domingo, 20 de fevereiro de 2011

São Paulo, 20 de fevereiro de 2011.

Minha querida Clarice,

Neste momento, aqui, diante da máquina, veio-me uma lembrança boa: você. Passaram-se tantos anos, nem sei se você ainda lembra de mim, mas quero dizer que nunca te esqueci. Nunca! Lembro daquela noite em que você me levou para o seu apartamento. Conversamos bastante; bastante mesmo! Nos beijamos, nos beijamos, nos abraçamos, e ficamos rindo da vida, olhando a imensidão do tempo através daquela janela. E logo em seguida fui para casa.

Você pediu para eu ficar, para dormir contigo, disse, até, que queria fazer amor de verdade, pois fazia muito tempo que não vivia isso, um amor de verdade. Ri, e disse que não podia, e fui embora. Lembro que ficastes chateada. Olhei teus olhos olhando para mim. Tão lindos! Ah, e aquele corpo deslumbrante diante de mim, ali, com os bicos dos seios pontudos pela transparência de sua roupa. Lembro perfeitamente aquele momento.

Sei que o tempo foi passando e a cada dia mais que se passava você se sentia apaixonada por mim. E eu morrendo de medo de me envolver contigo. Sim, Clarice, eu tinha medo, e você sabia disso. Eu, um simples jovem, vivendo uma experiência louca naquela casa, ali, como segurança. E vendo você saindo a noite toda com vários homens. Confesso que tinha medo. E você sabia, eu sei que você sabia.

Lembro das madrugadas em que nós dois ficávamos, ali, conversando, eu encostado e você diante de mim. Muitas vezes você ficava sentada no sofá e me olhava como se eu fosse um santo. Ficava assustado. Tinha medo. Percebia o teu olhar apaixonado, a tua vontade de viver um verdadeiro amor numa transa, como você mesma falou.

Sim, lembro que você falou que eu só não te queria pelo motivo de sua profissão. Fui sincero, e confirmei. E agora estou imaginando aquela cena, seus olhos derramando lágrimas de verdade. De verdade. Pensou em me abraçar. Pensou em sumir. Pensou em deixar de viver. Eu percebi. Suas lágrimas eram verdadeiras. E muito! Agora eu imagino o quanto você deve ter sofrido, mas como te falei, eu tinha medo. Medo de verdade. E você ajudou a superar aquele medo.

Clarice com seus 23 aninhos, sonhando como toda mulher sonha, o sonho de encontrar um grande amor, acreditando cegamente que eu era ou seria essa pessoa. Ah, Clarice, como fui apaixonado por você. Você se mostrava tão humana, doce, tão amável. Me desculpa se te fiz sofrer. Eu tinha medo!

Mas acredito que valeu a pena aquele momento de amor que tivemos. No momento em que eu tirava sua roupa, fiquei pasmo, senti seu corpo tremendo, e o seu coração batendo forte. Perguntei a mim mesmo: como pode uma mulher tão vivida sexualmente ficar assim? Parece que você me ouviu, pois ao falar ao meu ouvido dizia que nunca tinha amado, que nunca tinha sentido o que estava sentindo naquele momento.

Depois daquela noite, percebi que a história mudou um pouco, você passou a ter medo, pois se sentia inteiramente dominada pela paixão. E resolveu sumir. Nunca mais tive notícias suas. Espero que estejas bem, já que eu também tive medo, e acredito que o medo ajudou a nós dois.

Mil beijos,

Guilherme.

por adenildo lima

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