sábado, 26 de abril de 2014

pós-modernidade

hoje
descobri
que já não sou mais democrático
sou
na verdade
pós-moderno
e saiamos
pós-modernizando
a democracia

adenildo lima

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Água de chocalho

O romancista Benedito Ramos presenteia-nos com um livro que leva o leitor aos lugares, ainda hoje, esquecidos, ou não vistos pelo Brasil. Até parece um outro país dentro do nosso. Mas não é. É o Brasil que eu conheço tão bem. O Brasil representado na lágrima de uma mulher, no ato do estupro, que obriga a própria vítima a ficar calada para não ser vista como culpada ou até mesmo perder a vida. E isso não acontece apenas nos confins do Estado de Alagoas, cujo lugar serve de cenário para o romance.

A menina tinha ficado calada sem coragem de contar-lhe o que aconteceu (...) Ele a dominou, a deitou na pedra quente, daquela manhã, e a estuprou. Depois tirou o revólver da cintura e a ameaçou.  – Se contar você morre (...) Você andou se enxerindo pra banda dele? – Eu não, mãe, eu nunca nem olhei para ele (...) Oh! Mãe eu não tive culpa. Tentei correr. Gritei. Chorei (...) Chore não minha filha que Deus é grande. Rapariga é que você não vai ser. Eu prometo (pp. 31,32).

Água de chocalho é um barulhento gritar de palavras dentro do nosso peito ao ouvir as vozes esquecidas ou não ouvidas de um povo. E palavras gritam, falam e fazem denúncias. Pois palavras não são apenas palavras quando, aos olhos de um leitor atento, percebe que a arte leva-nos a refletir diante das diversas mazelas vividas por uma nação, por uma época, num processo sócio-histórico. Doído é saber que no Brasil o sócio- histórico, representado pelas personagens desse livro, já faz mais de 500 anos, e continua até aos dias de hoje.



E as personagens que compõem Água de Chocalho sentem um desejo enorme de gritar, de falar, de serem ouvidas. Mas quem irá ouvi-las? Quem?

O romance de Benedito Ramos vai além da ficção, sem deixar de ser, é um registro artístico-cultural das variedades linguísticas do nosso idioma que, linguisticamente, é um dos mais ricos do mundo. É possível perceber que o autor se preocupa em reproduzir a cultura daquele povo, daquele lugar fictício, e tão real, através do falar de cada pessoa, ali, na ponta da língua de cada personagem, e no decorrer da própria narrativa.

O cenário de Água de Chocalho aparece para dizer ao seu leitor que o coronelismo continua tão forte e tão vivo no Estado de Alagoas, assim como o voto do cidadão e da cidadã que parece não ter nenhum valor, ou seja, é a arte rompendo fronteiras para dizer ao mundo que a corrupção na política brasileira se faz presente e existente não apenas em Brasília, mas, e principalmente, nos lugares mais desprovidos de educação. E o menos favorecido continua sendo mandado por quem detém o poder.

Era terra de Coronel Honório Paes, e isso o próprio fazia questão de avisar, mandando seus capangas guardarem o passadiço ou apregoar que a qualquer momento fechava o arame. Era uma humilhação para quem se fazia coronel ter, também, de precisar daquela água para sua família (...) E pelo mesmo motivo que Deusdete chorava na cozinha enquanto mexia umas favas secas numa panela rota (P.15).

Já na política, o voto vale um quilo de farinha ou uma moradia qualquer. E isso deixa claro que a fome em muitos lugares do nosso Brasil tem todo um significado.

O maior problema de Honório Paes não era eleger Chico Tibúrcio, mas encontrar a quantidade de vereadores para cumprir o quórum do munícipio. No caso do prefeito foi mais fácil, porque Nô Batista, devidamente orientado por Honório, registrou-se num partido de oposição. Seria o concorrente laranja para permitir a legalidade do sufrágio (...) O resto foi buscar em outros munícipios, dando casa e comida até a vitória do candidato (pp. 67,68).

Benedito Ramos constrói a sua narrativa num cenário e com personagens tão vivos e tão reais para quem conhece um pouco da realidade brasileira. Sim, é sabido que ficção é ficção, mas, por outro lado, a arte existe para fazer com que muitos vejam o que parece visível e, ao mesmo tempo, tão invisível aos olhos da grande maioria.



O livro é repleto de essência poética, que nos leva do início ao fim através da leitura, fazendo-nos esquecer que o tempo passa, pois o tempo, no momento em que estamos lendo Água de Chocalho, torna-se mais precioso. 

Ler Agua de Chocalho, fez-me lembrar e relembrar a minha infância e adolescência no interior do Estado de Alagoas. Aquela infância com os pés descalços pisando na terra seca. Aquela infância e adolescência que presenciaram, nas épocas eleitorais, políticos levando um quilo de feijão para comprar votos. E, aqui, se faz presente na narrativa desse romance que eu tive a honra de receber de presente um exemplar do próprio autor.

Merecidamente, Água de Chocalho é um livro premiado. Em 2011 ganhou o prêmio LEGO de Literatura, em Alagoas. Foi publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: EDUFAL, 2013.  Também faz parte de uma trilogia, conforme o texto que compõe as orelhas: “Água de Chocalho é o segundo livro da ‘Trilogia Querenciana’, que se inicia a partir de ‘Doce de mamão macho’, publicado em 2006”. E de acordo com o autor, o terceiro em breve estará pronto.

Agora, cabem a vocês, amigo leitor e amiga leitora, que ainda não leram uma obra de Benedito Ramos...

                              ... Água de Chocalho será um excelente começo.

Adenildo Lima


Informações adicionais:

 Autor: Benedito Ramos
ISBN: 9788571777040
Edição: 1
Ano: 2013
Páginas: 146
Disponibilidade: Em estoque 
Preço: 25,00

Onde comprar o livro Água de chocalho:


Entrevista com o autor e mais informações sobre ele:

ENTREVISTA - 1ª PARTE

ENTREVISTA - 2ª PARTE



sexta-feira, 11 de abril de 2014

o segredo das horas

eu já esqueci das horas
que a noite passava sozinha
hoje
vivo cada segundo
contando as horas
que estou ao seu lado

nossos corpos e olhares
juntos
abraçam-se
rompendo a escuridão
da noite
e até mesmo a noite
some
quando sinto seus lábios
nos meus

amar é como descobrir mistérios
em plena infância
quando dois corpos se juntam
só o silêncio entre sussurros
de amores
dialogam felicidade

eu já esqueci das manhãs
que amanheciam sozinhas
hoje
a claridade do sol
reflete em seu olhar
quando nos olhamos

e o café tem sabor
de amor
em paladares
trazendo sabor
à vida
e até mesmo a correria
lá fora
passa-se despercebida

eu já esqueci do cansaço
que domava meu corpo
agora
nossos corpos juntos
vencem o cansaço
e viver tem sabor
tem cor
tem cheiro

amar é como descobrir
o segredo de parar
o relógio

mesmo que seja num sonho
de criança

adenildo lima


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma lágrima, um mendigo e dois cachorros

Amigo leitor e amiga leitora, deixo este aviso: todo este texto discorrerá sob as lágrimas de Natali Velásquez.

Lágrimas parecem água, mas não são. Por detrás existe todo um sentimento que move a existência daquela pessoa. Agora até que ponto elas são boas ou ruins, tão pouco sabemos.

Natali não é brasileira. Mas sempre que pode visita o Brasil. Ela é de um país europeu. O nome desse país? Tão pouco interessa. Ela é jovem, cheia de vida. E carrega no próprio olhar a sensibilidade da mulher que ama em pleno século 21.

Palavra essa que sempre deixa um questionamento para todos: o que é o amor?

É uma tarde de sexta-feira, Natali sai com alguns amigos e amigas para saborear o final do dia que, aos poucos, abraça a noite entre palavras degustadas num gole de cerveja. A vida, como sabemos, ou talvez poucos saibam, é uma corrida para um lugar que nunca sabemos se vamos chegar ou se tem algum ponto de chegada.

O ser humano, talvez o único Ser que luta para ser feliz, e por isso tão poucos o são, confunde, na maioria das vezes, felicidade com sentimentalismo, e esquece que o simples ato da felicidade se encontra em poder estar bem.

Natali olha uma cena qualquer, que infelizmente é natural na cidade de São Paulo, e nas muitas cidades do mundo: alguém lutando para defender o que lhe transmite felicidade. Quanto vale um mendigo no capitalismo esdrúxulo, no sentido mais devorador possível, que divide o seu único momento de felicidade com um ou com dois cães nas calçadas das metrópoles?

Por outro lado, pergunta esse narrador: quanto vale os cães que vivem com aquele mendigo?

Uma lágrima cai. Duas lágrimas caem. Três, quatro, cinco lágrimas caem. O rosto de Natali encontra-se fanado pelas lágrimas que acariciam sua face. O homem, sim, o homem, pois este narrador sempre enxerga alma nos corpos humanos que perambulam pela cidade; o homem grita na cara de uma mulher que tenta tirar dele os cães.

“Vocês estão invadindo o meu espaço”. E não podemos esquecer que o espaço é público, pois ele tem direito. “Vocês estão tirando a minha felicidade”. “Vocês não respeitam a felicidade do outro”. “Que seres são vocês?”. E ele continua lutando pela sobrevivência. Lutando pela felicidade compartilhada com os únicos seres vivos que dão sentido a sua existência. Mas alguém muito bom tenta tirar os cachorros dali para que eles não sofram. Lembre-se, este narrador diz, tirar os cachorros. O mendigo quanto vale? E os cães quanto valem?

Os dois cachorros encostam-se à parede e, assustados, observam todo o acontecimento.

 E Natali chora e chora e chora...

Só não se sabe se suas lágrimas foram derramadas pelos cães ou pelo ser humano, ali, abandonado, jogado na calçada, sem moradia, sem comida e sendo ameaçado de perder seu único sentido de vida: a companhia de seus dois amigos cães.

Pois é, amigo leitor e amiga leitora, quanto vale o ser humano hoje diante de um cão?

Adenildo Lima

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Resenha sobre a obra: A parteira - por Márcio Ahimsa

“No sítio da lagartixa e do limão, ali onde mal sabiam o que era pão, a quem a pátria vomitou e, quando não mata no ventre, na vida” – Lima, Adenildo, A parteira, Editora da Gente, São Paulo, 2013.




É nesse cenário de fábulas onde a terra rachada vomita fogo em labaredas e revela suas veredas que nos deparamos com a essência humana na pele caricata de uma gente que constrói a vida pelo revés do mundo.

A parteira é uma obra concisa, estridente e real que nos mostra a tona de um povo emergindo de sua própria força, sua fé, sua esperança. Aqui, onde muitos já nascem no fim, a vida é um soslaio observando a gruta ao longe, como semente que vigora na tez de uma rocha.

A obra em si possui voz própria, a voz dos esquecidos, que é a voz de quem tem fome e não fala. Comparar a obra de Adenildo Lima com qualquer outra obra é um atrevimento, senão uma ofensa oblíqua, pois se temos um caráter construtivo semântico intencional na obra de João Cabral de Melo Neto, ou com um cunho sócio psicológico proposto por Graciliano Ramos em “São Bernardo”, na pele do personagem Paulo Honório, que embrutece a alma, não temos em “A parteira” nada disso. Temos sim o menino Pedro com sua carência de brinquedo, temos a enxada latente cortando seu pé esquerdo na sinonímia de um tempo que ainda acontece na nossa contemporaneidade.

A parteira é um grito e um silêncio, é essa paradoxal verossimilhança da realidade de um país onde, de um lado é latente a dor escorrendo pelo esconderijo em tom vermelho do nosso agreste e, do outro, é como se fosse uma nódoa no tom de um conto de fadas onde se acredita em fantasias criadas, mas não se crê em verdades cruas. Para quem vive no centro ótico do mundo, o agreste, o ocre das capoeiras onde correm as crianças descalças e nuas atrás de um ópio que as tornem reais, qualquer cabra ou maracatu para espetar a dor da realidade, é apenas uma fábula ou história fantástica. Mas no leito dos extremos de uma nação, esteja ela em qualquer continente, os contos de fadas não maquiam a realidade. São verídicas as experiências de uma gente que caminha no revés da história.




Assim, a parteira é o silêncio que se faz ouvir na voz de uma gente onde um punhado de sal é a medicina, sem a charlatanice pregada nas igrejas, sem a filantropia que gera lucros.

Ali, onde Madalena é a mãe do menino abstrato, cheio de ginga e trato, é onde a realidade nos presenteia como ser existente, como ente que se faz presente na orla do ontem, como papel timbrado no prefácio do hoje do que um dia fomos, do que somos, do que ainda vamos descobrir ser.

Em “A parteira”, a mulher abre a serra e se cobre de terra. Se sente a síntese da vida. A parteira é Maria e ao mesmo tempo o enlevo da existência na sua tênue andança. É a agrura de um povo na busca de um arrebatamento: existir.

A obra “A parteira” é a primazia de um tempo de um existir humano onde grito e silêncio são sinônimos dentro de uma equação nunca exata. Pois existir não é simplesmente ser pedra. Existir sugere a mutação do tempo. Sugere ser a lâmina que decepa a própria vida e ao mesmo tempo a chama que acena para o viver. Nessa obra o homem é assassino de si ao se permitir nascer. É filosoficamente uma catarse sobre a tragédia humana de existir. Quem constrói a realidade? O homem ou a própria realidade das coisas não passa de lembranças de um ser que morre e que, no fim, não é nada?

Nessa obra eu sinto o poeta nascendo pelos vales de sua própria palavra gritando os silêncios que nunca vem à tona, ou que estão sempre consigo amordaçados pelas sandálias que o calçam da nossa triste calçada de sonhos.




Aqui, nesse cenário de orquestra, a vitrola era um vivo morto com os versos dessa poesia retrato onde João naufragou sem sintomas, de apenas desnutrição.


Márcio Ahimsa é crítico literário, poeta, tem formação em Letras e escreve no site HOMO LITERATUS.  


A parteira
Adenildo Lima
editora da gente
124 páginas
R$ 30,00

 Onde comprar?
Martins Fontes

Fotos retiradas da página do face book: EDITORA DA GENTE

Créditos das fotos: Roberto de Lima

Adenildo Lima