quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Espinho

Dona Marinalva tinha uma criação de porcos. Criava, aproximadamente 100 por ano, todos para vender, com exceção de alguns que ela criava para matar na festas de natal, de final de ano. Marinalva dava nome a todos: Pretinho, Fofinho, Rajado... Espinho. Espinho, ela tinha um carinho especial por ele, estava criando-o para matar na virada do ano, pois ia receber um filho que chegaria de viagem.

Espinho foi crescendo e se tornando diferente dos outros porcos, aos olhos da dona Marinalva. Era carinhoso, brincalhão e adorava bater na porta da casa todos os dias às 5h da manhã, quando ela não levantava esse horário, ele sabia que ela tinha se atrasado para a lida.

Deitava-se no terreiro para receber o sol pela manhã que vinha rompendo a floresta por detrás das montanhas, com seus raios. Espinho abria as pernas e ficava todo relaxado.

"Espinho, vamos passear." dona Marinalva chamava-o.

Ele levanta-se com cara de preguiça, aquela falta de coragem e saía todo faceiro, contando os passos. E passeavam bananeira adentro, procurando cachos de bananas maduro.

E o tempo foi passando, já era dia 15 de dezembro. Dona Marinalva olhou para Espinho e sentiu uma dor no coração, pensou na morte dele, no corpo dele sendo cortado; pensou como seria a morte de Espinho. Imaginou consigo mesma numa morte diferente para o seu amigo, talvez uma morte com menos dor, uma morte diferente das dos outros porcos, já que ele era especial. Sentiu vontade de chorar.

"Não, não posso ficar assim, ele é apenas um porco". - pensou, com um olhar perdido para o infinito.

Espinho apareceu com um ar triste, enquanto ela pensava, acho que ele estava prevendo a sua morte, beijou a perna de dona Marinalva e saiu com seus passos lentos, todo faceiro, como sempre, só que diferente, estava triste.

Dona Marinalva começou a imaginar as cenas: um machado batendo na cabeça de espinho para fazê-lo desmaiar, e em seguida algumas pessoas pegando o corpo dele, ainda vivo, colocando-o em cima de um banco, e uma faca de oito polegadas entrando na garganta de Espinho, e ele dando um último grito. Ali, morreria o querido amigo de dona Marinalva.

Marinalva entrou, deitou em seu colchão de capim, ficou pensando, pensando, o dia amanheceu e ela não tinha conseguido dormir. 5h e alguns minutos, Espinho bateu na porta, ela levantou-se e foi cuidar da lida. Espinho acompanhou-a.

Chegou o natal. Foi matado um porco para a festa. Nesse dia Espinho saiu correndo, ao ver o corpo do seu amigo porco sendo cortado. Correu, gritou.... E nunca mais voltou!

adenildo lima


Nenhum comentário: