terça-feira, 31 de maio de 2011

Apenas um continho de fada

Era um sonho que eu tinha, poder um dia namorá-la. Ficava observando cada detalhe nela. Mas o olhar dela era o que mais me atraía. Até hoje não sei o motivo daqueles olhos serem tão poderosos a mim. Ela morava num outro sítio, bem distante do meu. Foi nela que dei o primeiro beijo. Estávamos numa festa. E alguns começaram a dizer: beija ela, beija... e eu todo tímido beijei aquela face suave. Sinto o sabor até hoje da pele do seu rosto. Ela sorriu apenas. E eu fiquei todo envergonhado, triste pelos cantos da casa. Ela foi o meu primeiro amor. Eu era apenas uma criança. E criança ama de verdade. Sonhei acordado milhões de vezes em tê-la como minha namorada. Meus amigos e meus familiares diziam que eu era apaixonado por ela. Eu dizia que não. E insistia que não, mas dentro de mim, lá no meu coração de menino enamorado, eu sofria a dor de um amor não correspondido, mesmo sendo apenas uma criança. Não lembro bem a idade que eu tinha. Acredito que menos de oito anos. Só que eu comecei a vida muito cedo, inclusive a vida de trabalho, comecei a trabalhar aos cinco anos de idade. Fui adulto quando criança e sou criança quando adulto.

Ela cresceu. Eu também. Alguns foram a mim dizer que ela estava com paralisia, e que podia ficar deficiente das pernas. Fiquei triste. Não lembro se eu chorei, mas fiquei triste. Fazia um bom tempo que não nos víamos. Recordo que depois de uns anos eu a vi. Ela riu com tanta alegria. Falei com ela e tive vontade de relembrar o beijo da infância, não tive coragem. Acredita, amigo leitor? Não tive coragem. Quando a adolescência chegou, consegui controlar os sentimentos, mesmo sentindo vontade de namorá-la. Alguns dos meus familiares falam que ela mudou muito ao crescer, que ficou menos bonita, o que é natural do ser humano, ou não, já que beleza é algo relativo. Conseguiu superar a doença. Dizem que ficou com algumas sequelas, mas nada que deixasse o corpo dela deficiente. E agora nem sei o motivo que me levou a lembrar dela. Eu comecei este texto para escrever outra coisa, mas de repente ela veio a minha mente. E estou escrevendo.

Já morando em São Paulo, um dia fui buscar meu pai na rodoviária do Tietê; não lembro o ano. Por uma coincidência, não sei, ao olhar o ônibus em que meu pai estava, a vi. E a reconheci. Já fazia bastante tempo. E ao conversar com meu pai, ele disse que ela tinha perguntado por mim. Ela riu quando me viu, mas não veio a mim. Até esperei um abraço dela. Parece que ela estava com o marido, não lembro. Foi a última vez que a vi. Lembro dela até hoje. Gostaria de poder reencontrá-la, nem sei o motivo. Acho que ia perguntar se ela ainda lembra do beijo roubado. Ah, eu ia esquecendo de citar o nome dela: Rita. Mas eu a chamava de Ritinha. Ela era conhecida assim: Ritinha.

Tanto tempo já se passou, bastante tempo mesmo. Até gostaria de falar de alguns momentos brincalhões que tivemos, mas não recordo com precisão, acho melhor não falar. Quem sabe um dia eu a encontre...?...

Adenildo Lima

Um comentário:

Denise Mendes disse...

Que historia bonitinha! rsrsr
Isso realmente aconteceu com vc?
Creio que foi a pergunta que me ficou
pelo decorrer de todo texto. rsr
Bem, mas se aconteceu ou não esse conto é muito bom hem.

Um grande abraço, Denise. (:
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