quarta-feira, 2 de março de 2011

O homem da manhã

O homem acorda cedo, a madrugada espreitando seus passos. Veste uma calça surrada, um sapato de couro, o homem da manhã com um talismã nas mãos, e visita com os olhos outros olhos de vidro que o acompanham pela sombra baixa.

Eu não tenho o sereno do seu rosto, eu não tenho a fé imaculada do seu coração. O homem teso do dia que vai embora para a sua morte.

É preciso morrer duas ou três vezes ao dia, para que a vida surta efeito, para que a noite dolorida e perigosa não abrigue os fantasmas do meio dia que assolam a cabeça do homem da manhã.

Não haveria sorte alguma, não fosse as mãos segurando o estandarte pela tarde que cai. Do outro lado da rua, choram as meninas e suas crias, choram também Maria e Bernadete.

O homem é uma estátua com duas mãos erguidas ao céu. E na sua fama, na cordilheira que se abriu aos olhos marejados, assume sua condição de pedra e mármore. Agora não há o asfalto calcinando seus pés e a presunção que o arrebata diante do mundo, é um castelo feito de folhas espalhadas: ao menor vento alçam voo, como também é o sonho de Maria, como também é a tarde que cai.

O arrebol se desenhou, nuvens espalhadas e sol se escondendo atrás dos edifícios, porém o homem se lembra que na penumbra, a dor não é percebida, pois não há o lume dos dias, nem a vela ainda acesa.

Desconhece que o riso seja feito em sua boca. Ainda que todos seus dentes tenham caído, ainda que na aurora, engatinhou chorando para os braços alheios e estranhos que o acolheram, ainda não sentiu. Era apenas febre.

Mas a noite é feita de estrelas, e a cabana reflete os raios pratas da lua, é quando o homem volta para casa, é quando se dá conta de que o dia nem existiu. As portas todas fechadas, alguma janela entreaberta bisbilhiotando entre frestas esse passar tamanho.

Autoria: Márcio Ahimsa.

fonte:http://tecerpalavras.blogspot.com/2011/02/o-homem-da-manha.html

Nenhum comentário: