terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Anita

A noite estava começando quando uma voz suave veio sem pedir licença e adentrou os meus ouvidos. Logo em seguida um cheiro, como o lírio do campo, começou a entrar pelas minhas narinas. Em muitos momentos da vida é sabido que não conseguimos explicar alguns acontecimentos. Foi assim que aconteceu comigo naquela tarde, que aos poucos estava abraçando a noite.

Ao abrir a porta, deparei-me com seus olhos. Um olhar forte e caliente dentro dos meus. "Boa tarde, falei". Com um sorriso meio escondido por detrás do seu jeito de falar, respondeu sem nenhuma palavra. E nem precisava de palavras, pois dela o que mais me encantava eram os olhos. Confesso que é algo inexplicável: não a conhecia, estava tendo conhecimento dela por menos de uma hora. E tudo através do cheiro, do olhar.

Sim, amigo leitor, as poucas vezes que os nossos olhos se abraçaram, foram mágicas. Ela entrou na loja, e eu saí caminhando corredor afora. Cheguei à recepção, uma jovem com um sotaque estrangeiro, abriu um sorriso com um semblante suave e doce. Ri. E perguntei onde podia comprar uma cerveja. Com um gesto, transmitido através de suas mãos, mostrou o lugar. Agradeci. Ela sorriu.

Comprei a cerveja e sentei à mesa. Ali, sentado, comecei a deslocar-me do lugar onde estava, através da imaginação, pois como sabemos o pensar é mágico, transportá-nos para outros mundos, outras realidades ou ficções; outro universo.

Naquele momento o meu mundo era o olhar de Anita dentro dos meus - sim, o nome dela é Anita, desculpa, amigo leitor, ainda não tinha falado. Pensei vendo seus olhos fechando e os nossos lábios tendo um encontro através da pele suave e molhada pela língua. E como seria esplêndido poder sentir seu cheiro domando o meu corpo, enquanto nossos corpos fossem se abraçando.

Anita me fez voltar ao passado, fez sentir-me criança diante dela. Naquele momento senti o peso da idade: sessenta anos. E ela, talvez, vinte anos. Lembrei de uma frase clichê que diz que o amor não tem idade. Mas que amor? Ainda nem nos conhecíamos, como podia ser amor? Sim, confesso que todo sentimento bom é um sentimento de amor. E era o que eu estava sentindo.

A cerveja acabou. Levantei-me e fui buscar mais uma. Ao voltar a moça da recepção ia passando, estava indo embora. "Desculpa, mas você é conhecido, né?", Falou ela, com seu sotaque arrastado. "Nem tanto", respondi. "Artista plástico não é famoso, famosos são os artistas inventados pela mídia, atualmente", falei, completando a frase. Em seguida perguntei se ela aceitava uma cerveja. Disse que não podia. "Mas sentar pode?", perguntei. Riu. E sentou-se.

Ficamos conversando. Perguntei o nome dela. "Clara". "Prazer, Vinícius Alcântara". "Eu já sabia", disse ela. E entre uma conversa e outra, convidou-me para ir conhecer sua casa, alegando que gostaria de ser pintada por mim. Falei que estava de férias e não queria trabalhar. Enfatizou dizendo que era seu sonho ser pintada por um artista. Falei que sonhos são ilusões. E ela respondeu que só são ilusões quando não realizados. Concordei, e ri.

"Clara, não tenho o material para te pintar", falei. "Eu tenho, também dou uma de artista". "Sendo assim não tenho saída, falei com gesto de quem não ia poder fugir".  E fomos. Pensei comigo mesmo que não tinha nada a perder em acompanhá-la, estava de passagem pela cidade, ia ficar apenas três dias para uma apresentação sobre arte contemporânea. Sendo sincero nunca gostei de falar sobre arte, prefiro fazê-la. Mas faz parte da vida de um artista ir ao encontro do povo, mesmo, muitas vezes, para responder perguntas sem nexo. E como existem pessoas que nos fazem perguntas sem sentido.

*

Clara era uma moça que tinha um sorriso diferenciado em seu jeito de falar. De estatura baixa, media um metro e cinquenta, aproximadamente. E era completamente empolgada com a arte. Tinha formação em arquitetura, e gostava de fazer seu trabalho artístico dentro dos moldes acadêmicos. Eu também passei pela universidade, fiz graduação, mestrado, doutorado, mas confesso que se eu não fosse determinado com meus ideais, teria desistido de pintar. Ali, no ambiente universitário, nunca fui visto como um artista, principalmente pelos professores. Mas o contato com a academia ajudou-me. Aliás, tudo ajuda.

Cheguei à casa de Clara. Olhei a parede de sua sala e lá tinha uma cópia de um trabalho meu. Era o desenho de uma menina que, perdida numa avenida de uma grande cidade, procurava apenas uma coisa: o amor. Mas acredito que nunca tenham conseguido essa interpretação. E isso é bom, pois a arte, ao meu ponto de vista, como artista plástico, é aquilo que as pessoas veem, sentem, degustam com o olhar e não o que o artista pensa ao fazer.

"Aceita um vinho, Vinícius?", perguntou Clara, meio que envergonhada, enquanto eu olhava um trabalho pintado por ela. "Sim, aceito", respondi. Sentamos no sofá e ao olhar para ela, lembrei de Anita. Vi o olhar dela refletido nos olhos de Clara. E por alguns segundos procurei entender o que estava me levando a esse sentimento por aquela menina. Mas não obtive respostas.

Tomamos o vinho. Era um vinho francês. Acredito que Clara tinha-o para um momento especial. "Vinícius, vou tomar um banho e depois você me pinta?", "Sim, sim... pode ir". Pensei comigo mesmo, olhando-a ir ao banheiro: "Eu poderia ir tomar banho com ela". Foram apenas pensamentos. Em seguida, encostei-me no sofá e dormi. Dormi ouvindo o barulho da água caindo sobre o corpo de Clara. Mas em meus sonhos só imaginava Anita.

"Vinícius, você dormiu?", "Desculpa, Clara". "Estou pronta para você", falou ela com uma voz sensual. Chamou-me até ao quarto dela. Entregou-me o material para eu pintá-la e com uma coberta branca cobrindo o seu corpo, foi tirando aos poucos. Mostrando seus seios pontudos que davam harmonia àquele corpo. E em poucos minutos depois estava sem roupa diante de mim, completamente entregue para ser transformada em arte.

Lembrei-me de Anita. E mais uma vez desejei que fosse o corpo dela que estivesse ali. Mas não era. Era Clara que, fisicamente, aos meus olhos, era deslumbrante. Fiz todo o esboço do corpo dela e tirei uma foto. Disse que depois a pintaria e mandaria para ela. Ela riu. Pegou a coberta branca, cobriu o corpo, pegou em minha mão e disse sem nenhum ressentimento: que queria fazer amor comigo.

E tudo para mim parecia um sonho nos braços de Anita.

adenildo lima

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