terça-feira, 13 de setembro de 2011

Valéria

A madrugada está gostosa, a lua se encontra meio que envergonhada, por detrás da poluição da grande São Paulo, mas o seu brilho com um ar bem carinhoso, meio que frio e ao mesmo tempo meio que romântico, me traz lembranças suas. Estou me sentindo meio que sozinho. Estou sentado aqui há duas horas. Violão já nem toca mais, está debruçado sobre minhas pernas. Um casal passa rua afora, rindo, brincando; é um casal de adolescentes. E eles me fazem lembrar você, Valéria. Lembro cada segundo que estivemos juntos. Foi bastante tempo, né? Eram tão bons aqueles nossos passeios. Uma vez fomos ao teatro, ali, na Avenida Paulista e, antes de entrarmos, ficamos num barzinho, tomando uma cerveja, numa mesa na calçada da Avenida, bebíamos e observávamos os transeuntes. Bebemos quatro garrafas de cerveja de marca Original. Pois é, Cerveja Original, você dizia que não tomaria outra, se não tivesse Original, não tomaria. Até lembro que te chamei de metida e orgulhosa. Você riu. O nosso relacionamento era tão bom, né. É, Valéria, você sumiu, assim, de repente. Sinceramente não sei o que aconteceu. Não lembro ter cometido algum ato desagradável contigo. Não lembro, juro! E outra, se eu tivesse feito algo de errado, ao seu entendimento, pela nossa liberdade e transparência que sempre tivemos, caberia a você me falar. Foi estranho, tomaste uma decisão que até hoje não consigo acreditar. Respeitar eu respeito a sua decisão, sem dúvida! Mas que foi estranho foi.

Naquele dia, lá na Paulista, assistimos a peça de teatro Tristão e Isolda. Lembro que gostamos tanto, foi muito bom. E também nem sei o motivo que me leva a ficar lembrando isso agora. Acho que é a madrugada que está colaborando, sendo sincero, não sou mais apaixonado por você, até parece que nunca existiu, sabe? Comigo é assim: acabou, acabou e pronto! Só que agora fico lembrando, isso me incomoda. Acredito que seja pela nossa amizade, pois sendo sincero, você é como se tivesse morrido para mim, não lembro mais de você. Costumo dizer que a gente colhe os frutos conforme o cultivo das plantas... então...

Lembro que você chorou quando veio me dizer que não dava mais. Perguntei o motivo. Você não disse nada, ficou calada. Só no finalzinho da nossa conversa disse que estava apaixonada por outro. Confesso que gelei, não quis aceitar, fiquei sem voz por uns dois minutos. Você Lembra? Depois te desejei boa sorte. É, te desejei boa sorte e você não gostou. Será que você queria que eu ficasse sofrendo? Não posso acreditar, éramos tão transparentes um com o outro. Será que você já casou, Valéria? Sabe, estas perguntas idiotas vêm a mim. Gostaria de controlá-las, mas parece que não tem jeito, a gente não domina mesmo os sentimentos, né? Será que eu ainda gosto de você? Acredito que não, são apenas lembranças.

A madrugada está tão boa. Até um cachorro brinca na rua como se nada de ruim existisse. Um rapaz bêbado também passa cambaleando rua afora. Me olha e pede pra eu cantar uma canção. Falo que cansei. Ele me manda pra merda. E sai rindo. É a vida...

E se a vida é assim, vou vivendo a minha...

adenildo lima

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