segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Bifurcações da existência

Clarice.

Clarice estava na casa dos trinta anos. Tinha medo da solidão, mas nunca procurou saber o que realmente ela é, isto é, se se tem uma resposta. Para os moldes da mulher moderna estava bem representada: chegar aos trinta solteira é uma evolução do pensamento feminino, e grande!, dizia seu amigo, e ela ria. E ele continuava: é possível dizer Clarice, que você representa bem a mulher atual com voz própria, e é um direito seu ter medo da solidão. Ela simplesmente ria.

É sabido que Clarice casou-se. Com o seu vestido branco foi de encontro ao altar. Sorriso acompanhado com um pouco de lágrimas nos olhos. Não se sabia se era de felicidade ou de medo da solidão. Mas como solidão se ela estava casando? É possível fazermos esta pergunta.

Quando as portas da igreja se abriram todos os olhares estavam fixados nela. Menos um. Ali existia um olhar vendo o invisível: a alma dela. A alma é invisível, pois não tem cor, nem cheiro e nem é possível pegá-la. Para um poeta, quando se adentra a alma de alguém, conhece-se um pouco dela, dizia o amigo de Clarice.

Voltemos ao casório. Na liberdade do século 21, o casal rendia-se aos SINS do padre. Juraram até fidelidade eterna, em qualquer situação. Duas alianças foram benzidas e consagradas pelo sacerdote. E o espetáculo da vida moderna era representada através de máquinas: fotos e filmagens para todos os lados.

Clarice estava casada.

Sim, Clarice estava casada. E a solidão? E o beijo de amor? Dentro de si era possível perceber a alma chorando. Por quê? Não se sabe. Também ninguém viu, exceto um olhar que via o invisível. Um beijo na testa, um outro nas alianças, um selo nos lábios representando um respeito mútuo.

E a solidão?

A solidão é uma invenção humana. Bom mesmo é estar só e adentrar um pouco mais o Eu tão desprezado por nós, pensava o amigo dela.

Depois de algum tempo Clarice perguntou o que era solidão, pois nunca tinha se sentido tão só.

Adenildo Lima

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