domingo, 7 de dezembro de 2008

O passageiro do voo dois mil e alguma coisa

A mulher queria trepar de qualquer jeito, mas o homem não tinha dinheiro suficiente para pagar a trepada dela. A noite estava muito bonita, tinha um homem morto lá no meio da avenida e uma criança pedindo comida num restaurante. O homem sentou na calçada e tentou abraçá-la com amor. Ela recusou. Ele abriu a carteira. Ela sorriu. Mas o maldito não tinha o dinheiro. Uma festa no outro lado da avenida estava rolando, e os adolescentes estavam todos felizes. Era tão bonito olhar aqueles jovens viajando como se fosse em um conto de fadas, acho que a noite pra eles era verdadeiramente como vê estrelas na imensidão coberta de neblina.

A mulher se levantou e saiu com passos lentos à direção do homem que tinha deixado de ser homem para ser o corpo de um homem. Ao chegar diante dele, ela pôs a mão em sua carteira e tinha duas notas de cinqüenta reais. Foi tão gostoso que ela gozou ali mesmo, e nem lembrou mais do homem vivo que não tinha o dinheiro suficiente. Foi embora e nem percebeu que aquela carteira era de um homem que tinha feito a mais bela viagem para a eternidade.

A madrugada começou a se aproximar, o sereno da noite começou a esfriar o corpo da mulher dos cem reais. Ela precisava se aquecer. Uma viatura fazia ronda, mas os faróis estavam apagados e não conseguiu ver o corpo do homem da avenida. Uma saia pequena, umas pernas bonitas, uns seios bem decotados – a mulher era atraente! Os policiais eram homens gentis e deram carona a ela pra protegê-la do frio da madrugada.

Coitada, dela! Quando o sol nasceu estava tão quente que o seu corpo ficou todo bronzeado. A madrugada é bela e a mulher nem sabe se é fria ou quente. O homem na calçada continua sentado com o seu amor querendo abraçá-la. A viatura às vezes pára defronte ao bar e troca uma idéia com os jovens viajantes. E alguém continua voando no vôo dois mil e alguma coisa.

adenildo lima

(obs: este artigo foi publicado aqui mesmo no mês de abril)

Um comentário:

Rosana disse...

A realidade é assim : dura, mas é real! Existe e está aí fora para quem quizer ver e talvez aprender! Valorizar até o que possui! Este é o mundo em que vivemos! Algumas pessoas preferem imaginar que esse mundo não existe ... preferem fugir ... então ...