sábado, 5 de abril de 2008

O passageiro do vôo dois mil e alguma coisa...

A mulher queria trepar de qualquer jeito, mas o homem não tinha dinheiro suficiente para pagar a trepada dela. A noite estava muito bonita, tinha um homem morto lá no meio da avenida e uma criança pedindo comida num restaurante. O homem sentou na calçada e tentou abraçá-la com amor. Ela recusou. Ele abriu a carteira. Ela sorriu. Mas o maldito não tinha o dinheiro. Uma festa no outro lado da avenida estava rolando, e os adolescentes estavam todos felizes. Era tão bonito olhar aqueles jovens viajando como se fosse em um conto de fadas, acho que a noite pra eles era verdadeiramente como vê estrelas na imensidão coberta de neblina.

A mulher se levantou e saiu com passos lentos à direção do homem que tinha deixado de ser homem para ser o corpo de um homem. Ao chegar diante dele, ela pôs a mão em sua carteira e tinha duas notas de cinqüenta reais. Foi tão gostoso que ela gozou ali mesmo, e nem lembrou mais do homem vivo que não tinha o dinheiro suficiente. Foi embora e nem percebeu que aquela carteira era de um homem que tinha feito a mais bela viagem para a eternidade.

A madrugada começou a se aproximar, o sereno da noite começou a esfriar o corpo da mulher dos cem reais. Ela precisava se aquecer. Uma viatura fazia ronda, mas os faróis estavam apagados e não conseguiu ver o corpo do homem da avenida. Uma saia pequena, umas pernas bonitas, uns seios bem decotados – a mulher era atraente! Os policiais eram homens gentis e deram carona a ela pra protegê-la do frio da madrugada.

Coitada dela! Quando o sol nasceu estava tão quente que o seu corpo ficou todo bronzeado. A madrugada é bela e a mulher nem sabe se é fria ou quente. O homem na calçada continua sentado com o seu amor querendo abraçá-la. A viatura às vezes pára defronte ao bar e troca uma idéia com os jovens viajantes. E alguém continua voando no vôo dois mil e alguma coisa.

Por: Adenildo Lima

Um comentário:

BELL disse...

eSuas palavras retratam bem um Livro/filme chamado "o admirável mundo novo"*
Dificultamos muito nossas vidas, somos carentes de afeto, de cultura, de amor, de simplicidade.Damos valor às coisas supérfluas. Onde o importante é o ter, e não o ser. Deixamos de lado os valores que realmente interessam. Será que os adolescentes realmente estão felizes, ou estão exibindo seu all star, seu ipod . Será estamos procurando a nossa felicidade ou status? Será que sabemos o que é felicidade? Muitas vezes ela esta ao nosso lado, mas não conseguimos senti-la, e mesmo assim fingimos ser felizes, não temos tempo para as coisas simples da vida, estamos vivendo “o admirável mundo novo”, que mesmo escrito em outra época, parece retratar o mundo de hoje.
* "O Admirável Mundo Novo, escrito por Aldous Huxley em 1931 é uma “fábula” futurista relatando uma sociedade completamente organizada, sob um sistema científico de castas. Não haveria vontade livre, abolida pelo condicionamento; a servidão seria aceitável devido a doses regulares de felicidade química e ortodoxias e ideologias seriam ministradas em cursos durante o sono. Olhando o presente, podemos imaginar um futuro semelhante em termos de avanços tecnológicos. Será ele de excessiva falta de ordem, da ordem em excesso preconizada por Huxley ou já vivenciamos o pesadelo virtual de Matrix, a fábula cinematográfica atual?"