terça-feira, 30 de agosto de 2011

As duas Marias

Maria Amélia está prestes a dar a luz. A criança em seus remelexos diz que está querendo conhecer o mundo. Amélia corre de um lado para o outro. Pede socorro. Ninguém escuta. Ela está no centro da cidade. Senta-se num banco. Começa a suar, a ficar pálida e com a respiração ofegante. Maria quer dar a luz a uma criança que a nove meses se encontra em seu ventre. Não lembra a face do pai. Maria Augusta, nome escolhido por ela, ainda em seu ventre, e ela, a criança, prestes a nascer, é a pura esperança de Amélia de uma vida melhor. Augusta chuta a barriga de sua mãe, querendo nascer. Maria está mal-vestida. Há dois anos habita as ruas da grande São Paulo, a maior cidade brasileira. Parece que Augusta sente o sofrimento de sua mãe, e chora.

A vida hoje de Amélia é resultado de uma tempestade que levou seu barraco, matando seus familiares. Procurou o Estado, ninguém a ouviu. O único lugar que sobrou foram as ruas da cidade. A madrugada fria, ou o calor ardente. Tentou por alguns meses resistir às drogas. Não conseguiu. Começou a tomar muita bebida alcoólica, depois foi para a maconha e em seguida a cocaína. E foi em um desses momentos, sem lucidez, que surgiu Maria Augusta.

Augusta quer nascer. Amélia deseja a morte. As pessoas passam diante dela, ali, naquela praça, alguns riem, com seus celulares no ouvido, já outros correm tanto que nem a percebe. Ela lembra da vida que um dia teve no interior. Num sítio calmo e cheio de paz. Mas a fome foi mais forte e como um vômito expulsou a família dela de lá. Essas lembranças a fez chorar e muito, até esqueceu um pouco a dor do parto. Mas Augusta queria mesmo era nascer. E Amélia, morrer.

Maria Augusta Nasceu em cima de um papelão que em sua face tinha a Bandeira do Brasil. E em cima daquele mesmo papelão, Amélia chegou a falecer. Ninguém viu, ninguém ouviu. Só depois perceberam que um cachorro uivava ao lado do corpo e ao lado da recém-nascida. E hoje não se sabe como está Maria Augusta. Das duas Marias, resta apenas uma, ou não, não sei.

adenildo lima

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