quinta-feira, 17 de abril de 2014

Água de chocalho

O romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar serve de cenário para o romance.

A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu (...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou. Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou.  – Se contar você morre (...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...) Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu prometo (pp. 31,32).

Água de chocalho é um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de hoje.



E as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?

O romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que, linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada personagem, e no decorrer da própria narrativa.

O cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido continua sendo mandado por quem detém o poder.

Era terra de Coronel Honório Paes, e isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).

Já na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um significado.

O maior problema de Honório Paes não era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio (...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a vitória do candidato (pp. 67,68).

Benedito Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande maioria.



O livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso. 

Ler Agua de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui, se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de presente um exemplar do próprio autor.

Merecidamente, Água de Chocalho é um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL, 2013.  Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’, que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.

Agora, cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de Benedito Ramos...

                              ... Água de Chocalho será um excelente começo.

Adenildo Lima


Informações adicionais:

 Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque 
Preço: 25,00

Onde comprar o livro Água de chocalho:


Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:

ENTREVISTA - 1ª PARTE

ENTREVISTA - 2ª PARTE



Um comentário:

EU SOU O QUE SOU disse...

Sei não, como é que tem gente indo atrás de delírios metafóricos para produzir um texto sem identidade. É tão mais fácil deixar fluir o que sabemos de cor. As palavras saltam numa História que já conhecemos tão bem. Por isso fico abismado com seu texto. É mais do que eu mereço. Só faço copiar o que a memória manda. O resto eu saio inventando, criando gente que até eu mesmo acredito na sua existência. Mentira bem contada é melhor do que uma verdade.

Benedito Ramos
Muito obrigado