segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Livros

TODOS À VENDA NA LIVRARIA DO RESERVA CULTURAL, AVENIDA PAULISTA, Nº 900.

Editora da Gente 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A libido da vida

Aos meus oitenta anos só vivo mesmo através das memórias que memoriam a minha vontade de viver. É, amigo leitor, através das memórias. "Mas senhor, a vida é o que vivemos", você diz. E eu fico pensando nas forças que já não tenho mais para viver. Estou fraco, sinto-me cansado, observo a rua com seus passageiros ambulantes, em plena madrugada. Quase nem durmo mais. Pego os livros e eles já não me dizem mais o que diziam quando eu tinha meus vinte anos de idade. E apreciar as páginas dos romances de DOSTOIÉVSKI passa a ser um passatempo. Aqueles personagens, amigo leitor, são retratos da humanidade de toda a vida. Aquela inocência com uma inteligência que muitas vezes nos causa raiva. Hoje, aos meus oitenta anos, percebo que é a outra face que não conseguimos enxergar enquanto estamos desfrutando da libido da vida. "Mas o senhor não acredita em vida após a morte?". Você me pergunta. E eu te pergunto, se eu tenho essa resposta? Ou se você tem? Somos egoístas, individualistas ao extremo, pensamos muito no Eu, no Eu. Queremos ser eternos, sonhamos com a eternidade, e ficamos cansados da vida aos oitenta. Sim, falo isso, pois como estou falando desde o começo da nossa conversa, tenho oitenta anos.

A vida, hoje, me passa pelas lembranças. O passado parece ser sempre melhor. Quando eu tiver noventa anos, isto é, se eu chegar lá, vou sentir saudades dos oitenta, e dos meus olhos vão cair uma lágrima. Tentarei pegá-la com as mãos, e ela será diluída no ar. Ficarei me perguntado, como estou fazendo agora: o que fiz de bom? É, esta pergunta é forte: O que eu fiz de bom em toda a minha vida para dizer que valeu a pena viver? Você abre um sorriso neste momento em que faz a leitura deste texto, um sorriso vindo com uma dúvida no olhar diante do reflexo que nos transmite o espelho. Até sente vontade de vir falar comigo para perguntar o que eu fiz durante esses oitenta anos vividos. Sendo sincero, faz menos de um dia que eu tinha vinte anos. Você pode não acreditar, mas é verdade, percebo isso agora. E pelo o incrível que pareça, não sinto que tenho oitenta anos.

Na minha juventude tentei várias vezes escrever poemas, sonhava em conquistar Natali Velásquez. Natali era uma jovem de dezoito anos. Cabelos longos, loiros, um metro e setenta, nariz fino, lábios carnudos, uma pele suave no rosto, um sorriso que transmitia felicidades para todos que conversavam com ela. E aquele jeito meigo, de menina que ela tinha, fez com que eu me apaixonasse loucamente. Um dia ela leu um poema que fiz especialmente pra ela, só que eu não falei, é claro, jamais iria falar. Ela leu, olhou para mim, com uma inteligência fora do comum e disse: "poetas nascem, não é como um produto que se faz". Aquilo mexeu comigo, e muito! Muito mesmo! Ela, leitora assídua de Drummond, de Fernando Pessoa, sabia que eu estava apenas tentando conquistá-la com uns versos improvisados. E um verdadeiro poeta jamais usa de sua poesia para conquistar uma mulher. A poesia não existe para isso. É claro que não!

Lembrando de Natali, abro um sorriso, a minha neta passa puxando um brinquedo casa afora. "Vô, tá rindo de quê?". Ela pergunta. Eu... apenas continuo rindo. Se eu fosse falar, talvez ela não entendesse, tem apenas dez anos de idade. Continuo ali, sentado na poltrona. Neste momento, possivelmente o amigo leitor esteja pensando que sou um velho caduco. E eu digo que nunca estive tão são. Olho a minha biblioteca, vejo a minha tese de doutorado, e fico me perguntando pra que serviu tantas pesquisas, tantas reproduções de outros autores, porque, na verdade, estudioso só reproduz, criar que é bom, é difícil. O meu sonho mesmo era ser poeta, mas Natali percebeu antes mesmo que eu descobrisse. Natali Velásquez. Até hoje sinto o sabor dos lábios dela encostando aos meus. Pois é, amigo leitor, eu não tinha te contado, acredito que você estava na expectativa de saber se eu tinha tido um envolvimento amoroso com ela. Tive. Foi breve, mas tive. Durou aproximadamente uns vinte minutos. Era o meu penúltimo dia, ali, na minha cidade natal. No dia seguinte eu estava viajando para o exterior, ia estudar, aliás, passar a maior parte da minha vida fechado numa universidade. Mas lembro claramente daqueles vinte minutos.

Sim, lembro claramente, amigo leitor. Estávamos sentados numa praça, e ela disse que sempre teve vontade de namorar comigo, mas tinha medo de se apaixonar, me achava um rapaz muito estudioso, via em mim um futuro brilhante, e ela podia atrapalhar esse meu futuro. Disse que tinha plena certeza que se tivéssemos namorados, iríamos casar. Fiquei ouvindo-a por um bom tempo. Peguei a mão dela, com carinho. Ela olhou para mim, os olhos dela estavam emocionados, demonstravam um sentimento de paixão tão forte. Aos poucos eles foram fechando. Os meus também. Os nossos lábios foram se aproximando. Foi tão gostoso aquele beijo, aquele momento. Depois de quinze anos voltei para um passeio. Ela estava casada, com dois filhos. Casou-se com um rapaz inteiramente ciumento, bruto. É, amigo leitor, confesso que Natali estava presente, mas já estava morta em vida. Ela quis me abraçar. Abriu um sorriso. Conversamos por aproximadamente uns cinco minutos. E saí.

Aqui, sentado nesta poltrona, aos meus oitenta anos de idade, fico me perguntando: "E se eu tivesse casado com ela, como estaria a minha vida hoje, ou como teria sido?" Você também faz esta pergunta, eu sei. Mas a vida é o que vivemos, como você mesmo disse, não podemos ficar felizes ou tristes com o que traçamos com o decorrer dos dias vividos. Temos apenas que vivê-los. Ah, você também quer saber se eu casei. Curioso você é, amigo leitor. Respondo que sim. Casei, e tivemos uma filha maravilhosa. A minha esposa chegou a falecer faz cinco anos. Quando casei estava com quarenta e cinco anos de idade.


É, amigo leitor, a vida é o que vivemos. E se você aprendeu a amar, já é o suficiente para não se sentir tão sozinho.

Adenildo Lima

P.S.: Este texto foi publicado aqui neste blog no dia 2 de setembro de 2011

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Valéria. Quanto valeria Valéria?

A madrugada estava fria. O relógio marcava três horas da manhã. Vinícius olhou para o espelho e perguntou: "Quanto vale uma Valéria?". Valéria Valeria muitas Valérias. Era a mulher que ele amava; aliás, que tanto amou. Sim, que tanto amou. E todas as demais mulheres na vida eram o reflexo de Valéria.

Uma taça de vinho, duas taças de vinho, três taças de vinho. O dia parecia querer amanhecer. E ele olhava dentro dos olhos dela procurando Valéria. Valéria não aparecia e, quando aparecia, sumia tão rapidamente. "Uma noite de amor não pode ser apenas uma noite de amor", pensava ele. E Valéria estava adormecida. E ele pensava que Valéria já não valeria mais tanto assim.

Um passeio no parque. Um momento distraído no voo para Paris, enquanto conversavam dizendo que se o avião caísse tudo acabaria ali. Eles riam como duas crianças descobrindo os segredos da vida. Valéria amava Vinícius, é claro! Quem diria que não?  E Vinícius amava Valéria, é claro! Quem diria que não?

E juras de amor eram feitas a todos os momentos...

De volta ao Brasil. Vinícius voltou só. Valéria ficou um pouco desfrutando Paris. Um mês, dois meses, três meses e nada. Vinícius se encontra com Valéria: jovem, sorriso extravagante; ao contrário de sua Valéria que já não era tão jovem assim. Ele beijou Valéria. Beijou Valérias. Valéria. Quanto Valeria Valéria?

Valéria estava noutros braços...

Vinícius vai para a Holanda. Sim, Vinícius sonhava que podia encontrar Valéria na Holanda. E encontrou. Sorriso meigo, semblante doce no olhar, pele suave, voz atraente e calma. Na Holanda Vinícius sentiu que estava amando Valéria. E Valéria também. Mas no frio da madrugada ele perguntou quanto valeria Valéria, ali, deitada sobre a cama, seminua; aliás, uma verdadeira obra de arte. Vinícius beijou os lábios de Valéria. Ela sorriu.

Valéria passou a ser para ele tantas Valérias...

Vinícius foi para Paris. Valéria estava casada, e com um filho. Sentiu que já não era mais o amor de Valéria. Foi atrás doutra Valéria. Quanto Valeria Valéria?, perguntou. Valéria valeria cada segundo que viveram juntos, cada beijo que deram, cada abraço sentido e vivido, cada olhar apreciado. Valéria valeria o valor que desfrutaram juntos.

Era preciso encontrar outra Valéria, pensou Vinícius. E pegou um voo para Londres...

Adenildo Lima

P.S.: Este texto foi publicado aqui neste blog no dia 15 de março de 2014.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

As ruas de Parri

Pelas ruas de Parri caminha Lunita: um violão nas costas e uma voz no peito. Ela sonha em acalmar os corações de pedra e acalentar os apaixonados. A rua parece deserta, nenhuma alma sobrevivente se faz presente pelas ruas de Parri, só Lunita.

Lunita senta na calçada, improvisa uma canção qualquer. Só um cachorro aparece e fica olhando para ela como se estivesse ouvindo sua canção. E quem disse que ele não estava ouvindo-a? Ele parece sozinho, assim, como Lunita. As ruas de Parri são realmente solitárias. Um prédio até parece ser apenas um prédio. E não devia ser, lá tem tantas almas, ou deveria ter.

Lunita levanta, põe o violão nas costas e continua caminhando, já que as ruas de Parri são, sem sombra de dúvidas, solitárias.

Adenildo Lima

P.S.: Este texto foi publicado aqui neste blog no dia 7 de outubro de 2011

Anita

A noite estava começando quando uma voz suave veio sem pedir licença e adentrou os meus ouvidos. Logo em seguida um cheiro, como o lírio do campo, começou a entrar pelas minhas narinas. Em muitos momentos da vida é sabido que não conseguimos explicar alguns acontecimentos. Foi assim que aconteceu comigo naquela tarde, que aos poucos estava abraçando a noite.

Ao abrir a porta, deparei-me com seus olhos. Um olhar forte e caliente dentro dos meus. "Boa tarde, falei". Com um sorriso meio escondido por detrás do seu jeito de falar, respondeu sem nenhuma palavra. E nem precisava de palavras, pois dela o que mais me encantava eram os olhos. Confesso que é algo inexplicável: não a conhecia, estava tendo conhecimento dela por menos de uma hora. E tudo através do cheiro, do olhar.

Sim, amigo leitor, as poucas vezes que os nossos olhos se abraçaram, foram mágicas. Ela entrou na loja, e eu saí caminhando corredor afora. Cheguei à recepção, uma jovem com um sotaque estrangeiro, abriu um sorriso com um semblante suave e doce. Ri. E perguntei onde podia comprar uma cerveja. Com um gesto, transmitido através de suas mãos, mostrou o lugar. Agradeci. Ela sorriu.

Comprei a cerveja e sentei à mesa. Ali, sentado, comecei a deslocar-me do lugar onde estava, através da imaginação, pois como sabemos o pensar é mágico, transportá-nos para outros mundos, outras realidades ou ficções; outro universo.

Naquele momento o meu mundo era o olhar de Anita dentro dos meus - sim, o nome dela é Anita, desculpa, amigo leitor, ainda não tinha falado. Pensei vendo seus olhos fechando e os nossos lábios tendo um encontro através da pele suave e molhada pela língua. E como seria esplêndido poder sentir seu cheiro domando o meu corpo, enquanto nossos corpos fossem se abraçando.

Anita me fez voltar ao passado, fez sentir-me criança diante dela. Naquele momento senti o peso da idade: sessenta anos. E ela, talvez, vinte anos. Lembrei de uma frase clichê que diz que o amor não tem idade. Mas que amor? Ainda nem nos conhecíamos, como podia ser amor? Sim, confesso que todo sentimento bom é um sentimento de amor. E era o que eu estava sentindo.

A cerveja acabou. Levantei-me e fui buscar mais uma. Ao voltar a moça da recepção ia passando, estava indo embora. "Desculpa, mas você é conhecido, né?", Falou ela, com seu sotaque arrastado. "Nem tanto", respondi. "Artista plástico não é famoso, famosos são os artistas inventados pela mídia, atualmente", falei, completando a frase. Em seguida perguntei se ela aceitava uma cerveja. Disse que não podia. "Mas sentar pode?", perguntei. Riu. E sentou-se.

Ficamos conversando. Perguntei o nome dela. "Clara". "Prazer, Vinícius Alcântara". "Eu já sabia", disse ela. E entre uma conversa e outra, convidou-me para ir conhecer sua casa, alegando que gostaria de ser pintada por mim. Falei que estava de férias e não queria trabalhar. Enfatizou dizendo que era seu sonho ser pintada por um artista. Falei que sonhos são ilusões. E ela respondeu que só são ilusões quando não realizados. Concordei, e ri.

"Clara, não tenho o material para te pintar", falei. "Eu tenho, também dou uma de artista". "Sendo assim não tenho saída, falei com gesto de quem não ia poder fugir".  E fomos. Pensei comigo mesmo que não tinha nada a perder em acompanhá-la, estava de passagem pela cidade, ia ficar apenas três dias para uma apresentação sobre arte contemporânea. Sendo sincero nunca gostei de falar sobre arte, prefiro fazê-la. Mas faz parte da vida de um artista ir ao encontro do povo, mesmo, muitas vezes, para responder perguntas sem nexo. E como existem pessoas que nos fazem perguntas sem sentido.


*

Clara era uma moça que tinha um sorriso diferenciado em seu jeito de falar. De estatura baixa, media um metro e cinquenta, aproximadamente. E era completamente empolgada com a arte. Tinha formação em arquitetura, e gostava de fazer seu trabalho artístico dentro dos moldes acadêmicos. Eu também passei pela universidade, fiz graduação, mestrado, doutorado, mas confesso que se eu não fosse determinado com meus ideais, teria desistido de pintar. Ali, no ambiente universitário, nunca fui visto como um artista, principalmente pelos professores. Mas o contato com a academia ajudou-me. Aliás, tudo ajuda.

Cheguei à casa de Clara. Olhei a parede de sua sala e lá tinha uma cópia de um trabalho meu. Era o desenho de uma menina que, perdida numa avenida de uma grande cidade, procurava apenas uma coisa: o amor. Mas acredito que nunca tenham conseguido essa interpretação. E isso é bom, pois a arte, ao meu ponto de vista, como artista plástico, é aquilo que as pessoas veem, sentem, degustam com o olhar e não o que o artista pensa ao fazer. 

"Aceita um vinho, Vinícius?", perguntou Clara, meio que envergonhada, enquanto eu olhava um trabalho pintado por ela. "Sim, aceito", respondi. Sentamos no sofá e ao olhar para ela, lembrei de Anita. Vi o olhar dela refletido nos olhos de Clara. E por alguns segundos procurei entender o que estava me levando a esse sentimento por aquela menina. Mas não obtive respostas.

Tomamos o vinho. Era um vinho francês. Acredito que Clara tinha-o para um momento especial. "Vinícius, vou tomar um banho e depois você me pinta?", "Sim, sim... pode ir". Pensei comigo mesmo, olhando-a ir ao banheiro: "Eu poderia ir tomar banho com ela". Foram apenas pensamentos. Em seguida, encostei-me no sofá e dormi. Dormi ouvindo o barulho da água caindo sobre o corpo de Clara. Mas em meus sonhos só imaginava Anita.

"Vinícius, você dormiu?", "Desculpa, Clara". "Estou pronta para você", falou ela com uma voz sensual. Chamou-me até ao quarto dela. Entregou-me o material para eu pintá-la e com uma coberta branca cobrindo o seu corpo, foi tirando aos poucos. Mostrando seus seios pontudos que davam harmonia àquele corpo. E em poucos minutos depois estava sem roupa diante de mim, completamente entregue para ser transformada em arte.

Lembrei-me de Anita. E mais uma vez desejei que fosse o corpo dela que estivesse ali. Mas não era. Era Clara que, fisicamente, aos meus olhos, era deslumbrante. Fiz todo o esboço do corpo dela e tirei uma foto. Disse que depois a pintaria e mandaria para ela. Ela riu. Pegou a coberta branca, cobriu o corpo, pegou em minha mão e disse sem nenhum ressentimento: que queria fazer amor comigo.


E tudo para mim parecia um sonho nos braços de Anita.

Adenildo Lima

P.S.: Este texto foi publicado aqui neste blog no dia 8 de janeiro de 2013.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Augusta

O tempo passa e eu não consigo esquecer aquela noite. Rua movimentada, vários bares e boates. Sorrisos felizes e tristes nos olhares dos transeuntes. E eu ali, sentado numa mesa de bar. Sim, estava sozinho. A solidão não é como algumas pessoas pensam, imaginam, ou vivem; eu gosto dela. Às vezes saio à noite só, justamente por achar melhor do que sair acompanhado. Uma cerveja, um aperitivo, uma música cantada ao vivo, uns casais se beijando, outros discutindo relação familiar, de trabalho..., e eu apenas observando, sem querer, é claro!

A noite era de sexta-feira, a madrugada se aproximava; e eu continuava lá. Já tinha bebido bastante. A moça cantava bem, inclusive cantou uma música que estava sendo bem apreciada pela crítica e pelo público, até lembro o nome:Não existe amor em SP. Pensei comigo mesmo, enquanto ela cantava: é um título bem instigante! Será mesmo que não existe amor nesta cidade?, fiquei me perguntando. É, talvez seja verdade, refleti. Em seguida olhei o relógio. Eram 3h da madrugada. Pedi a conta, levantei e saí. Lá fora sentei na calçada. As pessoas iam e vinham constantemente. Eu apenas observava, sem querer, é claro!

- Boa noite!
- Boa noite! - exclamei meio assustado, ao olhar a moça.
- Sim, boa noite. Por acaso ela está ruim para você, jovem?
- Não - respondi, sem dá muita atenção.

Ela riu e fez menção que ia sentar ao meu lado.

- Posso sentar ao seu lado?, perguntou ela.
- Pode, a rua é pública, respondi.
- Nossa! Você está zangado?, perguntou com um olhar doce e meigo.
- Não, respondi com um sorriso no olhar.

Olhei o relógio, já marcava três e meia. Ela perguntou se eu tinha horário marcado para voltar. Eu disse que estava esperando o horário do funcionamento do metrô. Ela riu. "Por que ri?, perguntei". Ela nada respondeu. Com uns cinco minutos depois falou:

- Você não tem carro?
- E você acha que eu iria dirigir bêbado?
- Nossa! Você é certinho. Vamos entrar para beber mais uma cerveja?
- Eu nem te conheço, falei.
- Prazer, Augusta, apresentou-se ela, toda à vontade.
- Augusta?!, perguntei sem querer acreditar.
- Na verdade é Maria Augusta, mas gosto que me chamem de Augusta.
- Ah, Augusta...

Levantamos e descemos rua abaixo. Entramos num barzinho logo na frente. Estava calmo. Uma jovem cantava com seu violão. Augusta perguntou se eu gostava de música ao vivo. Respondi que sim. Ela riu, dizendo que já tinha percebido. Eu também ri. E brindamos. Parecia que já nos conhecíamos há anos. Ela muito simpática, com seus cabelos longos por cima dos ombros. Media um metro e setenta, talvez. Vestia um vestido quase transparente, deixando as curvas de seu corpo visível e calçava um chinelinho que a deixava bem à vontade.

- Desculpa, mas você faz o quê?, perguntou.
- Pra que saber o que eu faço, Augusta?
- Desculpa.
- Tudo bem, eu trabalho num banco, respondi.
- Deve ser um porre trabalhar em banco, né?
- Depende.
- Como depende?
- Ah, Augusta, tudo depende, né? Nem tudo é bom ou ruim cem por cento. E você faz o quê?
- Sim, concordo. E o seu nome?, perguntou ela, como que querendo sair da minha pergunta.
- Paulo, respondi. E ela entrou noutro assunto inteiramente diferente. Percebi que não queria dizer em que trabalhava.

Entre uma conversa e outra o dia amanheceu. Augusta disse que precisava ir embora. Pedi o contato dela. Ela disse que não iria me passar. Insisti! Ela disse não!Perguntei se ela aceitaria o meu. Respondeu que sim. Passei meu e-mail. Nos abraçamos e, ali, nos separamos. A imagem de Augusta ficou na minha memória. O tempo passa e eu não consigo esquecê-la. Não sei de onde ela veio, para onde ela foi. E em alguns momentos acredito que ela ainda vai me escrever.

Adenildo Lima

P.S.: Este texto já foi publicado aqui neste blog no dia 18 de janeiro de 2012.