sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Toque de recolher

Na noite em que rolou o cine-debate com “Cortina de Fumaça”, terminado os trabalhos e ao sairmos da Casa de Cultura Palhaço Carequinha, tivemos uma experiência que deixou a todos os presentes bastante perplexos e incomodados.

Nesta noite de sexta-feira era dia de ensaio de uma escola de samba, que costuma ensaiar ali na praça onde se localiza a Casa de Cultura, onde estavam presentes e se divertindo centenas e centenas de adolescentes. A diversão era a marca deste encontro, em que não visualizamos desavenças até o momento em que os agentes da polícia militar resolveram se manifestar impondo o “toque de recolher”.

Embora tal prática seja inconstitucional, e diferentemente de outras localidades, não está definida legalmente – ainda que inconstitucional – os milicianos que estavam no local desde o início da festa, por volta das 23hs, logo após cessar o batuque da bateria, iniciaram uma ação para a desocupação do local, no sentido de limpar a praça dos “indesejáveis” adolescentes que somente estavam ali para se divertir.

Ressaltamos que o distrito do Grajaú é o mais populoso da cidade de São Paulo, contando com uma população de mais de meio milhão de habitantes, sendo que a única Casa de Cultura da região é esta onde foi realizado o cine-debate na última sexta-feira, motivo pelo qual a praça em frente tornou-se um ponto de encontro dos adolescentes e jovens da região.

Em conversa com os moradores da localidade, revelou-se que se trata de uma prática comum a polícia militar, após determinado horário, realizar operação para a expulsão da galera que fica ali na praça, sendo que houve relatos de que já houve situações em que os policiais se utilizaram da força física e bombas de gás lacrimogêneo (alcunhadas de bombas “de efeito moral”) para forçar a saída dos adolescentes.

Neste dia percebemos que não foi necessária a utilização de tais aparatos, pois a operação foi realizada utilizando-se “apenas” da força intimidatória das fardas e armas militares, além dos comandos de voz bradados aos grupos de adolescentes de “sai daqui agora que eu to mandando”, “se vocês não saírem chamaremos o choque e atacaremos bombas”.

Todas as pessoas do grupo que acabara de sair do debate ficou bastante impressionada com a movimentação ocorrida, ao perceber que os adolescentes se deslocavam como gados rumo à retirada da praça pública.

Neste momento membros da equipe do CEDECA Interlagos se dispuseram a conversar com o comandante da operação para entender o porquê da ordem de retirada, e o comandante, com armas em punho, afirmou que o que estava fazendo estava direcionado ao “bem dos próprios adolescentes”, à garantia da “ordem e da incolumidade pública”, e que estaria, segundo seu entendimento, amparado constitucionalmente para a realização daquela operação.

Enquanto a equipe do CEDECA, do coletivo DAR, do Imargem e do CEDHP, estavam conversando com o comandante, a praça foi aos poucos se esvaziando por completo, e os adolescentes se deslocando na tentativa de acharem um outro local onde pudessem permanecer e se divertir.

Relatamos aqui esta experiência no sentido de se dar transparência à forma como que o Estado de São Paulo vem “cuidando” de seus adolescentes, especialmente aqueles com morada nas periferias da capital, o que nos dá provas concretas de que o “toque de recolher” vem se disseminando ampla e indiscriminadamente na sociedade.

Como calar é sinônimo de consentir, viemos aqui nos manifestar para que não fiquemos inertes diante de tamanha violação do direito de ir e vir das pessoas, dentre as quais se incluem os adolescentes, que independentemente de estarem na periferia ou na região central da cidade, têm o mesmo direito de se divertirem e de se sentirem livre para isso.

Por fim, deixamos aqui aos interessados, a matéria produzida pelo Coletivo DAR sobre o ocorrido, que traça uma comparação dentre a cena de “toque de Recolher” ocorrida no dia do cine-debate no Grajaú e a cena ocorrida com os alunos da USP e os policiais militares de plantão na Universidade, esta, diferentemente da primeira, televisionada amplamente pelos meios de comunicação de massa.

Por CEDECA Interlagos: http://cedecainterlagos.wordpress.com/

Confiram no link abaixo da USP ao Grajaú

http://coletivodar.org/2011/10/da-usp-ao-grajau-o-fascismo-em-dois-atos/

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