segunda-feira, 14 de março de 2011

Teresa

Esses dias lembrei de Teresa. Nem sei o que me levou a lembrar dela. E essa lembrança está comigo há quase quinze dias. Já faz aproximadamente dez anos que a vi. Na época, eu trabalhava de balconista na lanchonete do Hospital e Maternidade Modelo, na Rua Tamandaré, SP. E ela era secretária do pai dela, que era médico. Mas como "todos" os funcionários de um hospital passam pela lanchonete, Teresa logo no início foi lá, pela manhã. Não lembro exatamente o que ela comprou, mas tenho guardado aquele sorriso transparente.

Sim, guardo dela o sorriso transparente. Tinha, acredito que dezoito anos, acabara de concluir o ensino médio. Namorava um rapaz que sempre ia buscá-la num carrão. Às vezes ela parava, assim, por segundos, para conversar comigo. Lembro que ela falou que estava estudando para prestar vestibular, que estava precisando de uma grana, por isso estava trabalhando com o pai. Demonstrava em algumas palavras uma determinada insatisfação pela vida que tinha, e parece que se sentia bem ao parar por segundos para conversar comigo. E tudo aquilo me deixava uma pergunta, um questionamento.

A pergunta até hoje não sei qual era, mas sei que me fazia bem aqueles segundos em que conversávamos. Muitas vezes fiquei observando-a sair da lanchonete, caminhando em direção ao hospital. Um avental bastante longo, vestia aquele corpo esquelético que, com o charme dos seus cabelos longos, parecia aos meus olhos uma obra de arte andante. E, em mim, vinha um desejo de um dia namorá-la, mas logo esse desejo era deixado de lado, pois a diferença social não me permitia ir além, de admirá-la.

Lembro que uma vez eu passei defronte o escritório, onde ela trabalhava, dentro do hospital, apenas para receber de relance um sorriso. E recebi. No fundo, no fundo... acredito que ela tinha uma determinada simpatia por mim, humanamente falando. Era um sorriso tão sincero, aos meus olhos. Na época tínhamos quase a mesma idade, mas eu ainda estava no último ano do ensino médio, correndo contra os obstáculos da vida para poder concluí-lo. Ela já se preparava para entrar na universidade.

Um dia ela me perguntou qual curso eu iria fazer, falei que ainda não tinha uma escolha determinada, mas pensava em Psicologia, Direito... mas que tinha um sonho em segredo dentro de mim, o de ser escritor. Ela riu, não sei se desacreditando ou com um ponto de interrogação perdido no ar. E continuamos a conversa. Em alguns momentos ela, com aquele jeito meio rebelde cravado na alma de menina burguesa, querendo dar um pulo e não seguir os ditames que a família exige, disse que estava levando a vida e acreditava que em breve casaria.

Sei que se passaram dez anos, aproximadamente. Não sei como ela está. Possivelmente esteja com filho, ou com filhos. Casada, ou separada. Talvez tenha conseguido concluir um curso superior, e talvez não. Talvez lembre que um dia trabalhou lá, ou esteja trabalhando, exercendo uma outra função, já que aquela era apenas um passa tempo. E de mim, tenho plena certeza que ela não lembra. Não sei qual o motivo de eu pensar assim, mas não acredito que ela lembre que eu existi. E se por acaso nos encontrássemos hoje, talvez parássemos para conversar um pouco mais. E ela iria perguntar como estou.

Responderia que concluí o curso superior, que não trabalho mais na área de restaurante, que consegui realizar o sonho de ser escritor, que no momento estou fazendo mestrado, que nunca casei, que não tenho filhos... e perguntaria a ela se o nome dela é escrito com Z ou com S. Ela iria rir, com certeza, diante de uma pergunta tão banal, mas foi esta pergunta que nos aproximou na época, lembro.

Adenildo Lima

2 comentários:

Sam disse...

"Onde está Teresa?"

Há momentos em que só nas lembranças (re)encontramos algum passo que nos faça voltar.

Abraços, flores e estrelas...

Improvisos de um louco disse...

pois é, sam...