terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Relógios

É madrugada e, encontro-me aqui, sozinho, caminhando pela estrada afora, sem destino e sem hora embora eu saiba que estou taciturno. Vejo luzes, vejo trevas; temo à solidão deste madrugar, procuro amigos. Todos morreram, ou nunca existiram. Continuo caminhando, lembro de tantas coisas que fiz, e no final, começando aqui, parece que esta estrada não existe, é pura ilusão criada por mim para iludir esta dor.

Em algum lugar ouço vindo as batidas dos ponteiros de um relógio. E ele me obriga a correr mais e mais. Estou cansado, as minhas pernas estão cansadas, mas percebo que não são elas que estão cansadas, é que estou cansado mesmo. O meu olhar procura o chão. Tenho medo de ferir a minha face, me faço forte e obrigo as pernas a caminharem, mas a mente realmente está cansada e fica ouvindo mais e mais e mais as batidas do ponteiro do relógio. A rua se torna cada vez mais deserta e longa. Longa demais!

É madrugada e até mesmo o silêncio me atormenta. E em algum lugar um piano toca. Sinto vontade de chorar, mas já não tenho mais lágrimas, todas se misturaram com o néctar das flores da rua solitária, pois nem mesmo uma criança passa por aqui. Ah, se eu pudesse chorar. Mas de que adiantaria um choro neste momento se o meu lenço o vento levou? Se pelo menos existisse um amigo; pena! todos já morreram ou nunca existiram. Difícil é aceitar o barulho do relógio. Me atormenta tanto.

Caminhando, acho que chego a algum lugar. É impossível alguém se perder enquanto sonha; mas o sonho também é uma grande ilusão. Parece que quer chover, parece que a madrugada quer esquentar o meu corpo com pingos de orvalho. Ah, a madrugada, às vezes ela é carinhosa. E se eu gritar, quem irá me ouvir? Não sei, já gritei tanto, já caminhei tanto, já amei tanto... e nem sei se alguém percebeu. Só o concreto desta estrada pode me ouvir e sentir as batidas dos meus pés aguçando momentos fortes e duros de um caminhante solitário.

Lembro dos sorrisos que já dei, dos abraços que já abracei, dos amores que já amei, mas nem sei se um dia realmente isso existiu, assim, como meus amigos que já não existem mais ou nunca existiram. E será que existem amigos - pergunta o meu coração, mas ele está cansado e sinto que as batidas dele agora se misturam com as batidas dos relógios. Malditos relógios!!!

Sabe, se eu pudesse transformaria esta rua num jardim de flores e ficava apenas colhendo o néctar das gotas de orvalho...

adenildo lima

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