sábado, 12 de abril de 2008

Uma tese de doutorado

I
Doutor. Palavra poderosa, só em ouvir soa forte aos ouvidos. Antes eu pensava que doutor era ser médico ou advogado. Com o tempo descobri que não. Então o que é ser doutor, afinal?
Confesso que eu não sei o que é ser um doutor. Nunca o vi. Ando nas ruas, não o encontro, passeio nos parques de diversões não o vejo. Pergunto: por quê? Um besouro grita ao meu ouvido e diz que suas roupas pesam para passear num parque ou andar pelas ruas, pois, eles têm medo de que se sujem com a roupa do homem comum.
Comecei a duvidar de que doutor existe, que é uma invenção de um povo que anda à busca do mal... que seja dito: poder. Comecei a me preocupar, li vários livros e lá estava escrito: “Doutor fulano”.
II
Desesperado com a ânsia de conhecer um doutor, fui a um salão nobre – e era nobre mesmo a sala. Sentei, todo tímido, com um olhar observador. Detrás de uma mesa estava um senhor de olhar sério, e com uns óculos que transmitiam um determinado poderio. Eu o olhava, mas ele nem percebeu que eu estava lá. Alguém anunciou “compõem a banca os doutores...”. Na minha inocência fiquei feliz “agora conheço um doutor, ou, vários doutores de uma só vez”. Engano meu, eles não conseguiam me vê. Gritei: Vocês são cegos?! Um deles falou “tira-o fora, está atrapalhando”. Fui convidado a sair. Saí. Voltei. Eles não me viam mesmo. Sentei naquela cadeira nobre. Tudo ali era nobre, até a cadeira. Alguém defendia uma tal “Tese” sobre meninos de rua. Os doutores gesticulavam, falavam, argumentavam, mas eram tão artificiais. Não aguentei, me levantei e disse: vocês não sabem o que estão falando. Está tudo errado. (ali, quem era eu para dizer que os “doutores estavam errados”?). Eles pararam e me convidaram mais uma vez a sair.
III
Saí. Alguém tentou fechar a porta, falei “é público, senhor”. Entrei. Os doutores não me viam mesmo. Desconfiei, não conseguindo entender a falta de visão deles. Mas eles liam e riscavam papéis, argumentavam e diziam palavras bonitas, mas não conseguiam ver nada além daquela mesa, mas acreditavam que podiam falar de meninos que moravam nas ruas. Falei mais uma vez: todos vocês estão errados, os senhores doutores e a senhora defensora desta tal “tese” nunca viveram na rua, é bonito falar no papel a dor de uma criança que para não morrer de fome e de frio cheira cola. Tudo isso é muito bonito quando vocês escrevem, é até poético, emocionante. Mas nada se iguala a dor de estar lá, sendo guardas noturnos, e sendo expulsos pelos próprios guardas. Me perdoem senhores, não tenho a palavra bonita igual estas aí, mas posso dizer sem medo que todos estão equivocados. Equivocados! Se tem alguém que conhece deste assunto sou eu. E convido qualquer um a discutir comigo”.
IV
Naquele momento houve um silêncio. Todos pararam para poder me olhar dentro dos olhos. Mostrei postura, confiança, conhecimento no que eu estava falando. O auditório ficou pasmo ao ouvir a minha voz diante deles. Continuei meu discurso: “O nosso país não precisa de doutores. Precisa de homens comuns, de alguém que anda nas ruas, de alguém que pisa na terra seca, de alguém que vai ao sertão para saber o que é ficar sem beber água, de alguém que conhece o povo. Doutor não é povo, é uma invenção de alguém que usa o poder para deter o menos favorecido. Tanto estudo, tanto conhecimento e de tão pouco conhece. O conhecimento só existe quando é dividido. Uma criança chora nos faróis da cidade, enquanto seus filhos, doutores, bebem o nosso leite e escravizam nossas ‘mamas áfricas’. Senhora defensora desta tal ‘tese’ estudou tanto e posso garantir que sabe menos do que eu que nunca tive a oportunidade de estudar. E saibam que eu não sei de nada. Ou talvez eu sei de que sei que nada sei.
V
Alguém no auditório chorou. Vi cair dos seus olhos uma gota de água. Me levantei. Olhei dentro dos olhos de cada um. Perguntei se eles queriam argumentar alguma coisa. Nada. Nada eles falaram. Saí. Andei um pouco. Depois sentei num lugar qualquer e fiquei pensando em tudo o que eu tinha falado. Eu, sem estudos, sem família, sem lar, sem comida, consegui calar os doutores com os seus conhecimentos. Falei comigo mesmo em silêncio: “o que é um doutor’?
Por: Adenildo Lima

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