quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Aline

A tarde estava calma, o relógio marcava 3h., eu estava na fila, esperando o ônibus, com um livro de poema nas mãos. Com um vestido longo, um pouco abaixo dos joelhos. Cabelos compridos e meios encaracolados. Séria, parecendo ansiosa, ela veio em direção à fila e ficou próxima a mim.

"Que horas são?" - perguntou. 3h. e 5 minutos, falei. Ela agradeceu e exclamou:
"Nossa! tá tarde".
"Nem tanto", respondi.

E começamos uma conversa. Ela perguntou onde eu trabalhava. Disse que trabalhava como estagiário, bem ali ao lado. E apontei com o dedo. Uma senhora reclamava da demora do ônibus, na mesma fila em que estávamos, só que ela estava na fila preferencial num banco, dentro do terminal (nós estávamos esperando o ônibus no terminal), um casal de adolescentes se beijavam freneticamente. Aline às vezes olhava. Eu também.

O ônibus chegou. O motorista desceu e foi conversar com alguns colegas de trabalho, enquanto os passageiros se acomodavam. O cobrador olhou para mim e para Aline, querendo dizer alguma coisa.  Não se sabe o quê. Acho que ele pensou que éramos namorados. Já estávamos tão próximos, ou, ficou admirando os olhos negros e os lábios vermelhos e suave de Aline.

Aline mesmo sendo uma moça de semblante sério, tinha um sorriso meio que cheio de mistérios, e ao mesmo tempo um sorriso amigável. Eu conversava com ela tentando descobrir o motivo que a levou a puxar conversa comigo. Inclusive, logo no momento em que ela chegou na fila, disse que a minha roupa era bonita, que caía bem em mim.

Fique sem entender, e pensei milhões de coisas...

Dentro do ônibus sentamos um ao lado do outro. E ela falava e falava e falava. Dizia que amava os poemas de Neruda. Pegou o meu livro, era um livro do Vinícius de Moraes, e declamou um poema pra mim ali mesmo, e pediu que eu fizesse o mesmo que ela. Quem disse que fiz? Fiquei morto de vergonha. E não declamei.

O ônibus enchia cada vez mais. Tanta gente que chegava a sufocar. E chegou o lugar de ela descer. Pegou meu caderno e deixou o telefone e o e-mail. Pedindo que eu ligasse mesmo. E enfatizou nas palavras pra eu não deixar de entrar em contato com ela. Em seguida me deu um beijo tão doce, em minha face, lembro até hoje os lábios dela encostando em mim.

Entrei em contato. Liguei na casa dela um mês depois. Ela falou que estava com o filhinho de 2 anos. Que ele estava meio adoentado. Disse que o esposo tinha deixado-a recentemente. Falou algumas coisas que não tinha me falado no dia em que nos conhecemos. Tentei ligar outras vezes, ninguém atendia.

Até que num certo dia eu estava indo de ônibus para um passeio, isso depois de um ano. Me deu vontade de olhar pela janela. E quando olhei a vi caminhando, dobrando a esquina, toda arrumada, possivelmente estivesse indo para o trabalho. E nunca mais a vi.

Acho que até hoje sou apaixonado por Aline. E este nome soa tão bem aos meus ouvidos.

Adenildo Lima

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