quinta-feira, 17 de abril de 2014

Água de chocalho

O romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar serve de cenário para o romance.

A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu (...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou. Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou.  – Se contar você morre (...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...) Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu prometo (pp. 31,32).

Água de chocalho é um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de hoje.

Capa do livro


E as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?

O romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que, linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada personagem, e no decorrer da própria narrativa.

O cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido continua sendo mandado por quem detém o poder.

Era terra de Coronel Honório Paes, e isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).

Já na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um significado.

O maior problema de Honório Paes não era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio (...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a vitória do candidato (pp. 67,68).

Benedito Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande maioria.

Foto do autor: Benedito Ramos


O livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso. 

Ler Agua de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui, se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de presente um exemplar do próprio autor.

Merecidamente, Água de Chocalho é um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL, 2013.  Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’, que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.

Agora, cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de Benedito Ramos...

                              ... Água de Chocalho será um excelente começo.

Adenildo Lima


Informações adicionais:

 Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque 
Preço: 25,00

Onde comprar o livro Água de chocalho:


Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:

ENTREVISTA - 1ª PARTE

ENTREVISTA - 2ª PARTE



sexta-feira, 11 de abril de 2014

o segredo das horas

eu já esqueci das horas
que a noite passava sozinha
hoje
vivo cada segundo
contando as horas
que estou ao seu lado

nossos corpos e olhares
juntos
abraçam-se
rompendo a escuridão
da noite
e até mesmo a noite
some
quando sinto seus lábios
nos meus

amar é como descobrir mistérios
em plena infância
quando dois corpos se juntam
só o silêncio entre sussurros
de amores
dialogam felicidade

eu já esqueci das manhãs
que amanheciam sozinhas
hoje
a claridade do sol
reflete em seu olhar
quando nos olhamos

e o café tem sabor
de amor
em paladares
trazendo sabor
à vida
e até mesmo a correria
lá fora
passa-se despercebida

eu já esqueci do cansaço
que domava meu corpo
agora
nossos corpos juntos
vencem o cansaço
e viver tem sabor
tem cor
tem cheiro

amar é como descobrir
o segredo de parar
o relógio

mesmo que seja num sonho
de criança

adenildo lima


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma lágrima, um mendigo e dois cachorros

Amigo leitor e amiga leitora, deixo este aviso: todo este texto discorrerá sob as lágrimas de Natali Velásquez.

Lágrimas parecem água, mas não são. Por detrás existe todo um sentimento que move a existência daquela pessoa. Agora até que ponto elas são boas ou ruins, tão pouco sabemos.

Natali não é brasileira. Mas sempre que pode visita o Brasil. Ela é de um país europeu. O nome desse país? Tão pouco interessa. Ela é jovem, cheia de vida. E carrega no próprio olhar a sensibilidade da mulher que ama em pleno século 21.

Palavra essa que sempre deixa um questionamento para todos: o que é o amor?

É uma tarde de sexta-feira, Natali sai com alguns amigos e amigas para saborear o final do dia que, aos poucos, abraça a noite entre palavras degustadas num gole de cerveja. A vida, como sabemos, ou talvez poucos saibam, é uma corrida para um lugar que nunca sabemos se vamos chegar ou se tem algum ponto de chegada.

O ser humano, talvez o único Ser que luta para ser feliz, e por isso tão poucos o são, confunde, na maioria das vezes, felicidade com sentimentalismo, e esquece que o simples ato da felicidade se encontra em poder estar bem.

Natali olha uma cena qualquer, que infelizmente é natural na cidade de São Paulo, e nas muitas cidades do mundo: alguém lutando para defender o que lhe transmite felicidade. Quanto vale um mendigo no capitalismo esdrúxulo, no sentido mais devorador possível, que divide o seu único momento de felicidade com um ou com dois cães nas calçadas das metrópoles?

Por outro lado, pergunta esse narrador: quanto vale os cães que vivem com aquele mendigo?

Uma lágrima cai. Duas lágrimas caem. Três, quatro, cinco lágrimas caem. O rosto de Natali encontra-se fanado pelas lágrimas que acariciam sua face. O homem, sim, o homem, pois este narrador sempre enxerga alma nos corpos humanos que perambulam pela cidade; o homem grita na cara de uma mulher que tenta tirar dele os cães.

“Vocês estão invadindo o meu espaço”. E não podemos esquecer que o espaço é público, pois ele tem direito. “Vocês estão tirando a minha felicidade”. “Vocês não respeitam a felicidade do outro”. “Que seres são vocês?”. E ele continua lutando pela sobrevivência. Lutando pela felicidade compartilhada com os únicos seres vivos que dão sentido a sua existência. Mas alguém muito bom tenta tirar os cachorros dali para que eles não sofram. Lembre-se, este narrador diz, tirar os cachorros. O mendigo quanto vale? E os cães quanto valem?

Os dois cachorros encostam-se à parede e, assustados, observam todo o acontecimento.

 E Natali chora e chora e chora...

Só não se sabe se suas lágrimas foram derramadas pelos cães ou pelo ser humano, ali, abandonado, jogado na calçada, sem moradia, sem comida e sendo ameaçado de perder seu único sentido de vida: a companhia de seus dois amigos cães.

Pois é, amigo leitor e amiga leitora, quanto vale o ser humano hoje diante de um cão?

Adenildo Lima

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Resenha sobre a obra: A parteira - por Márcio Ahimsa

“No sítio da lagartixa e do limão, ali onde mal sabiam o que era pão, a quem a pátria vomitou e, quando não mata no ventre, na vida” – Lima, Adenildo, A parteira, Editora da Gente, São Paulo, 2013.




É nesse cenário de fábulas onde a terra rachada vomita fogo em labaredas e revela suas veredas que nos deparamos com a essência humana na pele caricata de uma gente que constrói a vida pelo revés do mundo.

A parteira é uma obra concisa, estridente e real que nos mostra a tona de um povo emergindo de sua própria força, sua fé, sua esperança. Aqui, onde muitos já nascem no fim, a vida é um soslaio observando a gruta ao longe, como semente que vigora na tez de uma rocha.

A obra em si possui voz própria, a voz dos esquecidos, que é a voz de quem tem fome e não fala. Comparar a obra de Adenildo Lima com qualquer outra obra é um atrevimento, senão uma ofensa oblíqua, pois se temos um caráter construtivo semântico intencional na obra de João Cabral de Melo Neto, ou com um cunho sócio psicológico proposto por Graciliano Ramos em “São Bernardo”, na pele do personagem Paulo Honório, que embrutece a alma, não temos em “A parteira” nada disso. Temos sim o menino Pedro com sua carência de brinquedo, temos a enxada latente cortando seu pé esquerdo na sinonímia de um tempo que ainda acontece na nossa contemporaneidade.

A parteira é um grito e um silêncio, é essa paradoxal verossimilhança da realidade de um país onde, de um lado é latente a dor escorrendo pelo esconderijo em tom vermelho do nosso agreste e, do outro, é como se fosse uma nódoa no tom de um conto de fadas onde se acredita em fantasias criadas, mas não se crê em verdades cruas. Para quem vive no centro ótico do mundo, o agreste, o ocre das capoeiras onde correm as crianças descalças e nuas atrás de um ópio que as tornem reais, qualquer cabra ou maracatu para espetar a dor da realidade, é apenas uma fábula ou história fantástica. Mas no leito dos extremos de uma nação, esteja ela em qualquer continente, os contos de fadas não maquiam a realidade. São verídicas as experiências de uma gente que caminha no revés da história.




Assim, a parteira é o silêncio que se faz ouvir na voz de uma gente onde um punhado de sal é a medicina, sem a charlatanice pregada nas igrejas, sem a filantropia que gera lucros.

Ali, onde Madalena é a mãe do menino abstrato, cheio de ginga e trato, é onde a realidade nos presenteia como ser existente, como ente que se faz presente na orla do ontem, como papel timbrado no prefácio do hoje do que um dia fomos, do que somos, do que ainda vamos descobrir ser.

Em “A parteira”, a mulher abre a serra e se cobre de terra. Se sente a síntese da vida. A parteira é Maria e ao mesmo tempo o enlevo da existência na sua tênue andança. É a agrura de um povo na busca de um arrebatamento: existir.

A obra “A parteira” é a primazia de um tempo de um existir humano onde grito e silêncio são sinônimos dentro de uma equação nunca exata. Pois existir não é simplesmente ser pedra. Existir sugere a mutação do tempo. Sugere ser a lâmina que decepa a própria vida e ao mesmo tempo a chama que acena para o viver. Nessa obra o homem é assassino de si ao se permitir nascer. É filosoficamente uma catarse sobre a tragédia humana de existir. Quem constrói a realidade? O homem ou a própria realidade das coisas não passa de lembranças de um ser que morre e que, no fim, não é nada?

Nessa obra eu sinto o poeta nascendo pelos vales de sua própria palavra gritando os silêncios que nunca vem à tona, ou que estão sempre consigo amordaçados pelas sandálias que o calçam da nossa triste calçada de sonhos.




Aqui, nesse cenário de orquestra, a vitrola era um vivo morto com os versos dessa poesia retrato onde João naufragou sem sintomas, de apenas desnutrição.


Márcio Ahimsa é crítico literário, poeta, tem formação em Letras e escreve no site HOMO LITERATUS.  


A parteira
Adenildo Lima
editora da gente
124 páginas
R$ 30,00

 Onde comprar?
Martins Fontes

Fotos retiradas da página do face book: EDITORA DA GENTE

Créditos das fotos: Roberto de Lima

Adenildo Lima

domingo, 30 de março de 2014

Agenda do "Sarau Poético", abril, 2014




Sarau Poético -  4ª apresentação

Local: Fábricas de Cultura Vila Nova Cachoeirinha

Abril – Dia 29 – Terça-feira – 14h30 – Biblioteca

Mais informações: Clique Aqui


Sarau Poético - 3ª apresentação


Local: Fábricas de Cultura Jaçanã

Abril – Dia 25 – Sexta-feira – 14h30 – Biblioteca

Mais informaçõesClique Aqui 



Sarau Poético -  2ª apresentação


Local: Fábricas de Cultura Jardim São Luís

Abril – Dia 16 – Quarta-feira – 14h30 – Biblioteca

Mais informações: Clique Aqui  


Sarau Poético  - 1ª apresentação


Local: Fábricas de Cultura Capão Redondo
Abril – Dia 9 – Quarta-feira – 14h30 – Biblioteca

Mais informações: Clique Aqui 


Eu, Maria Vilani e Diego Muñoz.
Apresentação do "Sarau Poético" no Palácio das Convenções, Anhembi, ao convite da São Paulo Turismo, 2013.
Foto: Roberto de Lima.

Link para acessar o álbum de fotos: FACEBOOK DO SARAU POÉTICO


Adenildo Lima

terça-feira, 25 de março de 2014

A parteira

Ao pedido de algumas pessoas, compartilho mais algumas informações sobre o meu mais recente livroA parteira.

A parteira é um poema narrativo, escrito em versos decassílabos, compondo um livro de 124 páginas.


A parteira
Adenildo Lima
editora da gente
124 páginas
R$ 30,00

Onde comprar?



Sinopse:
  
A parteira, a meu ver, é o Grito Social mais urgente, depois de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto; e Poema Sujo, de Ferreira Gullar, que li até hoje. É uma narrativa artisticamente trabalhada! Modestamente eu sei reconhecer o valor de uma obra literária. Este poema é de uma riqueza inigualável! Em todos os aspectos, parece que nasceu do jeito que se lê, não me parece ter um desleixo, um excesso.

Dias Miranda - Escritor e dramaturgo



Trecho do prefácio:

"Esta é uma poesia de vozes e tradições misturadas, que proporcionarão experiências diferentes a cada leitura. Mas imagino que todas passem pela análise da sociedade brasileira por um viés de crítica diante da situação de orfandade em que se encontram milhares de brasileiros. A cada verso, o leitor é chamado a reparar a condição do outro, viver a experiência do outro, e, assim, reavaliar sua visão do mundo e suas atitudes para transformá-lo. (...)

A parteira é um poema de narrativas, de protagonistas que se alternam e se ligam por uma linha tênue, apenas um pequeno veio de água correndo que, no meu entendimento, é a vida. São vidas que estão por um fio, porque as histórias se passam na secura da nossa terra, onde tudo é escasso. Até o amor – um bem que, na caracterização dos personagens, parece nascer com as mulheres e que os homens ainda estão procurando".


Isabel de Andrade Moliterno - Mestra e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

Lançamento na Livraria Martins Fontes Paulista, 07.12.13






Matéria no jornal Alagoas 24 horas:

http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=172717

Lançamento na Casa de Cultura Palhaço Carequinha, Grajaú, SP - 09.11.13. Teve a participação do cantor e compositor Diego Muñoz. E exposição de artes plásticas dos artistas: João Paulo de Melo, que fez a capa. E alguns quadros de Ricardo Negro.



Fotos retiradas da página:

https://www.facebook.com/pages/A-parteira/180233408835733

Créditos das fotos: Roberto de Lima

Site da Editora:

http://editoradagente.com.br/

Adenildo Lima

segunda-feira, 24 de março de 2014

Valencianas: o bom com o bom fica bom demais




Que Alceu Valença não precisa de definições para a sua carreira artística, isso é sabido. Ele é um “monstro” da música brasileira. Por outro lado, sempre que o bom faz uma junção com o bom fica bom demais. Não que o Alceu não seja bom demais. Isso, também, todo mundo sabe. Mas quero falar do espetáculo que assisti domingo, 23 de março, no Sesc Vila Mariana, aqui em São Paulo.

Valencianas. Este é o nome do espetáculo que se apresentou sexta, sábado e domingo, que é a junção da Orquestra Ouro Preto com a brasilidade musical de Alceu Valença. A apresentação foi realmente emocionante do início ao fim.

Pura poesia no palco!

A orquestra regida pelo maestro Rodrigo Toffolo, logo no início recebeu palmas da plateia de pé e, em seguida, por diversas vezes. O público foi ao delírio. A brasilidade da música e da poesia do nosso mestre Alceu com a junção harmônica da batuta regida nos versos de cada instrumento musical foram, sem dúvida, de derrubar lágrimas dos olhos.



Rodrigo Toffolo agradeceu com tom de voz, também, assim como o público, emocionado. A plateia foi parte do espetáculo do início ao fim, muito cordial, educada, ovacionando o espetáculo, cantando e com um sorriso no olhar repleto de felicidade.

E foi impossível não perceber a alegria estampada no rosto da jovem artista com o seu instrumento, ali, no lado esquerdo do palco. Ela ria, ela cantava e tocava em êxtase. O seu olhar, o seu comportamento demonstravam a honra que estava sentindo ao lado de Alceu.



O Show foi um espetáculo à parte. A Orquestra Ouro Preto e Alceu Valença com seu violão e sua voz, “La Belle de Jour”, levaram aos nossos ouvidos o som do “Sino de Ouro”, deixando o sentimento da plateia ser movido pelo “Coração Bobo”, que só quem ama pode sentir e dialogar com a essência poética provinda do trim, trim da harmonia musical.

Valencianas é um espetáculo que deve e precisa se apresentar em todos os países do mundo, para levar e compartilhar com todos e para todos uma das melhores músicas do planeta: a música brasileira.



Parabéns, Alceu, pelo seu carisma. E parabéns pelo presente que vocês, juntos, nos deram.

Agora vamos esperar o CD e o DVD do “Espetáculo Valencianas”, conforme anunciado pelo maestro.

Bom demais!
                  

Créditos das fotos: Nathalia Torres

Fotos retiradas da página do facebook: Orquestra Ouro Preto

sexta-feira, 21 de março de 2014

Revista Cult entrevista a poeta Maria Vilani



A Revista Cult, nº 188, ano 17, deste mês de março de 2014, entrevista uma das mulheres mais importantes da nossa contemporaneidade, principalmente pela sensibilidade humana que ela tem e é, o que tão pouco encontramos no nosso dia a dia.

 O nome dela é Maria Vilani.

Maria Vilani é mãe, é poeta, é professora, é ativista cultural, é filósofa, é Mulher. Nessa entrevista conhecemos um pouco desse ser ilustre que habita entre nós. Ela como poeta, costumo dizer, inclusive falo para ela mesma, que a sua poesia está no mesmo lugar que se encontram os poemas das grandes poetas como Cecília Meireles, Adélia Prado e tantas outras mais. E para mim ela é, sem sombra de dúvida, uma das maiores poetas deste século 21.

A entrevista concedida por ela para a Cult é pura poesia. Existe nas palavras um mar denso de essência: “Não existe arte da periferia, não existe poeta periférico. Existe arte, existe poeta. Só que, para você pular algumas barreiras e chegar do outro lado do mundo, você precisa da moeda. Até o ato livre de ir e vir não é tão livre quando você não tem a moeda para pagar a condução”.

 Maria Vilani é uma voz que vai além dos muros, muitas vezes impostos pelo próprio sistema capitalista que tanto a sociedade almeja. Ela fala da arte como uma voz universal, e é: “A arte chega no recôndito da alma, onde nenhuma outra expressão pode chegar”, diz. “Nós precisamos fazer arte para promover o ser humano porque a arte emerge do ser”.

Maria Vilani nessa entrevista fala de sua vida de mãe, de sua luta há mais de vinte anos, na região do Grajaú, na zona sul de São Paulo, à frente de diversos movimentos artísticos e culturais, fala dos seus três livros publicados, entre eles, “Varal”, livro de poemas publicado em 2012, pela editora da gente. E fala de um sonho especial: “Eu sonho com o dia em que as pessoas se acolham mutuamente, independente da classe social, do poder aquisitivo e do poder intelectual”.

Maria Vilani é verso e se versifica nos versos de sua poesia: “Eu queria ser simples/ Como as pombas/ Que beliscam migalhas/ Atiradas ao chão”, do poema “Apenas uma pomba”.

É uma excelente entrevista, vale a pena conferir!

Adenildo Lima




Varal
Maria Vilani
editora da gente
128 páginas
R$ 30,00

Onde comprar?







Fala e Escrita - Parte 01 - Luiz Antônio Marcuschi

https://www.youtube.com/watch?v=XOzoVHyiDew

parte 2

https://www.youtube.com/watch?v=6y9xK-9bbcw

parte 3

https://www.youtube.com/watch?v=UqSfGyR1ERA

terça-feira, 4 de março de 2014

A importância das coisas, por Márcio Ahimsa

A importância das coisas
(Márcio Ahimsa)

Para mim é difícil e por deveras doloroso, pois nada tenho com a vida alheia e confesso mesmo que, pouco me interessa os modos, a aparência do outro, ter de abordar algo que nada tenha a ver comigo, pelo menos diretamente. Podem, por indução da afirmação, acusar-me de indiferente. Sou, confesso, nesses percalços, dada a gravidade com que me foi concebida a personalidade, fugindo a relatos mais íntimos, atenho-me a dizer que foi como a de milhares de outras pessoas, dado este que não me faz ser melhor nem merecedor de uma atenção mais refinada por parte de ninguém. Porém, tantos fatos cotidianos chamam-nos a atenção. Ainda mais quando o prazer, o verdadeiro sentido da vida, dá-se por senti-la assim, pelos pormenores, coisas pitorescas, que trazem algum brilho nos olhos pelo fim da tarde. Quem é poeta, por fim, escreve qualquer verso livre. Quem é filósofo, devaneia seus pensamentos insólitos ou não, e chega a alguma conclusão ou divergência. Mas o ocorrido é tal e fato. A tarde caía lenta com um verão assimétrico, dado o fervor com que atulhava por volta do meio dia e com que se disseminava pela tarde em aguaceiro, coisa normal e do clima tropical que qualquer país um pouco abaixo da linha do equador tem. Aqui, cidade de São Paulo, conhecida como terra da garoa, não é diferente. Com o calor, percebe-se naturalmente as pessoas agitadas e com as vistas cansadas, todas marchando rumo a algum destino. Uma mulher robusta, fatigada pelo sol quente, segurava as pernas encostada próxima à entrada de um banco. Motoboys entravam e saíam com suas pastas pretas, com suas mochilas abarrotadas de papéis. Nada de anormal, a não ser pelo fato dessa mulher se deixar cair e desfalecer os sentidos. De início, ninguém dera pelo seu mal estar. Acresce que ela caíra de cócoras, deslizando levemente as costas pela parede e permanecera ali, sentada, com a cabeça enfiada entre os joelhos. As mesmas pessoas entravam e saíam do banco sem darem pela existência dela. Passou uma tropa de policiais que faziam a ronda a pé, também não deram pela presença da senhora. Uma velhinha de cara chupada, por fim, percebe a desvalida caída e tenta reanimá-la. Enquanto isso, um grupo de rapazes observa as garotas passarem com seus decotes. Um deles diz: - Essa é gorda, estou fora. Outro concorda com a cabeça e repara as nádegas avantajadas de outra moça que passa com um short jeans justo e apertado. O meliante insiste em pedir uns trocados e conta sua história de que não tem família e precisa comer, pois, segundo ele, faz dois dias que não come nada. Sua cara inchada em decorrência dos males do fígado o condena, e poucos o ajudam. A mulher continua caída e a senhora tentando reanimá-la. Esta, por sua vez, tenta chamar ajuda. Fala para o camelô que possui uma banca de CDs piratas que há alguém passando mal. Este passa os olhos pela mulher e diz para a velha que é vertigem. Basta tomar um gole d`água que passa. A velha então se dirige ao boteco mais próximo e pede um copo com água e explica que é para alguém que está passando mal. Quando volta, a moça já não estava mais ali. Havia recobrado os sentidos. Levantara-se então e foi embora. A velha toma a água e, sem entender nada, segue também o seu rumo.

O que há de interessante nesse acontecido é que, na verdade, não há nada de interessante. Voltei para casa cheio de cenas na cabeça. Um calor insuportável me corroendo o cérebro. No caminho, sempre sigo com cabeça sempre ereta, com o olhar sempre direcionado para frente. Desconheço os lados da rua. Percebo sempre os vultos das pessoas. Às vezes, surpreendo-me sendo chamado por algum conhecido. Fato que considero normal, mas que não dou muita importância, pois sou despercebido de mim mesmo. Na rua onde moro, percebo apenas que sempre as mesmas pessoas estão sentadas no meio fio em frente de suas casas. Percebo que algumas senhoras estão ali apenas para observar o viver alheio. Para comentar sobre determinada garota que perdeu a virgindade, ou sobre aquele rapaz que, de vez em quando, resolve enrolar o seu cigarro de maconha e fumar discretamente. Percebo também que um negrinho é mal visto pelo dono do mercadinho do bairro, pois anda descalço e com as roupas em molambos. Percebo também que os melhores amigos também são todos cheios de bobagens e que também julgam as pessoas pela aparência. Percebo que ninguém é perfeito e que, por isso mesmo, nada tenho que achar de correto ou errado em os seus atos. Mas afinal, porque falar de coisas sem importância. Confesso, não sei. Apenas meneio a cabeça em aceno e cumprimento que, para mim, nada significa, pois é apenas um gesto involuntário. Se me cumprimentam, ou não, tanto faz. Isso é algo que me tenho comigo. Alguns, creio, não vão muito com minha cara e minha indiferença. Eu também os compreendo. Sou assim mesmo. E não ha nada que me faça sorrir ou chorar, além de me sentir feliz comigo mesmo. E essa tolice toda nada tem a ver com confissão ou arrependimento. É algo que desejo falar, para eu mesmo ler, para eu mesmo contemplar e raciocinar. Só sei, nesse meu aprendizado de vida, nessa filosofia intrínseca minha, que amor ou desamor, nada tem a ver com o jeito de ser de cada um. A velha senhora não chamou o resgate, mas nem por isso seu ato foi menos nobre ao buscar um copo dàgua, nem do camelô, que apenas a instruiu a pegar o copo de água e não deu maior importância para o caso. Na verdade, todo mundo é assim, todo mundo tem medo de se intrometer e se ver no lugar de outro. Todo mundo é mais ou menos relapso, é mais ou menos curioso. E, de natural, é tudo e toda conduta humana, pois que o mundo é um caldeirão de pessoas vivendo suas vidas conforme suas crenças, culturas, aprendizados, etc. Eu, de vez em quando choro, mas minhas lágrimas também não querem dizer nada.

De interessante é saber que minha morte é apenas mais uma morte em meio a milhões de outras mortes, que meu amor, se é que há algum amor em mim, é apenas um amor dado a qualquer ser deste mundo, que minha dor é apenas uma das muitas dores que já tive e terei. Que meu viver no mundo não é mais que o viver de uma minhoca. Que minhas palavras não são nada mais que pensamentos que resolveram escapar da minha cabeça e que a ilusão existe sempre para confortar os medos, e que os sonhos são apenas nuvens que sobrevoam nossa consciência para nos matar menos dolorosamente que a espada. Afinal, morrer agora, ou morrer daqui a 30 anos é a mesma coisa, pois será sempre o mesmo eu que morrerá. Essa frase, confesso, não é minha, é de um escritor Argelino, que gosto muito. Mas também não tem importância, pois é a mais pura verdade, e não é só dele, nem minha, é de todos. Só sei que me despeço de mim, um pouco, a cada dia. E que todas as bobagens que penso, não passarão de um mero rascunho esquecido aqui nessa gaveta virtual.


Fonte: https://www.facebook.com/marcio.costa.794628?hc_location=timeline

Acesse também:

Blog:

http://tecerpalavras.blogspot.com.br/

Coluna no site Homoliteratus:

http://homoliteratus.com/o-ethos-vida-o-tempo-e-o-amor-na-poesia-de-maria-vilani/


domingo, 2 de março de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

intimidade amigável

minha querida amiga
o teu sorriso
já não me satisfaz mais
gostaria mesmo era de sentir
o sabor do riso
em teus lábios

adenildo lima

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

sede e fome de vida

sinto fome
gostaria de ser alimentado
apenas pela poesia
pela literatura
pela arte
e pela cultura
gostaria de rasgar
todas as notas de cem reais
gostaria de queimar a hipocrisia
humana
que de humana não tem nada
sinto fome e sede
de amor
não dos amores inventados
criados
mascarados
o amor o amor o amor
em cada verso da vida
refletido no sorriso
da criança
do adulto
no sorriso da inocência
da vida
onde guarda toda a poesia
gostaria de ser alimentado
pelas palavras
que tão raramente
são pronunciadas
pelas bocas
e lábios
e língua
dessa humanidade
que a cada dia mais
se desumana

adenildo lima


Poeta Thiago de Mello - Uma extraordinária entrevista

Uma extraordinária entrevista com o poeta Thiago de Mello. Parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=yiXSBZzQKaw


Parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=Soy5070tZV0

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

segredo das palavras

sim
não são suas palavras
apenas
que me interessam
são
na verdade
o que está escrito
por detrás dos teus
olhos
as palavras
nem as escuto
tanto assim

adenildo lima

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

brincando de ser feliz

roubou-me
um beijo
triste foi a dor
da ausência
do vazio
que ficou

adenildo lima

paradoxos da existência

com medo da solidão
casou-se
e passou a viver
      em regime
               domiciliar

adenildo lima

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

denso e envolvente amor

oh, sim, beije-me os lábios. apenas os lábios
quero sentir seu respirar em mim, assim
como o orvalho beija, no cair da noite, os lírios
oh, sim, abrace-me no existir em ti e em mim.

abrace as minhas mãos. quero sentir sua alma
envolvida pelo pulsar do seu coração
num transe de amantes que nos beijos acalma
abrace o meu olhar e contemplamos a emoção.

lá fora a chuva cai em sinfonia e em som de louvor
aos nossos beijos e abraços envolventes
no sentir em ti e em mim esse denso amor

o amor, meu bem, é remédio e cura que salva
abrace-me. somos um casal de amantes
o teu amor é arte e escultura que eu já contemplava.

adenildo lima


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Escritor alagoano lança livro em São Paulo

Reportagem sobre o lançamento do livro "A parteira", de minha autoria, no jornal Alagoas 24 horas". Acessem:

http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vEditoria=Cultura&vCod=172717

O Ethos, a Vida, o Tempo e o Amor na poesia de Maria Vilani

Resenha do livro "Varal", da poeta "Maria Vilani", escrita pelo poeta e crítico literário Márcio Ahimsa, publicada em um dos maiores sites literários. Acessem:

http://homoliteratus.com/o-ethos-vida-o-tempo-e-o-amor-na-poesia-de-maria-vilani/