domingo, 29 de setembro de 2013

Ana

Era uma sexta-feira qualquer. Sim, parecia uma sexta qualquer, mas não era. Amigo leitor e amiga leitora, peço um pouco de sua atenção para fazer a leitura deste texto, pode ser que alguma coisa os incomodem. As pessoas gostam de histórias felizes.

Peço licença para dizer que literatura é arte, não autoajuda.

Ana era uma garota de 19 anos de idade. Amava a vida ao extremo da existência. Morte? Não, quem disse que jovem pensa em morrer? Isto é assunto para velhos, dizia ela, quando alguém se referia a este tema. Sentada na calçada ela via a vida passar pelos passos corridos das pessoas no ir e vir constantemente.

Aqui interrompo a linearidade do texto para dizer que ela era casada.

A calçada estava fria, além de dura. Misturada a neblina da manhã cinzenta, caiu uma lágrima dos seus olhos. Seu olhar estava tenro, gélido, levando-a ao passado, revivendo lembranças felizes, momentos vividos nos simples detalhes do passar do dia, da noite.

E  muitas vezes nem percebemos a importância que eles têm.

Ela casou aos 16 anos de idade; foi morar com um rapaz. É importante dizer que não houve papéis. Pois em pleno século 21 casar aos moldes das assinaturas burocráticas? Não. Ana sempre foi livre, ou sempre pareceu ser livre. Afinal, a liberdade existe? Ou existe apenas o desejo de uma liberdade que nunca passa de uma escravidão construída por nós mesmos à busca da tal felicidade?

Nada se sabe, amigo leitor e amiga leitora, a vida é o que cada um vive.

A noite daquela sexta-feira estava perfeita para sair. Foi o que ela fez depois de ter brigado feio com Júlio, seu esposo.Nesta época estava com 18 anos de idade, tinha acabado de completar. Ao chegar na balada, olhou o celular, o relógio marcava meia-noite.

E como a noite foi acolhedora, para ela,  nos braços de um desconhecido.

Entre um ritmo e outro. Entre olhares e toques, através da dança, Ana, aos poucos, foi se entregando às malícias do prazer. E o ritmo colaborava! Uma cerveja, mais uma , e mais outra. Depois uísque e mais uísque. Os corpos foram se entregando, levando-os aos beijos e abraços ardentes. Uma escada, um banheiro, um piso... para as loucuras do prazer qualquer lugar é bem-vindo.

Duro mesmo é a solidão de acordar nos braços do tempo.

Amigo leitor e amiga leitora, não é possível dizer que em pleno século 21 exista ainda o conceito de traição. Isto é um termo arcaico. Vamos condenar Ana por ela ter brigado, ido à balada e transado com outro? Vamos? Por quê? Ela comentava que foi a única vez de sua vida que atingiu o extremo do prazer. Valeu a pena? O poeta diz que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Ruim mesmo é quando confundimos prazer com a alma.

Ana estava sentada na calçada. Sim, é sabido que vocês querem saber o que aconteceu, querem o fim da história, afinal estamos na internet e não é possível, para muitos, fazer a leitura de um texto comprido. Vamos, então, caminhar para as considerações finais desta história.

No calar da noite, muitas vezes confundimos poesia com alegoria.

Ana não sabe como, mas engravidou. Não sabe o nome do pai da criança, que acabara de nascer. Não lembra do seu rosto. Quando a criança nasceu Júlio foi todo feliz, visitá-la. Sim, é importante dizer que ele pensava que fosse o pai. Mas não chegou a olhar nos olhos da criança imaginada por ele. No caminho enquanto ia, sofreu um acidente e morreu.

A vida amiga leitora e amigo leitor é o que cada um vive.

Ana estava sentada na calçada. Estava viva? Não se sabe. Seu filho. Sim, seu filho - foi um menino que ela teve -, não tinha pai e nem padrasto. E mãe, acabara de descobrir, ali, sentada na calçada, que a vida para ela não mais existia.

Amigo leitor e amiga leitora, a vida é o que cada um vive. E vamos culpar alguém por isso?

adenildo lima   

Nenhum comentário: