sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ao meu pai

Existem datas em nossas vidas em que consideramos como importantíssimas. O número dez, por exemplo, eu sempre tive um certo apego; acredito que seja devido a data do meu aniversário (10/12). Hoje é dia 10 de outubro, faz exatamente um ano que este número me trai uma lembrança doída (deixo claro - não acredito em numerologia - acredito apenas no amor). Faz um ano que o meu ilustre pai partiu.

Foi no dia 10 de outubro, às 10:10 minutos da manhã que ele ganhou asas e se foi; segundo relatou os médicos, médicos - os quais - fizeram uma cirurgia mal feita que o levou a este caminho. Confesso que não aprendi a conviver com esta falta. Em casa, falamos muito pouco, referente a este assunto, acredito que seja uma maneira de não acreditar nesta concretização. Sabemos que ele se foi, que ganhou asas e voou. Sabemos também que se foi apenas o seu corpo, pois o ser humano é aquilo o que faz, e ele continua vivo por tudo o que fez.

É um assunto muito forte para eu comentar, até mesmo num blog, como este. Hoje, assistindo Luiz Gonzaga; impossível não vê-lo presente. Há um mês, aproximadamente que os fleches do acontecido passam diante desta visão de filho. Nesta madrugada mesmo, sonhei muito com ele. Me senti presente. Ele, que via, muitas vezes em mim, a imagem de pai. Ele, que sonhava ver em seu filho um Advogado, um Médico (talvez)... mas se deparou diante de um garoto vindo da escola e falando: pai, sou professor. E ele disse: Ser professor é ser pai e ajudar os adolescentes neste mundo tão conturbado, a ser alguém na vida.

Não precisava falar mais nada, ele disse tudo... tudo! estava feliz - lembro claramente. E se eu for um por cento para os alunos do que ele foi (e é) para os filhos, serei ou já sou um grande professor. Este assunto é um tema que nós carnais não estamos acostumados. Foi como se tudo tivesse ido junto: família, amigos, estudos; vida. Mas eu não podia, tinha um TCC pra começar e terminar em pleno final de ano. Ergui a cabeça e fiz em menos de 15 dias. E tirei um 9. Tinha uma família, e eu precisava mostrar que estava ali.

Essa semana, uma amiga me escreveu e perguntou o motivo de eu não comentar neste assunto (com ela). Esta pergunta mexeu comigo, confesso. Ao deitar, fiquei umas duas horas sem dormir. Depois escrevi, e a agradeci. Acredito que aquela pergunta me deu coragem para escrever isto agora. Foi uma pergunta importante. Ali, ela se mostrava de ouvidos abertos para me escutar; acredito eu.

Naquele mesmo mês (outubro do ano passado), subi no palco do auditório da Unirsidade em que eu estudava, onde acontecia um sarau, e falei sobre a importância de ter uma família, a importância de falar sempre para as pessoas que estão ao seu lado: que as ama. O auditório todo, se emocionou. Quase não consegui fazer aquilo, fazia pouquíssimos dias; mas fiz. Eu sabia que preciso dar continuidade a tudo o que ele me ensinou:

Ele foi o meu primeiro professor, o meu herói, meu deus e senhor (e é). Me ensinou a descobrir o amor muito cedo, e a aprender a viver e conviver com o amor. Chorar? sim, choro. Mas quem teve ou tem um pai igual ao meu, não deve chorar de tristeza. Não estou falando, pelo motivo de ele ter partido, quem me conhece, sabe disso. No momento, não falo da minha mãe, pois não preciso falar para o mundo o que eu posso falar pra ela.

Faz um ano, é impossível todo o acontecido não ser revivido pelas lembranças, é impossível a minha face não ser lavada por uma lágria que cai, é impossível não olhar para as paredes e não ficar procurando um rosto; seria impossível eu não fazer isso. Não estou triste, sou apenas poeta, e filho (principalmente!). A leitura deste artigo não é para causar pena, estou muito bem, mas as palavras servem para eu desabafar.

Segue abaixo um poema que fiz poucos dias depois. Obrigado!

Flores das lágrimas

Diante das flores

As minhas lágrimas

Caíram como pétalas

De rosas.

Vendo o meu rei

Com aquela coroa

Entrei em prantos,

Ele não precisava de coroa

Para ser rei,

Ainda era muito jovem

Para receber aquelas flores.

Não tive coragem de olhar

Mais a sua face.

As flores murcham,

As rosas também.

O homem é matéria,

Mas um rei será sempre

Um rei.

Tempestade de água caindo,

Tempestade de flores feitas amores

Caindo pela pele da flor.

Pela flor da pele.

Um grito solto

No silêncio de cada olhar

Um grito aprisionado

Por não poder fazer mais nada.

Uma dor corroendo o peito

Os espinhos calcando os pés

Um abraço apaixonado da mulher-amiga

Um beijo respeitoso de tantas e de tantos...

A semente transformada em vários frutos

E um fruto transformado em semente

Se misturando a terra

O círculo diante dos olhos

Tentando entender o que ninguém

Nunca conseguirá explicar

Talvez a madrugada esteja

Fria demais para dormir

Com esta lembrança.

O olhar perdido pelas paredes

Da casa procura entender

Porque a terra é tão

Egocêntrica e individual

Um olhar perdido pela

Imensidão do tempo

Procura entender,

Ainda mais, o que é o amor.

Mas não me perguntem

Se amo,

Se eu for responder

Talvez eu perca tempo

Para amar.


Por Adenildo Lima


2 comentários:

Rosana disse...

Te admiro muito meu amigo! E seu pai com certeza te admirava e te amava muito também! As lágrimas que caem é de saudade! Bjos em seu coração!

marcela disse...

Eu também sinto falta do meu pai e saiba que o importante é o que nos tornamos! Esse é o maior presente que podemos dar em homenagem a eles.