sexta-feira, 1 de outubro de 2010

cobertor de vento

gabriela estava sentada. a calçada estava fria. o sol tentava nascer através daqueles olhos, daquele olhar. sentia fome. sentia sede. sentia vontade de viver. mas estava morrendo. e através da janela dos seus olhos ela via as pessoas passando. umas correndo contra o tempo. outras correndo sem saberem pra onde. lembrou da mãe. lembrou do barraco lá na favela onde viveu durante sete anos. recordou que a mãe não existia mais fisicamente. dela, havia apenas lembranças. chorou. e a lágrima se perdeu pela face suja causada pela poluição do tempo. e ela chamava o tempo de TODO PODEROSO.

esperou o sol por mais de duas horas. ele não veio. veio uma chuva acompanhada por um vento frio. o dia passou e ela nem percebeu. a noite chegou e ela não sentiu diferença. agora já era madrugada. não lembrava mais da data de seu nascimento. tinha se perdido no tempo. não lembrava mais de quando tinha sentado numa cadeira pra comer alguma coisa. através da janela de seus olhos percebeu que não existia. percebeu que ninguém sabia da existência dela. chorou. e as lágrimas caíram sobre a cama improvisada. e o cobertor de vento. e o travesseiro de concreto. é, tudo isso tiraram-lhe o sentido do que era viver. e ela nunca conheceu o seu pai. agora gabriela deve está feliz, pois num jardim sempre haverá algum pássaro voando. e cantando.

adenildo lima.

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