terça-feira, 18 de agosto de 2009

XXI

Todo mundo se organizando, vamos fazer a prova.

– Não vou fazer.

Um aluno levantou a voz, a sala inteira o acompanhou. Gritavam, xingavam o professor e a algazarra crescia. A diretora foi convocada.

– Bernardo, vamos à diretoria.

Bernardo levantou a voz, levantou a mão e meteu o dedo na cara do professor. A diretora ficou surpresa, não queria acreditar no que estava vendo, ficou sem reação, perdeu a voz.

– Este fessô é folgado, ele acha que é quem, dona Diva?

Dona Diva, apenas ouvia. Se fez forte, chamou o aluno, e o suspendeu por cinco dias.

– Tudo bem, dona Diva, vou te respeitar, não vou contra à senhora não, mas diga pro senhor Josemar que a coisa tá feia pro lado dele, beleza?

Na hora do intervalo os alunos não falavam em outra coisa, a notícia correu muito rápido, alguns até chegaram a falar que o professor Josemar tinha tomado um tapa na cara, que Bernardo tinha mandado a Diretora pra puta que pariu. Bernardo ao ser suspenso da escola, ficou lá fora, sentado na calçada.

– Tá fudido comigo, fessô.

Josemar ouviu, olhou fixamente nos olhos dele, observou os movimentos de suas mãos, e saiu caminhando, enquanto Bernardo se aproximava dele.

– Você aponta o dedo na minha cara e ainda quer me desafiar aqui fora? Lembre-se, lá dentro sou seu professor, aqui somos homens de igual para igual. Se você acha que é malandro, na vila onde eu moro, morre garotos iguais a você todos os dias. Para ser malandro precisa ser inteligente, rapaz.

– Mas, temos umas contas pra acertar, você é muito folgado, fessô.

– Estou trabalhando, não tenho conta nenhuma para acertar com você.

Enquanto o professor se virou e saiu andando. Bernardo pôs a mão no bolso da blusa, tirou uma arma com muita rapidez e atirou. No momento em que ele ia atirar alguém gritou. A bala não atingiu o mestre. Mas no outro lado da avenida surgiram uns gritos. Eram os gritos de uma senhora que passava, a bala tinha lhe atingido. Bernardo correu. Várias viaturas foram à procura dele. Foi preso. Era menor de idade. Não ficou muito tempo na prisão.

Dizem que lá, na prisão, ele tornou-se profissional e, hoje, dificilmente erra uma pontaria.


adenildo lima

Um comentário:

Cris Animal disse...

Essa é a nossa realidade. A realidade dos nossos jovens que teoricamente seriam o futuro. E eu pergunto?
Que futuro? Futuro em um campo de batalhas feito a sangue e o pior: sem ideal.

beijo pra vc