sábado, 24 de março de 2012

LOBO-GUARÁ

Para Ivo Barroso

Acossado, um lobo-guará
escondeu-se dentro de João,

Acossado, um lobo-guará
escondeu-se dentro de João,
que, invisível em sua miséria,
fez-se perfeito esconderijo
do Mal, seu ingênuo hospedeiro.

fez-se perfeito esconderijo
do Mal, seu ingênuo hospedeiro.
Não muito longe, os cães da Usina
latiam em coro e varriam
o ar, com estridentes limalhas.

latiam em coro e varriam
o ar, com estridentes limalhas.
Essa Usina fica próxima
dos festivos lencóis de cana,
a mais verde e voraz das sílfides.

dos festivos lençóis de cana,
a mais verde e voraz das sílfides.
Uma noite, João despertou
com o rumor de altos latidos
e papoulas despedaçando,

com o rumor de altos latidos
e papoulas despedaçando,
pela numerosa alcateia.
Mas, quando João abriu a porta
e, desarmado, os encarou,

Mas, quando João abriu a porta
e, desarmado, os encarou,
todos os cães retrocederam,
e o silêncio cobriu de pó
cinza essa noite de glória.

e o silêncio cobriu de pó
cinza essa noite de glória.
Ao cão que rosnava mais alto,
o cão líder, João o chamou
e, orelhas baixas, ele veio

o cão líder, João o chamou
e, orelhas baixas, ele veio
ser estrangulado primeiro,
privilégio que "estava escrito"
onde, até hoje, ninguém sabe.

privilégio que "estava escrito"
onde, até hoje, ninguém sabe.
Um após outro os foi matando,
até que o sol, enlouquecido,
resolveu cremar todos eles.

até que o sol, enlouquecido,
resolveu cremar todos eles.
Quando já ia alta a amanhã,
o último cão, quase um bebê,
foi morto no colo de João.

o último cão, quase um bebê,
foi morto no colo de João.
A partir dessa longa noite,
no perímetro do mocambo,
veio o medo plantar seus cactos.

no perímetro do mocambo,
veio o medo plantar seus cactos.
E entre uivos, rezas e rosnados,
lá dentro João pedia a Deus
para seu lobo adormecer.

lá dentro João pedia a Deus
para seu lobo adormecer.

Poema de Alberto da Cunha Melo, do livro "O cão de olhos amarelos e outros poemas inéditos". Editora Girafa, SP, 2006.


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