sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Travesseiro de concreto

Era um dia de sábado, aproximadamente umas 19h, Lígia estava sentada no banco da praça central da cidade. Um olhar distante, um sorriso perdido no rosto infante, observava as pessoas indo e vindo, alguns sentavam nos bancos, outros brincavam como crianças num parque de diversão, eram casais de namorados. E apaixonados são como crianças no vão do tempo, todos felizes. Mas Lígia não estava namorando, muito menos passeando. Ali era a sua casa, era onde ela deitava, dormia, acordava e a vida nada mudava, e até parecia que não passava. Jovem, tinha aproximadamente uns 22 anos. Veio para cidade grande à procura da vida, não encontrando foi morar numa cidade do interior, e o único lugar que encontrou como hospedaria foi a praça, com aquela cama dura, com aquele travesseiro de concreto. Estava sozinha, não tinha ninguém por ela, lembrava constantemente de sua família, lembrava da roça, do canavial, do plantio de mandioca; da vida que levava lá no interior do país. Sabia, como ninguém, plantar, colher e comer. "Na cidade grande é diferente, se não tivermos cuidados, nós que somos comidos". - Ela se lamentava, ali, no banco da praça. Seus cabelos pretos e longos, sua cor queimada pelo sol, seus olhos verdes... estavam ao léu no banco da praça. Procurou emprego em todos os lugares possíveis. Ouvia sempre a mesma coisa: tem experiência? Não, né? Então não serve. E a história dela é dolorida, ela não veio por espontânea vontade, ela conta que foi seduzida por um comercial que ela assistiu na casa da tia dela na cidade, o comercial mostrava São Paulo como o centro do mundo, como o melhor lugar do mundo. E pode até ser, mas não pra ela. Lígia viveu mais ou menos um ano na praça. De repente sumiu. Nunca mais viram aquele olhar, aqueles cabelos pretos e longos depois daquela. Nunca mais!

adenildo lima

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