segunda-feira, 30 de maio de 2011

Carma indolente

Era exatamente meia-noite, quando o poeta Pedro Alcântara da Cunha Cesar decidiu deixar de escrever poemas. Estava com cinquenta anos de idade. E trinta de vida ativa na poesia. Tinha cinco livros publicados. E um deles vendeu mil exemplares (acho que vender mil exemplares de um livro de poemas é o sonho de todo poeta). Foi o livro "Por detrás da face humana". Esse livro tinha poemas que mostravam, para um bom leitor de poesia, que detrás da face humana existe uma máquina. Só que pior do que uma máquina, pois além de ser uma máquina, tem um cérebro pensante cheio de ideias falsas e covardes, capaz de matar o seu próprio semelhante, apenas por inveja. Mas pedro era apenas um poeta. Um simples poeta.

Como qualquer artista, sonhava em ser reconhecido, ainda vivo. E sabia que isso é difícil de acontecer. Poucos conseguem. Via o ser humano com um olhar cauteloso. Sabia que ao mesmo tempo em que o humano procura interpretar as ações, é insensível à poesia da vida. Ele também descobriu que viver é uma caminhada árdua no corredor da morte. Todo ser humano caminha para a morte, dizia ele. E acrescentava "Por mais que queiramos fugir, estamos sempre no corredor, no corredor da morte". Muitas vezes ele brincava com a estupidez humana: "O que leva o homem ou a mulher a ter orgulho e se achar melhor do que o outro? Que estupidez! essas pessoas não passam de meros bonecos fabricados pelo sistema; aliás, somos o quê, a não ser um mero produto fabricado pelo sistema? Alguns até conseguem fugir dele mas dificilmente não é atingido, por isso prefiro parar de ser poeta".

Essa foi a decisão dele, deixar de ser poeta. E aqui entre nós, amigo leitor, poesia serve pra quê?

Ah, depois que ele deixou de escrever, morreu, mas nunca deixou de ser poeta.

adenildo lima

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