sábado, 5 de abril de 2008

Século XXI

De um lado, uma rua com mansões e carros importados. Do outro lado, a visão renegada de um país chamado Brasil. No meio, a avenida que dividia aquelas duas nações.

Nas mansões tinham crianças nas melhores escolas, jovens nas melhores faculdades. No outro lado tinha crianças sem comida, sem roupa, sem estudo, jovens sem faculdade, adultos sem emprego.

Tudo estava tão próximo-longe. Uma senhora perguntava: onde está o espelho - no lado de cá ou no lado de lá? Uma criança chorava. A luxúria enxergava tudo aquilo como a vergonha do país, a foto mal revelada, o atraso da pátria. Um político sorria ao assistir toda aquela cena.

De um lado tudo era de sobra, mas a sobra nunca chegava ao outro lado. Uma avenida dividia aqueles dois mundos: ouro, prata, ódio, poeira, amor, humildade. A humanidade caminhava como humanos, mas dentro do coração circulava a ganância de um povo quem nem sabia o significado da palavra humano.

No meio daquela avenida tinha uma barreira e o Muro de Berlim. O amor não sabia como se infiltrar. Um dia aquela senhora saiu do seu pequeno barraco, derrubou a barreira e foi para o outro lado. Ao chegar viu um espelho refletindo a imagem daquelas mansões. Ela que amava, chorou. Pôs a sua criança no colo e bateu na porta de um daqueles casarões. Uma voz respondeu: aqui não tem ninguém.

Pobre senhora de um tão rico amor, concretizou que ali não tinha ninguém. Mas lá dentro tinha muitas pessoas, estavam em festa, comemorando a própria inexistência.

Ela não se conformou e gritou. Deu um grito tão forte que fez todos saírem. Ao saírem quiseram espancá-la, mas no meio entre eles alguém conseguiu vê toda aquela beleza refletindo no outro lado e disse: olhem! Toda esta maravilha em que vivemos o espelho não consegue enxergar, ele apenas nos mostra uma certa igualdade.

Entre tantos comentários, aquela senhora conseguiu mostrar que todos nós somos iguais e que a pobreza é o reflexo da burguesia nojenta que só pensa em si e que toda a riqueza é nada mais ou nada menos de que o suor sofrido de um povo que ama.

Todos deram as mãos, se abraçaram, quebraram todas as barreiras e muros daquela avenida, levaram a festa para rua e comemoraram a existência de um povo que ama, que acredita que escola é feita para todos, que faculdade é um direito da sociedade em geral, que a vida não está resumida em apenas ouro, pois o ouro para ser ouro precisa das mãos de um povo que derruba o seu suor salgado que é bem mais doce do que muito vinho amargo.

Eu, autor deste texto, acredito na humanidade, e assim, acredito em você que acaba de lê-lo. Acredito que o grito de cada um é capaz de derrubar a barreira do preconceito, da desigualdade, de unir as mãos de um negro, de um índio, de um mulato, de um branco, de todos. Acredito que você não é o que tem, mas sim, apenas o que é dentro de si.

E você, acredita? Eu acredito que você acredita, por isso concluí este texto.

Por: Adenildo Lima

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