quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Augusta

O tempo passa e eu não consigo esquecer aquela noite. Rua movimentada, vários bares e boates. Sorrisos felizes e tristes nos olhares dos transeuntes. E eu ali, sentado numa mesa de bar. Sim, estava sozinho. A solidão não é como algumas pessoas pensam, imaginam, ou vivem; eu gosto dela. Às vezes saio à noite só, justamente por achar melhor do que sair acompanhado. Uma cerveja, um aperitivo, uma música cantada ao vivo, uns casais se beijando, outros discutindo relação familiar, de trabalho..., e eu apenas observando, sem querer, é claro!

A noite era de sexta-feira, a madrugada se aproximava; e eu continuava lá. Já tinha bebido bastante. A moça cantava bem, inclusive cantou uma música que estava sendo bem apreciada pela crítica e pelo público, até lembro o nome: Não existe amor em SP. Pensei comigo mesmo, enquanto ela cantava: é um título bem instigante! Será mesmo que não existe amor nesta cidade?, fiquei me perguntando. É, talvez seja verdade, refleti. Em seguida olhei o relógio. Eram 3h da madrugada. Pedi a conta, levantei e saí. Lá fora sentei na calçada. As pessoas iam e vinham constantemente. Eu apenas observava, sem querer, é claro!

- Boa noite!
- Boa noite! - exclamei meio assustado, ao olhar a moça.
- Sim, boa noite. Por acaso ela está ruim para você, jovem?
- Não - respondi, sem dá muita atenção.

Ela riu e fez menção que ia sentar ao meu lado.

- Posso sentar ao seu lado?, perguntou ela.
- Pode, a rua é pública, respondi.
- Nossa! Você está zangado?, perguntou com um olhar doce e meigo.
- Não, respondi com um sorriso no olhar.

Olhei o relógio, já marcava três e meia. Ela perguntou se eu tinha horário marcado para voltar. Eu disse que estava esperando o horário do funcionamento do metrô. Ela riu. "Por que ri?, perguntei". Ela nada respondeu. Com uns cinco minutos depois falou:

- Você não tem carro?
- E você acha que eu iria dirigir bêbado?
- Nossa! Você é certinho. Vamos entrar para beber mais uma cerveja?
- Eu nem te conheço, falei.
- Prazer, Augusta, apresentou-se ela, toda à vontade.
- Augusta?!, perguntei sem querer acreditar.
- Na verdade é Maria Augusta, mas gosto que me chamem de Augusta.
- Ah, Augusta...

Levantamos e descemos rua abaixo. Entramos num barzinho logo na frente. Estava calmo. Uma jovem cantava com seu violão. Augusta perguntou se eu gostava de música ao vivo. Respondi que sim. Ela riu, dizendo que já tinha percebido. Eu também ri. E brindamos. Parecia que já nos conhecíamos há anos. Ela muito simpática, com seus cabelos longos por cima dos ombros. Media um metro e setenta, talvez. Vestia um vestido quase transparente, deixando as curvas de seu corpo visível e calçava um chinelinho que a deixava bem à vontade.

- Desculpa, mas você faz o quê?, perguntou.
- Pra que saber o que eu faço, Augusta?
- Desculpa.
- Tudo bem, eu trabalho num banco, respondi.
- Deve ser um porre trabalhar em banco, né?
- Depende.
- Como depende?
- Ah, Augusta, tudo depende, né? Nem tudo é bom ou ruim cem por cento. E você faz o quê?
- Sim, concordo. E o seu nome?, perguntou ela, como que querendo sair da minha pergunta.
- Paulo, respondi. E ela entrou noutro assunto inteiramente diferente. Percebi que não queria dizer em que trabalhava.

Entre uma conversa e outra o dia amanheceu. Augusta disse que precisava ir embora. Pedi o contato dela. Ela disse que não iria me passar. Insisti! Ela disse não!Perguntei se ela aceitaria o meu. Respondeu que sim. Passei meu e-mail. Nos abraçamos e, ali, nos separamos. A imagem de Augusta ficou na minha memória. O tempo passa e eu não consigo esquecê-la. Não sei de onde ela veio, para onde ela foi. E em alguns momentos acredito que ela ainda vai me escrever.

adenildo lima

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