segunda-feira, 14 de março de 2011

Qual é a relação entre culpado, responsável e vítima?

Para responder uma pergunta desta, primeiro, precisamos saber que cada caso é um caso completamente diferente, mas podemos pegar como base alguns exemplos, e um deles, posso citar, o de uma estudante de turismo numa universidade do Estado de São Paulo. Ela foi para o campus acadêmico com um vestido curto, e isso, segundo os fatos relatados pela imprensa, causou uma, se posso dizer: rebelião. Centenas de alunos saíram das salas de aula gritando e, até agredindo-a, verbalmente, chamando-a de prostituta, dizendo que iriam estuprá-la etc., sendo preciso chamar a polícia para escoltá-la.

Esse assunto foi notícia no mundo inteiro, até aos dias de hoje é possível ouvir comentários. A universidade, a primeira atitude a tomar foi expulsar a aluna, alegando “flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”. E aí fica um questionamento: o que é um desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade de uma entidade educacional?

Moramos num país tropical, se formos a Universidade de São Paulo, USP, em tempo de calor, veremos as meninas com vestes inteiramente curtos. E até mesmo professoras, como já vi em muitas escolas e faculdades. A pergunta que fica é: a estudante é vítima, culpada, ou responsável pelo o que aconteceu?

Eu gostaria de dizer que ela é vítima. Ela foi estudar com trajes que sempre usou, conforme relata as reportagens, com o próprio depoimento dela. Mas no momento em que aconteceu o reboliço contra a ela dentro da universidade e, em seguida ganhou as páginas da internet, e a mídia em geral, ela foi punida com a expulsão e, automaticamente, vista como responsável pelo o que aconteceu. Será que ela é culpada, vítima ou responsável? Sinceramente não sei. Mas sei que em nosso país, e em nosso mundo o culpado é sempre o menos favorecido. E isso acontece com as nossas crianças, adolescentes e jovens quando entram em conflito com a lei.

Sim, é uma comparação, talvez até considerada sem lógica, mas ao meu ponto de vista, não. Como podemos culpar uma criança que pode ter em suas mãos uma arma para assaltar? É apenas uma criança. Vamos culpar a família? Já que a constituição no artigo 227 diz que É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Como culpar a família se muitas vezes aquela criança nem uma “Família” tem? Culpar a sociedade? Como se a sociedade não recebe um amparo do Estado? É, diante de tudo isso me resta apenas dizer que o responsável pelas infrações: É o Estado, o sistema político de um país, já que sabemos claramente que é mera ficção, até o momento, este artigo 227 da constituição de 1988.

Assim, no final da história, se forem bem analisados pela justiça, os atos cometidos pela criança, pelo adolescente... na verdade, eles são apenas vítimas de um sistema político que não tem como prioridade o bem-estar da sociedade, mas sim, seus próprios interesses. E, por pior que pareça tudo isso, nos deixa uma abertura, instigando de nossa parte, a luta para fazer valer à pena a constituição que temos.

adenildo lima

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