quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O retrovisor

Natália acordou. Foi ao banheiro, escovou os dentes, ficou observando por um segundo a água caindo da torneira. Lavou o rosto. Voltou para o quarto, olhou o relógio. Ainda sobra tempo para um banho, disse ela. Entrou no banheiro, mais uma vez. Tirou a roupa, olhou o corpo refletido no espelho e, firmemente, ficou observando os seios. Não são mais os mesmos de cinco anos atrás, pensou. A vida é uma grande loucura mesmo, eu tinha um corpo tão bonito, como está diferente. Sentiu raiva do espelho. Sentiu vontade de culpar as duas crianças. Não, elas não tem culpa, ressaltou.

Ligou o chuveiro. A água aquecia seu corpo. Água morna, e gostosa. Enquanto a água domava o corpo dela, algumas lembranças vieram. Sim, foram simples lembranças, amigo leitor, mas a fez chorar. O por quê? Não sei, juro que não sei. Só que ela era muito vaidosa, quando tinha lá seus vinte anos de idade. Até usava o corpo como produto para exibição, como se fosse seu verdadeiro cartão postal. Sim, Natália chorou por mais de dez minutos.

Sei que talvez você não acredite, e até diga que essa anedota, contada por mim - se posso chamá-la de anedota -, tem verossimilhança. Te garanto que sim. Natália, se formos buscar a história dela lá do começo, é possível descobrir e perceber que ela sempre foi uma jovem sensível. Foi criada nos moldes deste mundo capitalista. Foi educada que o dinheiro compra tudo, e foi isso que ela tentou fazer em toda a vida. Mas o tempo é um grande amigo (amigo?) das contravenções.

Amarrou a toalha no corpo cobrindo os seios um pouco decaídos e foi para o guarda-roupa. Tirou o uniforme, vestiu e ficou uniformizada, ou, se o amigo leitor me permitir digo: mascarada. Aquela roupa lhe dava poder. Tantas pessoas temiam àquele uniforme. Os saltos altos, quando ela andava, demonstravam um certo poderio. Cuide bem das crianças, Marieta. Falou dirigindo a palavra à empregada. E falou com seriedade. Acho que era reflexo do espelho.

Maldito espelho, saiu resmungando dentro do carro. Acelerou, cantando pneus, demonstrando imponência na avenida. Só não conseguiu mostrar-se forte para o retrovisor, pois a vida dela diminuía um segundo em cada acelerada que dava.

Natália chegou na porta da empresa, séria e determinada a dar ordens. Só não esperava ouvir de um mendigo que a vida dela era bem menos importante do que a dele.

adenildo lima

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