitos que possam (e vão!) surgir em sua equipe. Antes de tudo, ele
precisa ter liderança e plena consciência de que na gestão cultural não se
trabalha sozinho e de que o sucesso alcançado é fruto do trabalho de toda a
equipe.
Vejo as políticas culturais praticadas na cidade de São
Paulo com grande dinamismo. Às vezes pensamos que as coisas estão caminhando
bem, mas, então, o quadro político muda e tudo (re)começa!
Na periferia, onde a arte e a cultura são movidas pelo
espírito e pela força de um povo que respira e inspira arte, existe uma
produção independente muito acentuada: publicação de livros, surgimento de
novos cantores, artistas plásticos em busca de espaços para expor a sua arte...
Aliás, São Paulo é uma cidade muito dinâmica. É possível ver uma manifestação
artística e cultural diferente em cada bairro. Ser gestor cultural na cidade de
São Paulo exige movimentação constante por parte desse profissional, caso ele
não queira que seus planos e projetos fiquem ultrapassados.
domingo, 30 de junho de 2019
Bruna
A inteligência e a capacidade de
lutar de uma pessoa não se provêm do seu tamanho, disse ela, e em seguida
acrescentou, sim, é claro, vão ter pessoas discordantes, mas nem todo mundo é
provido de sensibilidade humana, por isso chega à certas conclusões; e não me
venham com isso ou aquilo querendo justificar atos inumanos por parte de
alguns. Não, não me venham pois não tenho tempo para barbaridades.
![]() |
| Fonte da imagem: https://www.procomum.org/2017/05/10/breve-reflexao-sobre-o-comum-e-as-organizacoes-do-seculo-21/ |
Enfim, é sabido que com o avanço
das redes sociais, isto é, da internet de uma forma geral, todo mundo se sente
no direito de opinar e, muitos, colocam para fora o monstro que nem mesmo as
pessoas conviventes com elas sabiam que existia.
Vivemos em tempos frios,
calculistas e sem poesia, refletiu...
Mas não é por isso que vamos
abaixar a cabeça e permitir que o verme no esgoto cresça e seja capaz de
sufocar a essência da flor que, ali ao lado, parece adormecida. Hoje, nesses
tempos de liquefação é até difícil diferenciar as máquinas do ser que se diz
humano. E, por outro lado, sabemos que elas, as máquinas, estão se tornando
seres vivos; ou seja, estão nos confundindo que têm mais essência do que o
próprio indivíduo de carne e osso.
Agora que o esgoto existe e é
real, todo mundo sabe, disse...
Sim, todo mundo sabe que mães e
pais e crianças diante do desespero sem terem o que comer adentram mares e
enfrentam as ondas que choram suas lágrimas e gritam suas dores em plena
madrugada diante de corpos, muitas vezes, misturando-se com as águas por não
terem suportado a travessia;
![]() |
| Fonte da imagem: https://oglobo.globo.com/mundo/uma-crianca-imigrante-morre-por-dia-no-mundo-revela-onu-23770778 |
Talvez você ainda não tenha
percebido, mas o século 21 está desprovido de humanidade, concluiu ela.
quarta-feira, 26 de junho de 2019
Água de chocalho
O
romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos
lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro
país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil
representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria
vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a
vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar
serve de cenário para o romance.
A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu
(...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou.
Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou. – Se contar você morre
(...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei
para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...)
Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu
prometo (pp. 31,32).
Água
de chocalho é
um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes
esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem
denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor
atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas
vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é
saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas
personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de
hoje.
![]() |
| Capa do livro Água de chocalho |
E
as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo
enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?
O
romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro
artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que,
linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor
se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão
real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada
personagem, e no decorrer da própria narrativa.
O
cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor
que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim
como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é
a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política
brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e
principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido
continua sendo mandado por quem detém o poder.
Era terra de Coronel Honório Paes, e
isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o
passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma
humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água
para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha
enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).
Já
na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso
deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um
significado.
O maior problema de Honório Paes não
era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para
cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô
Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de
oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio
(...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a
vitória do candidato (pp. 67,68).
Benedito
Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão
reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que
ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos
vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande
maioria.
O
livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da
leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em
que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso.
Ler Agua
de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no
interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na
terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas
eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui,
se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de
presente um exemplar do próprio autor.
Merecidamente, Água de Chocalho é
um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi
publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL,
2013. Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as
orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’,
que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E
de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.
Agora,
cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de
Benedito Ramos...
... Água
de Chocalho será um excelente começo.
Informações adicionais:
Autor: Benedito Ramos
Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque
Preço: 25,00
Onde comprar o livro Água de chocalho:
Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:
ENTREVISTA - 1ª PARTE
ENTREVISTA - 2ª PARTE
ENTREVISTA - 1ª PARTE
ENTREVISTA - 2ª PARTE
domingo, 16 de junho de 2019
Náusea pós-moderna
Este é o tipo de texto que dificilmente alguém vai lê-lo até
o final na internet, pois ultrapassa 140 caracteres, isto é, todo o tempo que
temos, hoje, favorecido pela tecnologia exige que tenhamos menos tempo,
inclusive olhar o outro nos olhos e parar para escutá-lo, falta tempo. A cada
dia que se passa a humanidade parece estar cada vez mais artificial; eu disse:
parece, não afirmo nada. Nesta época vivida é até possível comprar amor pela
internet. Como?! Alguém pode questionar com tom exclamativo. E eu responderei:
pare e observe mais, pois os seus passos estão muito apressados!
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| Fonte da imagem: http://www.mac.usp.br |
Vivemos em tempos individuais; vivemos! Mas isto não quer
dizer que sejamos; e somos! O ser humano carrega em si o desejo individualista
implícito. Tantas vezes vejo no olhar das pessoas a felicidade maldosa quando
escuta do outro que não está bem. Por que será que existem felicidades assim?;
se possamos chamar isso de felicidade. E o desejo de ter se faz presente cada
vez mais no ser que chamamos de humano. E o desejo de ser cada vez mais
desaparece.
Como falei no início, que dificilmente alguém faz a
leitura completa de um texto que ultrapassa os 140 caracteres na internet;
neste terceiro parágrafo já estou escrevendo sem saber se existe algum leitor.
É possível que exista, sim. Mas vamos voltar ao que estávamos comentando. Falo
comentando, pelo motivo de o texto ser um diálogo de quem escreve com quem vai
ler, quando lido. E é isso que faço, procuro dialogar, muitas vezes com alguém
que eu nem conheço. Este é o ofício de quem escreve, a solidão. Uma solidão
satisfatória, cheia de graça, assim como o amor que é compartilhado sem nada
cobrar.
Vivemos numa época tão caótica que ao sermos gentis, ao
fazer algo bom para alguém, causa desconfiança. É importante que sejamos
cautelosos. É importante que sejamos observadores, sim! Mas não podemos
esquecer que flores têm espinhos, e o que é mais importante delas não são as
pétalas e sim a essência. É de suma relevância não perdemos a sensibilidade.
Precisamos beijar a pessoa amada com os mesmos lábios que beijamos o espelho. E
não importa que seja por um momento apenas, pois a pena de quem ama é
simplesmente amar.
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| Fonte da imagem: http://controversia.com.br |
A correria louca e brusca que a sobrevivência exige não
pode ser maior do que o ar que respiramos. Existe tempo para tudo: para amar,
para sorrir, para brincar, para respeitar e para ser respeitado, para dormir e
para acordar, para amar e para ser amado, para sentir e para ser sentido, para
doar e para receber. Existe tempo para tudo, inclusive para morrer. Sim, não
fique triste, amigo leitor; isto é, se existe um leitor, já que estamos, ou
estou no quinto parágrafo. E talvez o tempo para morrer seja um dos mais
importantes da nossa vida. Estranho, né?
É claro que é estranho!
segunda-feira, 10 de junho de 2019
Resenha de Márcio Ahimsa sobre a obra A parteira
O poeta Márcio Ahimsa adentra a alma do livro 'A parteira' e
lhe enobrece com um excelente texto:
“No sítio da lagartixa e do limão, ali onde mal sabiam o que
era pão, a quem a pátria vomitou e, quando não mata no ventre, na vida” – Lima,
Adenildo, A parteira, Editora da Gente, São Paulo, 2013.
É nesse cenário de fábulas onde a terra rachada vomita fogo
em labaredas e revela suas veredas que nos deparamos com a essência humana na
pele caricata de uma gente que constrói a vida pelo revés do mundo.
A
parteira é uma obra concisa, estridente e real que nos mostra à tona de um povo
emergindo de sua própria força, sua fé, sua esperança. Aqui, onde muitos já
nascem no fim, a vida é um soslaio observando a gruta ao longe, como semente
que vigora na tez de uma rocha.
A obra
em si possui voz própria, a voz dos esquecidos, que é a voz de quem tem fome e
não fala. Comparar a obra de Adenildo Lima com qualquer outra obra é um
atrevimento, senão uma ofensa obliqua, pois se temos um caráter construtivo
semântico intencional na obra de João Cabral de Melo Neto, ou com um cunho
sócio psicológico proposto por Graciliano Ramos em “São Bernardo”, na pele do
personagem Paulo Honório, que embrutece a alma, não temos em “A parteira” nada
disso. Temos sim o menino Pedro com sua carência de brinquedo, temos a enxada
latente cortando seu pé esquerdo na sinonímia de um tempo que ainda acontece na
nossa contemporaneidade.
A
parteira é um grito e um silêncio, é essa paradoxal verossimilhança da
realidade de um país onde, de um lado é latente a dor escorrendo pelo
esconderijo em tom vermelho do nosso agreste e, do outro, é como se fosse uma
nódoa no tom de um conto de fadas onde se acredita em fantasias criadas, mas
não se crê em verdades cruas. Para quem vive no centro ótico do mundo, o
agreste, o ocre das capoeiras onde correm as crianças descalças e nuas atrás de
um ópio que as tornem reais, qualquer cabra ou maracatu para espetar a dor da
realidade, é apenas uma fábula ou história fantástica. Mas no leito dos
extremos de uma nação, esteja ela em qualquer continente, os contos de fadas
não maquiam a realidade. São verídicas as experiências de uma gente que caminha
no revés da história.
Assim,
a parteira é o silêncio que se faz ouvir na voz de uma gente onde um punhado de
sal é a medicina, sem a charlatanice pregada nas igrejas, sem a filantropia que
gera lucros.
Ali,
onde Madalena é a mãe do menino abstrato, cheio de ginga e trato, é onde a
realidade nos presenteia como ser existente, como ente que se faz presente na
orla do ontem, como papel timbrado no prefácio do hoje do que um dia fomos, do
que somos, do que ainda vamos descobrir ser.
Em “A
parteira”, a mulher abre a serra e se cobre de terra. Se sente a síntese da
vida. A parteira é Maria e ao mesmo tempo o enlevo da existência na sua tênue
andança. É a agrura de um povo na busca de um arrebatamento: existir.
A obra
“A parteira” é a primazia de um tempo de um existir humano onde grito e
silêncio são sinônimos dentro de uma equação nunca exata. Pois existir não é
simplesmente ser pedra. Existir sugere a mutação do tempo. Sugere ser a lâmina
que decepa a própria vida e ao mesmo tempo a chama que acena para o viver.
Nessa
obra o homem é assassino de si ao se permitir nascer. É filosoficamente uma
catarse sobre a tragédia humana de existir. Quem constrói a realidade? O homem
ou a própria realidade das coisas não passa de lembranças de um ser que morre e
que, no fim, não é nada?
Nessa
obra eu sinto o poeta nascendo pelos vales de sua própria palavra gritando os
silêncios que nunca vem à tona, ou que estão sempre consigo amordaçados pelas
sandálias que o calçam da nossa triste calçada de sonhos.
Aqui,
nesse cenário de orquestra, a vitrola era um vivo morto com os versos dessa
poesia retrato onde João naufragou sem sintomas, de apenas desnutrição.
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