sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Nauseando 6

Na calçada, numa rua sem nome, sem começo e sem fim, estava sentado um senhor com umas barbas brancas, bem grandes! Tênis rasgados, roupa suja; um diário, um livro de poesia, um de filosofia e outro de litaratura. Ele estava lendo DOSTOIÉVSK.

Caminhando, como se estivesse correndo, vinha Natália. Jovem, com uma bolsa nas costas, um vestido solto ao léu; ao ver o senhor, desviou a caminhada.

- Bom dia, filha. Não precisa ter medo de mim, pra onde você vai com tanto charme, eu também eu vou pro mesmo lugar, com a minha simplicidade.

Ela assustou-se. Parou, e ficou lá onde estava. Olhou-o, como quem não quer nada, e perguntou?

- Para que serve a leitura para o senhor? Tantos livros!
- Jovem, eu que te pergunto: para que serve o saber para uma menina de sua idade?

A reação dela era de espanto, não esperava parar e ficar conversando com mendigo. Teve curiosidade de saber o que o levou para as ruas. Sentiu vontade de perguntar, não teve coragem. Olhou para o celular, estava um pouco atrasada, a empresa do pai dela, esperava-a.

- Anda com pressa, jovem? Não adianta correr tanto. Você sabia que pode chegar primeiro do que eu para o lugar que estou me aproximando?
- Desculpa, senhor, não entendi. O que o senhor quer dizer com isso?
- Não quero dizer nada, se as palavras não disseram, quem sou eu para querer explicá-las. Mas te olhando bem, posso ser sincero? Você tem um belo corpo.
- Vai pra merda!!!
- Calma, garota, só estou pensando ele indo de encontro a terra, voltando, transformando-se em cinzas ou lama. Mas não se preocupe, se você está fazendo alguma coisa de útil, pode ser lembrada, depois que partir.

Ela já estava ali, há uns dez minutos, aproximadamente. Olhou, de relance, a capa do livro de poemas.

- O senhor gosta de Fernando pessoa?
- Não tenho nada contra a ele. Mas se eu tivesse o conhecido, talvez não gostasse tanto dos seus escritos.
- Como assim, senhor?
- Como assim, filha, você pergunta? A arte é uma coisa, já o artista, outra. Leio porque preciso respirar, e escrevo porque não tenho espaço para falar. Os meus escritos são vômitos, tudo o que tentam forçar para eu engolir, que eu não aceito, vomito.
- Nossa! Nunca tinha ouvido isso antes.
- Você vive num mundo da fantasia. A univerisadede, te ensina o quê? A tua vida de filha de empresário, te ensina o quê? Me fala!!!

Ele alterou-se um pouco. Ela ficou o observando. Era estudante de filosofia, mas nunca tinha ouvido um discurso tão filosófico, tão real. E ele falava da vida, como um verdadeiro vivente, a vida vivida nas entrelinhas do dia-a-dia, a vida sentida, ao contrário da vida dos livros, que ela tinha.

Natália perguntou o nome dele. Ele disse que não tinha nome. Perguntou o que ele gostaria de ganhar no natal. Ele disse que não acreditava em papai noel. Natália queria fazer alguma coisa. O quê? Não se sabia. Ele pediu pra ela ir embora. Ela foi.

Quase todos os dias ela passava ali, e olhava, com um olhar procurando alguém. Aquele senhor não se encontrava mais naquele lugar. Ela queria fazer alguma coisa de útil para se sentir importante. (Tinha tudo o que queria e depois que ouviu as palavras daquele senhor, descobriu que não tinha feito nada de importante em sua vida).

E, num determinado tempo, numa manhã sombria, no lugar daquele senhor, estava um jovem, barbas cortadas, cabelo penteado e todo sorridente.

- Natália! - ele gritou.
- Quem é você? - ela perguntou.
- Não lembra de mim, Natália? Mas você lembra quando tentou me humilhar, lá na empresa do seu pai, lembra, né?

Ela assustou-se. Tentou ir embora. Ele pediu que ela ficasse mais um pouco.

- Natália, lembra do senhor que estava aqui, naquele dia? Foi você que o pôs aqui. Mas ele cortou o cabelo, arrumou a barba e vestiu uma roupa nova. Viu como ele mudou? Hoje ele é até encontrado nas livrarias.

- Natália, agora sou eu que te pergunto: quem é você?

adenildo lima


Um comentário:

Erica Maria disse...

Nossa que bonito.

Vc deveria postar com mais frequencia...

Bjos no seu coração♥