quarta-feira, 13 de abril de 2011

A passagem

Natasha acordou cansada, queria largar a rotina, aquela corda que encurtava os seus passos. Olhou para o espelho do guarda-roupa, percebeu que o tempo estava passando e com ele a sua vida. O rosto já não era mais o mesmo de dez anos atrás. Pensou em casar, formar uma família, ter um filho, um marido que a amasse e um emprego onde pudesse dar o melhor para seu filho. Intacta diante do espelho, com os olhos fixos, encarando aquela imagem com olhar reflexivo. E era uma imagem forte. Uma lágrima caía dos seus olhos. Lembranças iam e vinham matutando em sua memória. E o espelho continuava ali defronte dela.

Aos poucos começou a sentir o gosto amargo e doce da vida. Lembrou da transa que teve com seu noivo um dia antes. Um prazer frio, já que ela era frígida, pois nunca tinha sentido um orgasmo durante os seus trinta anos vividos. E sonhava por este segundo, como qualquer mulher. O seu noivo era um daqueles idiotas que costuma levar flores todos os dias para a namorada, mas esquece dos mínimos detalhes de um relacionamento, porque dizer que ama alguém é muito pouco para quem realmente precisa ser amado. As flores murcham, e se forem artificiais, não têm essência. E pior, ele selecionava sempre flores sem espinhos.

E flores sem espinhos não são flores.

Natasha pensou em desistir do namoro. Pensou em largar tudo e sair mundo afora: sem destino sem hora, embora ela soubesse que a vida passa em cada esquina sem perguntar o horário. Desejou ter um outro namorado, ou pelo menos transar com outro rapaz para sentir uma diferença. Mas a sua cultura não permitia jamais um ato de traição. Preocupada, pensou também em se masturbar. Mas essa cultura não existe para as mulheres, infelizmente ainda há um grande tabu e preconceito. Foi para o banheiro se banhar. Tirou a roupa. Olhou o espelho ali na sua frente. Passou as mãos nos seios, na barriga, no sexo e ligou o chuveiro, e a água banhou o seu corpo.

Depois ela viu o relógio. Já estava atrasada. Maldito relógio, pensou. Decidiu não ir trabalhar. Precisava fazer alguma coisa de diferente. Ficou toda a manhã em casa. À tarde ligou para um amigo, convidando-o para passear. Foram ao cinema, assistiram ao filme A última música. E em seguida sentaram-se numa mesa de bar para saborear um chope. Começaram a falar da vida, da rotina, do futuro, do passado, do presente... e a cada momento percebiam que era tudo igual, só mudava mesmo a época. E por fim, ela confessou que era frígida.

Seu amigo nada disse. Apenas a ouviu com a atenção necessária. E ela dizia que precisava sentir prazer. Ao ouvir isso seu amigo falou:

- Deixa de ser boba, oh menina, o prazer da vida não se resume a sexo. O sexo apenas faz parte, mas não é tudo. Possivelmente você seja assim por não ter uma confiança nos seus parceiros. Muda de namorado, perde o medo de viver. Viver é uma merda, então qual o motivo que te leva a ter medo? Todos vamos morrer, esta vida é uma passagem rápida, e outra, não pense que vai encontrar a eternidade noutros mundos, a não ser, ao se misturar à natureza.

Natasha chorou. Uma lágrima caiu, e olhando para ele disse:

- Preciso pensar sobre muitas coisas, e uma delas é a vida.
- Não pense, viva. E isso basta.

Adenildo Lima

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