quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A libido da vida

Aos meus oitenta anos só vivo mesmo através das memórias que memoriam a minha vontade de viver. É, amigo leitor, através das memórias. "Mas senhor, a vida é o que vivemos", você diz. E eu fico pensando nas forças que já não tenho mais para viver. Estou fraco, sinto-me cansado, observo a rua com seus passageiros ambulantes, em plena madrugada. Quase nem durmo mais. Pego os livros e eles já não me dizem mais o que diziam quando eu tinha meus vinte anos de idade. E apreciar as páginas dos romances de DOSTOIÉVSKI passa a ser um passatempo. Aqueles personagens, amigo leitor, são retratos da humanidade de toda a vida. Aquela inocência com uma inteligência que muitas vezes nos causa raiva. Hoje, aos meus oitenta anos, percebo que é a outra face que não conseguimos enxergar enquanto estamos desfrutando da libido da vida. "Mas o senhor não acredita em vida após a morte?". Você me pergunta. E eu te pergunto, se eu tenho essa resposta? Ou se você tem? Somos egoístas, individualistas ao extremo, pensamos muito no Eu, no Eu. Queremos ser eternos, sonhamos com a eternidade, e ficamos cansados da vida aos oitenta. Sim, falo isso, pois como estou falando desde o começo da nossa conversa, tenho oitenta anos.

A vida, hoje, me passa pelas lembranças. O passado parece ser sempre melhor. Quando eu tiver noventa anos, isto é, se eu chegar lá, vou sentir saudades dos oitenta, e dos meus olhos vão cair uma lágrima. Tentarei pegá-la com as mãos, e ela será diluída no ar. Ficarei me perguntado, como estou fazendo agora: o que fiz de bom? É, esta pergunta é forte: O que eu fiz de bom em toda a minha vida para dizer que valeu a pena viver? Você abre um sorriso neste momento em que faz a leitura deste texto, um sorriso vindo com uma dúvida no olhar diante do reflexo que nos transmite o espelho. Até sente vontade de vir falar comigo para perguntar o que eu fiz durante esses oitenta anos vividos. Sendo sincero, faz menos de um dia que eu tinha vinte anos. Você pode não acreditar, mas é verdade, percebo isso agora. E pelo o incrível que pareça, não sinto que tenho oitenta anos.

Na minha juventude tentei várias vezes escrever poemas, sonhava em conquistar Natali Velásquez. Natali era uma jovem de dezoito anos. Cabelos longos, loiros, um metro e setenta, nariz fino, lábios carnudos, uma pele suave no rosto, um sorriso que transmitia felicidades para todos que conversavam com ela. E aquele jeito meigo, de menina que ela tinha, fez com que eu me apaixonasse loucamente. Um dia ela leu um poema que fiz especialmente pra ela, só que eu não falei, é claro, jamais iria falar. Ela leu, olhou para mim, com uma inteligência fora do comum e disse: "poetas nascem, não é como um produto que se faz". Aquilo mexeu comigo, e muito! Muito mesmo! Ela, leitora assídua de Drummond, de Fernando Pessoa, sabia que eu estava apenas tentando conquistá-la com uns versos improvisados. E um verdadeiro poeta jamais usa de sua poesia para conquistar uma mulher. A poesia não existe para isso. É claro que não!

Lembrando de Natali, abro um sorriso, a minha neta passa puxando um brinquedo casa afora. "Vô, tá rindo de quê?". Ela pergunta. Eu... apenas continuo rindo. Se eu fosse falar, talvez ela não entendesse, tem apenas dez anos de idade. Continuo ali, sentado na poltrona. Neste momento, possivelmente o amigo leitor esteja pensando que sou um velho caduco. E eu digo que nunca estive tão são. Olho a minha biblioteca, vejo a minha tese de doutorado, e fico me perguntando pra que serviu tantas pesquisas, tantas reproduções de outros autores, porque, na verdade, estudioso só reproduz, criar que é bom, é difícil. O meu sonho mesmo era ser poeta, mas Natali percebeu antes mesmo que eu descobrisse. Natali Velásquez. Até hoje sinto o sabor dos lábios dela encostando aos meus. Pois é, amigo leitor, eu não tinha te contado, acredito que você estava na expectativa de saber se eu tinha tido um envolvimento amoroso com ela. Tive. Foi breve, mas tive. Durou aproximadamente uns vinte minutos. Era o meu penúltimo dia, ali, na minha cidade natal. No dia seguinte eu estava viajando para o exterior, ia estudar, aliás, passar a maior parte da minha vida fechado numa universidade. Mas lembro claramente daqueles vinte minutos.

Sim, lembro claramente, amigo leitor. Estávamos sentados numa praça, e ela disse que sempre teve vontade de namorar comigo, mas tinha medo de se apaixonar, me achava um rapaz muito estudioso, via em mim um futuro brilhante, e ela podia atrapalhar esse meu futuro. Disse que tinha plena certeza que se tivéssemos namorados, iríamos casar. Fiquei ouvindo-a por um bom tempo. Peguei a mão dela, com carinho. Ela olhou para mim, os olhos dela estavam emocionados, demonstravam um sentimento de paixão tão forte. Aos poucos eles foram fechando. Os meus também. Os nossos lábios foram se aproximando. Foi tão gostoso aquele beijo, aquele momento. Depois de quinze anos voltei para um passeio. Ela estava casada, com dois filhos. Casou-se com um rapaz inteiramente ciumento, bruto. É, amigo leitor, confesso que Natali estava presente, mas já estava morta em vida. Ela quis me abraçar. Abriu um sorriso. Conversamos por aproximadamente uns cinco minutos. E saí.

Aqui, sentado nesta poltrona, aos meus oitenta anos de idade, fico me perguntando: "E se eu tivesse casado com ela, como estaria a minha vida hoje, ou como teria sido?" Você também faz esta pergunta, eu sei. Mas a vida é o que vivemos, como você mesmo disse, não podemos ficar felizes ou tristes com o que traçamos com o decorrer dos dias vividos. Temos apenas que vivê-los. Ah, você também quer saber se eu casei. Curioso você é, amigo leitor. Respondo que sim. Casei, e tivemos uma filha maravilhosa. A minha esposa chegou a falecer faz cinco anos. Quando casei estava com quarenta e cinco anos de idade.


É, amigo leitor, a vida é o que vivemos. E se você aprendeu a amar, já é o suficiente para não se sentir tão sozinho.

Adenildo Lima

P.S.: Este texto foi publicado aqui neste blog no dia 2 de setembro de 2011

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